A 48 horas do fim da campanha, nota-se algum desânimo na caravana socialista. José Sócrates continua de manhã à noite a defender as mesmas ideias-chave: a defesa do Estado Social na saúde e educação, a promessa de que não haverá mais medidas de austeridade além das que constam do programa da troika. Na recta final desta campanha, as sondagens mostram que isso pode não chegar, pois o PSD está a ganhar a preferência dos eleitores.

As palavras de Sócrates repetem-se todos os dias com a mesma entoação, embora com a voz traída algumas vezes pela laringite que há vários dias o deixou rouco e quase afónico. Pode parecer irónico, mas Sócrates pode não chegar de novo a vencedor nas próximas Legislativas também por causa de uma laringite resistente no seu caminho.

Não há comícios sem bandeiras do PS, palco e música da moda com refrão adaptado ao nome do partido. Cerca de uma hora antes de cada acção de campanha, chegam carrinhas da caravana que acompanha esta volta a Portugal de José Sócrates. A máquina socialista distribui panfletos, t-shirts e outros brindes antes do candidato socialista chegar a cada cidade.

Quando ele sai do mercedes de vidros fumados, já está tudo pronto e em ambiente de festa. Nos comícios, o speaker lança um sonoro: «Não tenham medo de agitar as vossas bandeiras, as nossas bandeiras». Mas a comícios e jogos de bola só vai quem gosta mesmo muito. Os indecisos não costumam pôr ali o pé.

A máquina socialista no terreno tem fama de ser bem oleada, o que se confirma nesta campanha. Uma bandeira per capita, bancadas e palcos montados de manhã para os comícios da noite garantidos com o profissionalismo de uma empresa do ramo.

Nos recintos fechados, colocam-se cortinas negras para disfarçar as bancadas superiores dos pavilhões, normalmente vazias e que não ficam bem nas televisões. E isso já diz tudo, aqui não se brinca. Há ainda luzes montadas, altifalantes de muitos decibéis, uma grua com câmara de filmar, como nos melhores concertos.

A agenda é divulgada com dois dias de antecedência, mas Sócrates faz-se esperar, a maioria das vezes, como noiva em dia de casamento. Chega quase sempre atrasado. As razões: às vezes porque tem outros pontos de agenda fora da caravana, outras porque está reunido com o seu gabinete de crise a tentar resolver a melhor forma de reagir a um tema do dia mais duro, outras ainda porque esta à espera que os apoiantes se mobilizem para o local de encontro.

Entre duas acções de campanha, José Sócrates passa por vezes num hotel para descansar, refrescar-se e trocar de camisa. Noutras ocasiões, sabemos também que fica à espera no carro numa estação de serviço. A fazer tempo.

Quando José Sócrates sai do carro, uma das duas equipas do corpo de segurança pessoal cerca-o. Em segundos, vários membros da Juventude Socialista fazem o mesmo, formando um segundo anel à volta do candidato socialista. Depois dos incidentes com manifestantes em Faro, na passada quinta-feira, vieram reforços da jota, 10 a 15 antigos membros da organização partidária experientes em campanhas eleitorais.

Quando Sócrates chega a uma localidade, já está montado o camião com o palco portátil. José Sócrates fala sempre nesse palco móvel, rodeado por dirigentes. No meio do povo, na rua, o candidato é pouco comunicador, mas está sempre sorridente.

Beijinhos, autógrafos, dedicatórias - mas não faz conversa com praticamente ninguém.

No comício de Leiria, esta quarta-feira, surpreendeu os jornalistas ao fazer referência a uma Arminda Lourenço, a melhor empregada da Galp, emprego conseguido por ter tirado o curso nas Novas Oportunidades. O caso podia ter feito parte da estratégia de campanha, mas a estória não sobreviveu à manhã seguinte do comício.
Paula Oliveira