O vice-almirante Henrique Gouveia e Melo vai assumir o cargo de coordenador da task force da vacinação contra a covid-19, depois de Francisco Ramos se ter demitido do cargo. A nomeação foi feita pelo Governo.

O Governo nomeou o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo para coordenador da `task force´ do plano de vacinação contra a covid-19 em Portugal”, adiantaram os ministérios da Saúde e da Defesa Nacional em comunicado, avançando que o militar assume essas funções de imediato.

O militar já fazia parte do grupo de trabalho que coordena a vacinação em Portugal, estando até aqui responsável pela parte logística e pelo planeamento da distribuição da vacina.

Henrique Gouveia e Melo já foi porta-voz da Marianha, tendo assumido o cargo de adjunto para o Planeamento e Coordenação do Estado-Maior General das Forças Armadas em 2020.

Nos últimos meses foi chefe da equipa de militares que prestava apoio aos hospitais da região de Lisboa, nomeadamente na gestão de camas dedicadsa à doença.

Em comunicado, o Ministério esclareceu que a demissão de Francisco Ramos decorre de “irregularidades detetadas pelo próprio no processo de seleção de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, do qual é presidente da comissão executiva”.

Numa declaração enviada às redações, Francisco Ramos acrescentou que as irregularidades diziam respeito ao processo de seleção para vacinação de profissionais de saúde daquele hospital.

A demissão ocorre numa altura em que são públicas diversas situações de vacinação indevida de várias pessoas em várias regiões do país e no dia em que arranca a vacinação em centros de saúde de idosos com 80 ou mais anos e de pessoas com mais de 50 anos com doenças associadas, numa fase que abrange cerca de 900 mil portugueses.

Vice-almirante garante regras mais apertadas na vacinação

O novo coordenador da ‘task force' assegurou que vai apertar as regras e o controlo do processo, além de exigir uma maior consciencialização dos envolvidos.

Claro que vamos apertar mais as regras, o aperto das regras é uma coisa importante, e o aperto do controlo também é importante, e também a consciencialização das pessoas que estão no processo", afirmou.

Questionado sobre as medidas concretas que vai implementar, o militar ‘jogou à defesa', mas sublinhou que já sabe quais são.

O problema não está no processo em si de vacinação, está nas vacinas chegarem ao país, e é um processo que é macro europeu, pelo que Portugal não pode fazer muito mais", lançou, garantindo que se sente capaz de ter êxito na nova missão, caso contrário, não teria aceitado o convite do Governo.

Segundo Gouveia e Melo, que reconheceu a existência de falhas na execução do plano de vacinação, "é prioritário atuar em todas as áreas, a começar pelas áreas onde não houve falhas".

E acrescentou: "Vamos ter de analisar a razão das falhas e tentar evitar que elas se repitam. Há muita coisa para fazer, a lista é sempre grande. Imagine a complexidade de uma tarefa que é vacinar, grosso modo, duas vezes uma população de 10 milhões de habitantes".

De resto, o vice-almirante assegurou que "as forças armadas apoiam o processo de vacinação e apoiam o Ministério da Saúde", excluindo qualquer espécie de tomada de controlo das operações.

O Ministério da Saúde tem uma estrutura que executa a vacinação, é uma estrutura grande, e nós temos de trabalhar com as pessoas que estão no terreno. Não vem ninguém de fora mandar em estruturas que estão a trabalhar no terreno. É um apoio mútuo", vincou.

De acordo com Gouveia e Melo, esta colaboração permite aproveitar a "organização e estrutura" militar e o "conhecimento e saber" dos outros profissionais no terreno.

Estou confiante que vamos conseguir ajudar a vacinar a população portuguesa e, haja vacinas, a vacinar o mais rapidamente possível", lançou.

Sobre as notícias dos últimos dias acerca de pessoas que estão a ser vacinadas indevidamente, considerou que tal "é lamentável", nem que fosse um único caso. "Bastava haver um desvio que fosse que era lamentável", comentou.

Gouveia e Melo disse ainda que, como já faz parte da ‘task force', apenas terá de se adaptar à nova posição (de liderança), uma vez que conhece bem toda a estrutura.

Sobre o papel das forças armadas no combate à pandemia, o vice-almirante salientou o trabalho desenvolvido em coordenação com o Ministério da Saúde, exemplificando com o aumento em 10 vezes da capacidade de resposta dos hospitais militares de Lisboa e do Porto, com o envolvimento de 700 militares no rastreamento de utentes e no apoio ao plano de vacinação.

Nós somos ‘silent service', gostamos de prestar serviço de forma silenciosa, porque não é estarmo-nos a pôr em bicos dos pés que vai ajudar o povo português. Nós, militares, estamos a ajudar o Ministério da Saúde, quem tem que realmente fazer o processo e o executar é o Ministério da Saúde", frisou.

Ainda assim, Gouveia e Melo reconheceu que "houve e há sempre, em todos os processos, alguma tendência de desorganização, mas isso faz parte", apontando para a "cultura militar", conjugada com as orientações do Ministério da Saúde, como a melhor resposta a dar neste momento.

O novo líder da ‘task force' adiantou ainda que o seu antecessor no cargo, Francisco Ramos, que pediu demissão, lhe transmitiu pessoalmente essa sua intenção, considerando que só o próprio pode avaliar se tinha ou não condições para permanecer no cargo.

António Guimarães