O antigo Presidente Mário Soares afirmou esta sexta-feira que Otelo Saraiva de Carvalho tem «um coração muito bom» mas «de vez em quando diz a sua asneira», destacando que o militar de Abril contribuiu para o sucesso da democracia.

«Otelo foi uma figura importante na revolução [do 25 de Abril de 1974], contribuiu para que a revolução fosse pacífica e ganha, mas não tinha cultura política e portanto disse os disparates que toda a gente sabe e que às vezes continua a dizer», afirmou Mário Soares em Lisboa, durante o colóquio «Da ditadura à democracia: experiência e futuro», promovido pela embaixada da Polónia, país que preside actualmente à União Europeia.

O ex-chefe de Estado falou sobre Otelo depois de Adam Micnhik, jornalista e um dos rostos da resistência polaca ao comunismo, ter referido o nome do coronel a propósito da Revolução dos Cravos.

Soares sublinhou que os militares que fizeram o golpe do 25 de Abril de 1974 eram todos de baixa patente e tinham percebido no terreno que os conflitos nas colónias não tinham uma solução militar, sendo preciso negociar. «Mas não tinham cultura política», disse.

«Mas [Otelo] é uma pessoa de coração muito bom, apesar de tudo, que tem de ser considerada como uma pessoa que contribuiu para que nós hoje vivamos todos em liberdade. Eu tenho esse sentimento em relação a ele, e amizade em relação a ele, apesar de de vez em quando dizer assim a sua asneira. E eu digo-lhe a ele também, ele não se importa muito», acrescentou Mário Soares, sem nunca referir declarações recentes do capitão de Abril em que admitia a possibilidade de um golpe militar em Portugal.

Na mesma conferência, que decorreu na Universidade Católica Portuguesa, o antigo Presidente da República voltou a manifestar-se «profundamente preocupado com a Europa», considerando o projecto da União Europeia «o mais extraordinário que houve em toda a história da humanidade para que os povos vivessem em paz, em liberdade, em democracia e em solidariedade».

Porém, lamentou, as duas famílias político-ideológicas que fizeram a Europa - democrata-cristã e social-democrata - deixaram-se «colonizar pela economia de estilo americano» que defende que «a democracia tem de ser liberal e não social».

O resultado é, segundo Mário Soares, uma visão em que «aquilo que interessa é que os mercados funcionem».

«Os mercados mandam nos Estados e quase não há Estado», afirmou, dando um exemplo: «Aqueles imbecis [da agência Fitch] disseram que Portugal era lixo e isso passou a ser uma verdade absoluta e toda a gente começa a funcionar em função daquilo», acrescentou.

«É preciso é agir, agir civicamente e agir politicamente. E além de agir é preciso que tanto a senhora Merkel como o senhor Sarkozy, que se armaram em donos da Europa porque os mercados assim o querem, mudem de paradigma e aceitem mudar de sistema. Isto implica uma ruptura na União Europeia para o desenvolvimento da Europa e para que não vá tudo para o abismo», disse Mário Soares, que no final da conferência não quis comentar a greve geral de quinta-feira, afirmando que «é um simples cidadão» cuja opinião sobre esse assunto «não interessa».
Redação / PP