O antigo Presidente da República Cavaco Silva considera que a sua intervenção foi decisiva para evitar "o erro político" do aeroporto na Ota, revelando que o então primeiro-ministro José Sócrates percebeu que "lhe criaria sérias dificuldades" caso não recuasse.

O novo aeroporto de Lisboa é um dos temas aos quais Cavaco Silva dedica um capítulo do livro "Quinta-feira e outros dias", que foi lançado nesta quinta-feira.

Cavaco relata encontros e documentos partilhados com José Sócrates em 2006 e 2007 sobre a localização da nova estrutura aeroportuária de Lisboa, cuja localização na Ota "era um erro grave que devia ser evitado" e por isso "teria de persuadir" o então primeiro-ministro e convencê-lo a encontrar outras localizações.

O antigo Presidente da República não tem dúvidas ao afirmar que a sua "intervenção foi decisiva para evitar um erro político que teria custado muitos milhões de euros aos contribuintes e prejudicado o desenvolvimento do país".

O então primeiro-ministro José Sócrates "percebeu" que Cavaco "não desistia e que lhe criaria sérias dificuldades se avançasse com a solução da Ota".

Depois de analisar os "verdadeiros estudos" sobre a localização do novo aeroporto - que descobriu que tinham sido efetuados em 1972, 1982 e 1999 - colocou-se uma interrogação a Cavaco Silva: "Por que é que o primeiro-ministro e o ministro da tutela teimavam em defender a Ota como a melhor localização?"

Entendi que tamanha teimosia só se justificaria caso nenhum dele tivesse lido os estudos feitos no passado, em que a Ota emergia sempre como uma localização menos aconselhável", critica.

O antigo chefe de Estado transcreve uma "extensa carta" que enviou ao ex-primeiro-ministro a 29 de maio de 2007 - depois de diversas conversas sobre o tema nas reuniões semanais entre Belém e São Bento às quintas-feiras -, onde concluiu que dos estudos oficiais que o Governo lhe enviou "não resulta uma posição clara quanto à localização mais adequada" para o novo aeroporto.

Neste capítulo do livro, Cavaco Silva critica ainda a "inaceitável agressividade com que o ministro Mário Lino tratava, em público e em privado, os opositores da localização da Ota, apoucando pessoas com competência firmada na matéria", relatando duas ocasiões nas quais José Sócrates procurou desculpar o membro do seu Governo dizendo que era "uma joia de pessoa".

Mais à frente no livro, o antigo Presidente da República volta a fazer referência à "evidente falta de bom senso" de Mário Lino, apesar de reconhecer que ficava à frente em matéria de competência técnica em relação ao então titular da pasta da Agricultura, Jaime Silva.

Em relação a Jaime Silva, a quem dedica aliás um capítulo intitulado "a falta de bom senso de um ministro", Cavaco Silva condena as suas "declarações provocatórias" e atitudes no sentido de 'acicatar' dos ânimos, chegando mesmo a falar na sua "incompetência técnica".

O antigo ministro da Saúde, António Correia de Campos, é outro dos visados por Cavaco Silva, que o classifica como "um ministro que falava demais" e que era "politicamente inábil", embora nunca colocando em dúvida a sua "competência técnica".

Histórias de deslealdade

A última quinta-feira decorreu num tom cordato e agradável, mas das 188 reuniões semanais e cinco anos de coabitação entre José Sócrates e Cavaco Silva ficam também acusações de mentiras e falsidades, histórias de deslealdade, desconfianças e fingimentos.

Ao longo de quase 600 páginas, no livro "Quintas-feiras e outros dias", o antigo Presidente da República relata os primeiros anos na Presidência, revelando no núcleo central da obra a coabitação entre 2006 e 2011 com o então primeiro-ministro socialista José Sócrates.

Uma coabitação que teve, para Cavaco Silva, um "princípio básico", a discrição, porque só assim o diálogo podia ter alguma influência efetiva nas decisões do Governo.

Se este [o Presidente da República], ávido de ser notícia, estimula ou permite fugas de informação sobre o que diz ao primeiro-ministro ou se envereda por uma prática de críticas públicas a medidas do Governo, corre o risco de ser utilizado como arma de arremesso na luta entre partidos" e tende "a ser ignorado pelo executivo, acabando por não ajudar o país", escreve.

Para Cavaco, "a influência de um Presidente sobre os rumos da governação será tanto maior quanto mais ele consiga manter a diferença fundamental entre a esfera pública e a esfera privada".

A discrição e a reserva nas relações entre o Presidente da República e o Governo foram uma marca distintiva dos meus mandatos, para grande irritação de alguns jornalistas. Também para desespero de alguns dos meus assessores, nunca atribuí qualquer importância ao protagonismo mediático, desde logo porque estava convencido da sua relação inversa com a influência efetiva do Presidente no processo político de decisão."

Um Presidente que sempre recusou "precipitar-se em declarações públicas intempestivas perante questões colocadas pela comunicação social e alimentar tensões", e sempre resistiu "à tentação de obter grandes títulos" dando conta das suas divergências em relação a diplomas do Governo, vinca também Cavaco, recordando que o chefe de Estado "não é legislador, nem tão pouco colegislador".

Sobre os encontros com José Sócrates, Cavaco Silva recorda um primeiro almoço "simpático", a 2 de fevereiro de 2006, no forte de São Julião da Barra, que antecedeu a primeira reunião formal a 16 de março, a 'primeira' "quinta-feira".

