Milhares de pessoas voltaram este domingo a descer a Avenida da Liberdade, em Lisboa, de cravo ao peito para festejar a revolução, depois do interregno de 2020, numa celebração à qual não faltaram as máscaras a que a pandemia obriga.

Este ano, apesar da covid-19, as tradicionais comemorações populares voltaram à rua com novas regras sanitárias e não houve apenas um, mas sim dois desfiles, depois da polémica com a participação da Iniciativa Liberal, que levou o partido a promover a sua própria descida, sempre bem longe daquela organizada pela comissão promotora.

O trânsito foi cortado totalmente a partir das 14:30, tendo nessa altura as pessoas ocupado toda as faixas habitualmente tomadas por carros.

Duas chaimites abriram o desfile, seguindo-se o ‘quadrado’ da comissão promotora – uma área fechada por panos vermelhos, onde só puderam entrar cerca de 40 pessoas autorizadas, entre as quais as comitivas do PCP, PEV, PS e da CGTP.

Pelas 15:30, os participantes, com os rostos cobertos por máscaras, um certo distanciamento entre si, e a maioria com um cravo vermelho na mão, na lapela ou até mesmo na orelha, começaram a descer a Avenida da Liberdade rumo aos Restauradores.

Nas palavras de ordem não houve mudanças: “o povo unido jamais será vencido”; “Somos muitos, muitos mil para continuar Abril”; “Abril está na rua, a luta continua” ou “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”.

Além dos adultos, não faltaram ao desfile as crianças, os cães e até um papagaio.

A celebração da liberdade foi também oportunidade de negócio. Além da venda de cravos, um homem apregoava, de garrafas de água na mão, ser o “último estabelecimento aberto” àquela hora.

Quando a frente do desfile chegou ao destino, ouviu-se e cantou-se a Grândola, Vila Morena (de cravo no ar) e o hino nacional.

Além daqueles que integraram o desfile, como é habitual e apesar de em menor número, foram também várias as pessoas que se deslocaram à avenida para o ver passar.

Manuel Veloso é de Guimarães, mas está em Lisboa. Costuma celebrar este dia em Braga e foi a primeira vez que participou no desfile na Avenida da Liberdade.

Apesar do elevado número de participantes, sente-se seguro, até porque já foi vacinado, confidenciou à Lusa.

Quando à polémica entre a comissão promotora e alguns partidos, Manuel Veloso considera que não há “polémica nenhuma” e criticou o que considerou “oportunismo”, alegando que, em ano de eleições autárquicas, "toda a agente se cola ao 25 de Abril”.

O 25 de Abril foi uns contra os outros e continua hoje na sociedade a haver quem é a favor do 25 de Abril e quem é contra. A nossa Constituição é de todos, mesmo dos que votaram contra, o 25 de Abril não é de todos, é dos democratas e de quem ama a liberdade, defendeu o vimaranense.

Leonor Vilar, 22 anos, foi até à Avenida da Liberdade com uma máscara FFP2 personalizada com bordados alusivos à Revolução dos Cravos.

Natural da “margem Sul”, participa no desfile desde que “era mais nova” e faz questão de estar presente sempre que pode, notando que este ano, devido à pandemia, está “menos gente” na rua.

É diferente o molho de pessoas que se juntava e agora como estão organizadas as pessoas”, afirmou, indicando estar “de fora” a avaliar “como é que as coisas vão funcionar” antes de decidir se se juntaria ao desfile ou só continuaria a vê-lo passar.

Sobre a polémica, Leonor defendeu que “o 25 de Abril é de todos” e “pertence a todos os que queiram fazer parte do 25 de Abril”.

Ana Filipa, 32 anos, quis deslocar-se à Avenida da Liberdade esta tarde “para marcar a data”, que é “muito importante”.

À Lusa, disse que se sentia segura, apesar dos milhares de pessoas que se concentraram naquela artéria da cidade, porque “a organização está muito boa e parece que há espaçamento entre as pessoas”.

Se podemos estar numa esplanada também podemos comemorar o 25 de Abril”, defendeu.

/ HCL