A ministra da Saúde fez esta terça-feira, no Parlamento, um balanço da pandemia de covid-19 em Portugal e não descarta a possibilidade de "retrocessos cirúrgicos".

Confrontada pelos deputados na Comissão Eventual para o acompanhamento da aplicação das medidas de resposta à pandemia e do processo de recuperação económica e social, Marta Temido recorda que os números traduzem-se em pessoas e prefere olhar para uma perspetiva focada no futuro: "Um pequeno deslize tem um grande impacto no futuro de todos", realça.

O regresso à normalidade tem de ser encarado de uma forma diferente. O regresso à escola não é a mesma coisa que o regresso a toda uma normalidade por qual ansiamos, mas não estamos ainda em condições de ter", começa por alertar.

Desta forma, a ministra volta a pedir aos cidadãos para ficar em casa: "Ficar em casa ainda é necessário para reabrir passo a passo e com segurança".

Questionada sobre medidas concretas, na eventualidade de Portugal passar para as "zonas amarelas e vermelhas" da matriz, Marta Temido recorda que as incidências concelhias são notificadas semanalmente e, na necessidade de haver retrocessos, defende que estes "deverão ser o mais cirúrgicos e limitados possível"

Não ignoramos nem desprezamos a necessidade que possa haver de agir localmente", aponta, recordado o que foi feito durante o verão de 2020.

Governo atento para que autotestes não entrem em “roda livre"

A ministra da Saúde garantiu que o Governo estará atento ao processo de autotestes rápidos de antigénio, no sentido de assegurar que esta metodologia de despiste da covid-19 “não se transforme numa roda livre”.

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) tem um documento da semana passada sobre os riscos e as vantagens e sobre aquilo a que temos de estar atentos para que esta metodologia não se transforme numa roda livre. Não queremos que isso aconteça”, afirmou Marta Temido.

Ouvida na Comissão Eventual para o acompanhamento da aplicação das medidas de resposta à pandemia da doença covid-19 e do processo de recuperação económica e social, a governante garantiu que o governo estará atento à “boa realização dos testes e ao seu reporte”, salientando a necessidade de as “pessoas não serem deixadas desintegradas” neste processo.

Os testes rápidos de antigénio para deteção do SARS-CoV-2 só podem ser vendidos a pessoas a partir dos 18 anos e todos os resultados devem ser comunicados às autoridades de saúde.

As regras constam de uma circular conjunta da Direção-Geral da Saúde (DGS), da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed) e do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) publicada na última semana e que define os critérios de inclusão, operacionalização da utilização e reporte de resultados dos autotestes da covid-19.

Na última semana, o ECDC considerou que os autotestes de covid-19, que começam a ser mais acessíveis na União Europeia (UE), podem ajudar à deteção precoce, mas alertou também para uma eventual subnotificação.

Cuidados intensivos com 1.015 camas, reforço de 134% 

Os hospitais públicos dispõem de 1.015 camas de cuidados intensivos, mais 134% do que no início da pandemia, no âmbito de investimentos para aproximar esta área dos parâmetros de outros países europeus.

“Se em março de 2020 tínhamos 433 camas de nível 3 de cuidados intensivos polivalentes, hoje temos 1.015, o que significa um acréscimo de 134%”, afirmou Marta Temido na 

Segundo a governante, 10 hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) já concluíram a expansão do número de camas de cuidados intensivos, 11 estão com investimentos em curso e outros quatro estão a desencadear os processos para proceder a este reforço.

Estes investimentos em hospitais do SNS pretendem “completar aquilo que se quer que seja uma rede de medicina intensiva mais alinhada com as métricas de outros países da União Europeia e com a necessidade de responder e eventuais recrudescimentos da covid-19 em Portugal, mas também à resposta às demais necessidades assistenciais”, salientou Marta Temido.

Na sua intervenção inicial sobre o ponto de situação da resposta da área da Saúde à pandemia da covid-19, Marta Temido adiantou que foram ainda distribuídos pelos hospitais públicos 1.024 ventiladores, tendo sido efetuado um reforço de 544 profissionais de saúde para esta área.

Perante os deputados, Marta Temido destacou também a “evolução significativa” da testagem desde o início da pandemia, quando apenas havia um laboratório público para testes de PCR, com o país a passar para os atuais 145 laboratórios que realizam testes PCR e rápidos de antigénio.

O país é um dos que mais testes realizou por milhão de habitantes”, assegurou a ministra da Saúde, ao avançar que Portugal é o décimo país da União Europeia que mais testa, com um total de 8,8 milhões de testes até à data.

Segundo a ministra, o SNS foi responsável por 39% dos testes feitos, o setor privado realizou 50% e a academia e outros laboratórios efetuaram os restantes 11%.

Temos um novo desafio agora com o envolvimento dos próprios cidadãos no processo de auto teste, que é complementar às metodologias tradicionais”, disse Marta Temido.

Relativamente aos recursos humanos do SNS, a ministra assegurou que o reforço já estava previsto, uma vez que o Governo tinha se comprometido com a meta de contratação de 8.400 profissionais em 2020 e 2021.

Em dezembro de 2020, o SNS tinha um total de 144.616 profissionais, maioritariamente enfermeiros e médicos, referiu Marta Temido, ao adiantar que este número representa um acréscimo de 9.193 trabalhadores face a dezembro de 2019.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 2.732.899 mortos no mundo, resultantes de cerca de 123,6 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 16.794 pessoas dos 818.212 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

Rafaela Laja