Mas, depois das primeiras promessas de "cooperação leal e frutuosa", o antigo Presidente da República começou a aperceber-se da enorme resistência ao diálogo e entendimento e com a oposição do então primeiro-ministro.

Surgem também as primeiras divergências, com Cavaco Silva a opor-se "à teimosia" de Sócrates com a aposta em obras públicas e a desconfiar do seu "entusiasmo" com os negócio com a Venezuela, país liderado por "uma personalidade que não era de fiar".

Em 2008, quando a economia portuguesa estava "seriamente a ser afetada pela crise financeira internacional", Sócrates, revela Cavaco, insistia na construção de escolas ou autoestradas e "muitas vezes se mostrou irredutível face aos avisos sobre os erros de política económica".

Sobre o caso das "escutas a Belém", o antigo Presidente reitera a tese que que se tratou de uma "intriga política insidiosa, criada e alimentada por setores do PS com a participação ativa de alguns órgãos de comunicação" para o envolverem na campanha das legislativas de 2009.

Depois das eleições, vieram os anos de Governo minoritário, ao qual Cavaco "não augurava grande futuro".

Nessa altura, eu já contava com várias experiências de como era parco a cumprir o que dizia e sabia que o fingimento era uma das suas características", refere o ex-chefe de Estado, com críticas à "tendência arrogante e agressiva face à oposição" de Sócrates, que sempre demonstrou "grande dificuldade em se adaptar à perda da maioria absoluta".

Perante um país à beira de uma situação insustentável, relata, o Governo continuava "numa situação de fuga para a frente", com ameaças de demissão na altura dos "dias loucos" do Orçamento do Estado para 2011 e "mentiras" do primeiro-ministro.

Foram também os tempos da "total e inadmissível falta de lealdade institucional" para com o Presidente, a quem não foi apresentado o chamado PEC IV.

Fora a ausência desse diálogo, patente na falta de informação sobre o PEC IV, que acabara de ditar o destino do Governo minoritário do PS", refere Cavaco, que elogia a atitude "patriótica e corajosa" do então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, que venceu a "obstinação" do primeiro-ministro na altura em que Portugal foi obrigado a pedir o resgate.

De qualquer forma, na última quinta-feira, o tom foi "cordato e agradável" e Cavaco desejou a Sócrates "as maiores felicidades para a sua nova vida".

 

"Prestar contas"

Cavaco Silva classificou o seu livro como "uma prestação de contas", sem o qual "ficaria incompleto" o conhecimento dos portugueses sobre o tempo "conturbado e complexo" que viveu em Belém.

Este livro, 'Quinta-feira e outros dias', é em primeiro lugar uma prestação de contas aos portugueses pela forma como exerci as funções de Presidente da República", afirmou, na apresentação da obra, que decorreu no Centro Cultural de Belém em Lisboa, local onde também anunciou as suas duas candidaturas presidenciais e onde festejou as vitórias.

Sublinhando que sempre fez questão de prestar contas dos cargos públicos que exerceu, Cavaco considerou que se não o fizesse agora "ficava incompleto o conhecimento de um tempo complexo, bastante complexo da vida nacional" que disse ter vivido durante os dez anos como Presidente da República.

Trata-se de fornecer aos portugueses informação detalhada para que possam fazer um juízo esclarecido e objetivo da forma como procurei defender o superior interesse nacional no âmbito das minhas competências constitucionais."

Nesta obra, explicou, pretende informar os portugueses, em primeiro lugar, sobre a forma como desenvolveu "uma interação com o Governo, em particular nas reuniões semanais de quinta-feira" com os primeiros-ministros.

Considero que a revelação dessas quintas-feiras é fundamental para compreender o tempo complexo e algo conturbado da política nacional nos dez anos em que exerci as funções de Presidente da República. Se eu omitisse esta parte estava a deixar de forma muito incompleta a prestação de contas aos portugueses."

Além da prestação de contas, disse, o livro é igualmente um agradecimento pela vida que viveu até agora, um agradecimento à família, aos colaboradores que o ajudaram a exercer o cargo e, em particular, um agradecimento à mulher, porque sem ela não teria existido a carreira profissional e política que teve. "Sem ela este livro não existia", frisou.

Por outro lado, continuou Cavaco Silva, a obra representa também "a profunda gratidão" que tem para com o povo português, que lhe deu o "privilégio" de representar e defender Portugal como Presidente da República.

Não esqueço esse apoio que, repetidamente, me foi dado pelo povo português", sublinhou.

Antes, coube ao antigo reitor da Universidade Católica Manuel Braga da Cruz apresentar o livro "Quinta-feira e outros dias", onde sublinhou que a obra "não é um ajuste de contas" e nem é escrita "contra ninguém".

Na plateia completamente cheia da sala Almada Negreiros do Centro Cultural de Belém, estiveram presentes os líderes do PSD, Pedro Passos Coelho, e do CDS-PP, Assunção Cristas.

O antigo Presidente da República Ramalho Eanes, e a mulher, os ex-ministros do anterior executivo de coligação PSD/CDS-PP Maria Luís Albuquerque, António Pires de Lima e Marques Guedes foram outras das figuras presentes.

Os antigos ministros de Cavaco Silva Leonor Beleza, João de Deus Pinheiro, Couto dos Santos ou Teresa Patrício Gouveia e outras figuras do PSD e CDS-PP, como Manuela Ferreira Leite, Fernando Negrão, Teresa Leal Coelho, Teresa Morais, Bagão Félix, também estiveram presentes.