O ex-Presidente da República Cavaco Silva classifica a redução do horário de trabalho semanal no setor público como "um dos maiores erros do poder político", num livro em que sublinha a "especial atenção" dada pelos seus Governos à saúde.

Num livro intitulado "Uma Experiência de Social-Democracia Moderna", com a chancela da Porto Editora e que é apresentado esta terça-feira em Lisboa, Cavaco Silva passa em revista várias obras e momentos da sua governação enquanto primeiro-ministro, como a Expo-98, o Centro Cultural de Belém ou a Ponte Vasco da Gama, dedicando também um subcapítulo à política que seguiu na área da saúde.

Opções político-ideológicas recentes contra o setor privado da medicina, à margem de qualquer preocupação de justiça social, ou sequer de defesa do interesse público, que se juntaram ao subfinanciamento do sistema de saúde e à redução do horário semanal dos servidores do Estado para 35 horas - um dos maiores erros do poder político -, traduziram-se num verdadeiro ataque ao Serviço Nacional de Saúde, através da deterioração acentuada da qualidade dos serviços prestados aos utentes", argumenta.

A crítica ao atual momento no setor da Saúde, sem alguma vez cruzar com a crise pandémica da covid-19, contrasta com o elogio às políticas para o setor levadas a cabo desde o primeiro dos seus três governos, em 1985.

O meu primeiro Governo, que tomou posse em novembro de 1985, confrontado com a anemia de que padecia o nosso sistema de saúde, que degradara a qualidade dos serviços prestados aos cidadãos, atribuiu à política de saúde, desde a primeira hora, uma especial atenção", sublinha.

Segundo o antigo líder do executivo e do PSD, "o interesse dos utentes dos serviços a que o Estado deve assegurar o acesso aos cuidados de saúde foi adotado como grande linha de orientação, contra a barreira dos interesses corporativos que então predominava".

Para mim, a primazia conferida pela social-democracia à pessoa humana determinava, sem qualquer equívoco, que o Estado tinha de garantir que qualquer pessoa carente de cuidados de saúde nunca poderia deixar de ser tratada por falta de recursos económicos", defende.

E porque Portugal é um "país de escassos recursos" e os gastos em saúde são "cada vez maiores", foi "atribuída prioridade ao correto aproveitamento dos meios humanos e materiais, à dotação do País de uma adequada cobertura médica e hospitalar e à abertura da prestação de cuidados de saúde à iniciativa privada e ao setor social, sem o que não seria possível garantir a todos os Portugueses o direito à proteção da saúde com serviços de qualidade", tendo ainda os hospitais sido submetidos a "modernas regras de gestão".

Cavaco lembra que, na sequência da revisão constitucional de 1989, foi aprovada uma nova Lei de Bases da Saúde, que "pôs termo à tendência para a estatização da medicina em Portugal e abriu à iniciativa privada a prestação de cuidados de saúde, sem pôr em causa a função do Estado como garante do acesso de todos os cidadãos à saúde".

O seu contributo para a melhoria dos cuidados de saúde e para que Portugal se aproximasse dos países mais desenvolvidos da Comunidade Europeia explica que a lei se tenha mantido em vigor durante 29 anos, resistindo a nove governos, cinco dos quais do Partido Socialista", assinala.

Depois de apontar a construção de raiz de "seis hospitais de grande dimensão" - Vila Real, Guimarães, Matosinhos, Leiria, Almada e Amadora Sintra -, o antigo chefe do Governo salienta a "especial atenção" dada a áreas como a "humanização dos serviços, a saúde materna, neonatal e infantil, e o combate à toxicodependência e à sida".

O intenso esforço desenvolvido pelo Governo nos meus dez anos de Primeiro-Ministro, na linha da social-democracia moderna, teve em vista proporcionar a todos os Portugueses, , em condições de justiça e equidade, serviços de saúde com melhor qualidade", conclui.

Cavaco diz que governos PSD não aplicaram social-democracia por “vicissitudes” e “circunstâncias”

O antigo Presidente da República afirmou que os governos do PSD anteriores e posteriores aos seus não aplicaram o modelo social-democrata “por vicissitudes próprias” e “pelas circunstâncias que o país vivia”.

Neste tempo de crise económica global, resultante da pandemia, é minha convicção que uma governação reformista orientada pelos valores da social-democracia moderna é aquela que melhor serve as populações”, defendeu.

Para o antigo primeiro-ministro entre 1985 e 1995, “as características básicas da social-democracia moderna ganharam uma atualidade acrescida na presente situação de pandemia”.

Aplicá-las na prática é um desafio para os governos da atualidade”, apelou.

Ao recordar o seu percurso político, Aníbal Cavaco Silva referiu-se, numa frase, aos outros governos liderados pela sua família política, o PSD, que, considerou, nunca conseguiram aplicar esse modelo social-democrata.

Por vicissitudes próprias e circunstâncias que o pais vivia, os governos do PSD anteriores ao meu e os que se seguiram, não tiveram o tempo e a oportunidade de aplicar o modelo social-democrata, que, pela sua flexibilidade, considero ser o mais adequado às necessidades dos cidadãos”, afirmou.

Na primeira fila da plateia, esteve o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, o último a liderar um Governo do PSD, em coligação com o CDS-PP, mas que não quis responder a questões.

Fico muito contente que queiram falar, mas eu estou fora da conversa”, disse apenas.

/ HCL