Bruxelas, outono de 2015

António Costa conhece Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, num encontro arranjado pelo socialista Martin Schulz, então presidente do Parlamento Europeu.

O momento é precoce. A coligação PSD-CDS acabou de ganhar as eleições legislativas em Portugal e, em Lisboa, Pedro Passos Coelho imagina ainda continuar primeiro-ministro, depois dos anos da troika, agora para governar com melhores ventos.

Mas Costa veio a Bruxelas dizer a Juncker algo insólito: o Partido Socialista vai formar Governo com o apoio dos comunistas e da esquerda radical e a gerinçonça portuguesa vai honrar os compromissos com a Europa. 

Alcochete, abril de 2019

Mark Rutte, o primeiro-ministro holandês, está de visita a Portugal. Numa operação de charme, António Costa leva-o à academia de futebol do Sporting para cumprimentar o compatriota e treinador Marcel Keizer (em dia de jogo com o Benfica, o goleador Bas Dost prefere não aparecer para a fotografia com o chefe de governo do seu país).

Mais tarde, antes de uma conferência de imprensa, os assessores de Costa insinuam aos jornalistas portugueses que Rutte pode vir a ser o próximo presidente do Conselho Europeu.

No final de uma visita ensolarada e agradável, o holandês sorri às perguntas e desmente a possibilidade.

L’OBS, maio de 2019

Em vésperas das eleições europeias, a reputada revista francesa (anteriormente Le Nouvel Observateur) faz sair a edição “Vivre Sous le Populisme”. Na capa há uma fotografia de Matteo Salvini, Marine Le Pen e Viktor Orbán. Lá dentro 13 páginas de reportagem na Hungria, em Itália, na Aústria, na Polónia… e em França. E, depois destas, duas páginas de contraponto: “L’Antidote Portugais” (O antídoto português). Uma entrevista a António Costa: “Un premier ministre socialiste qui réduit le déficit public tout en augmentant le pouvoir d'achat", ou seja, na tradução literal, um primeiro-ministro socialista que reduz o défice público e aumenta o poder de compra.

Por estes dias, chovem em São Bento os pedidos de entrevista de jornais europeus e internacionais. E multiplicam-se as visitas de políticos estrangeiros.  

Conselho Europeu informal de Sibiu, 9 de maio de 2019

No dia da Europa, os chefes de Estado e de governo estão reunidos numa bonita cidade da Roménia para discutir o futuro e a resposta à ameaça populista. Na verdade, passam a maior parte do tempo nos corredores, em grupos vários, a negociar a repartição dos altos-cargos comunitários.   

“O que anda a cozinhar o vosso primeiro-ministro?” Jornalistas espanhóis, habituados agora a ver Costa como barómetro da temperatura europeia, abordam os colegas portugueses com a pergunta e uma fotografia num telemóvel. Nela estão quatro personagens: António Costa, Pedro Sánchez, Mark Rutte e Charles Michel. O presidente do governo espanhol e os primeiros-ministros holandês e belga. Dois socialistas e dois liberais. Costa e Rutte parecem liderar a conversa.

Sabe-se mais tarde que Emmanuel Macron, o presidente francês, vai receber o chefe de governo português em Paris, na semana das eleições, para um jantar no Palácio do Eliseu. E que o grupo inteiro, logo depois das europeias, vai juntar-se num almoço em Bruxelas.

Bruxelas, 27 de maio de 2019

ABSTENÇÃO

O Parlamento Europeu voltou a gastar uma pequena fortuna para tentar travar a abstenção. Milhões de euros para ações de pedagogia, programas de voluntários, publicidade e patrocínio de reportagens jornalísticas. É o único orgão comunitário a ser escolhido diretamente pelos cidadãos, nada em dinheiro, mas aparentemente não desperta interesse ou não é compreendido. A abstenção vai voltar a bater recordes ou é desta que se inverte a tendência? Os mais jovens vão votar?

POPULISTAS E NACIONALISTAS

Mesmo nos países que sucumbiram à vaga populista, a larga maioria da população não quer sair da União Europeia. E o triste espetáculo do Brexit terá reforçado a opinião. Os partidos nacionalistas perceberam-no bem e adaptaram a campanha. A estratégia já não é atacar a União por fora e de frente, antes entrar nas suas instituições e sabotá-la por dentro.

Um terço do novo Parlamento Europeu pode vir a ser dominado por eurocépticos, nacionalistas e inimigos do projeto europeu. E no próximo executivo comunitário haverá um punhado de comissários extremistas enviados por Roma, Varsóvia ou Budapeste.

Mas, certamente, não terão a maioria e, depois das eleições, os movimentos de países diferentes, muitas vezes com interesses opostos, podem não conseguir entender-se e sequer formar um grupo próprio no hemiciclo comunitário. Uma aliança de nacionalistas talvez seja uma contradição de term

FIM DO "BLOCO CENTRAL" EUROPEU

Pela primeira vez, as famílias conservadora e socialista não vão ter, juntas, a maioria dos lugares no Parlamento Europeu. Apenas isso, será uma revolução. A próxima governação comunitária vai precisar de um entendimento entre três ou mais famílias: conservadores, socialistas, liberais e, porventura, os Verdes. O Partido Popular Europeu (onde estão PSD e CDS) vai continuar a ser a força mais votada, mas vai perder a hegemonia que, até aqui, lhe permitiu controlar os principais orgãos e cargos comunitários.

“OPTIMISMO IRRITANTE”

A crise do euro passou, mas os problemas estruturais da moeda única mantêm-se e as soluções de fundo, sempre adiadas, podem não chegar a tempo de uma próxima provação. A crise dos migrantes envenenou as relações entre os Estados-membros, abalou a imagem da União Europeia de campeã dos direitos humanos e deu munições aos movimentos populistas. Os 27 mostram-se unidos frente ao Reino Unido, mas o Brexit está por resolver, vai continuar a contaminar a agenda comunitária e uma saída sem acordo pode lançar o caos na economia. As eleições europeias talvez resultem num impasse prolongado e na paralisia das instituições.

O cenário não é risonho, mas António Costa vê nele uma oportunidade.

O primeiro-ministro português, que se tornou no king maker dos socialistas europeus, começou a encaixar as peças, há vários meses que teçe a sua teia, e tem agora um plano pronto a ativar.

No dia seguinte às eleições, Costa e os seus aliados - de Tsipras a Macron - vão tentar formar uma “aliança progressista” europeia. O objetivo declarado é travar a extrema-direita. O propósito pouco disfarçado é tomar o trono europeu do PPE.

Para além da escolha dos eurodeputados concretos, as eleições europeias são importantes porque estabelecem o equilíbrio de forças entre as famílias políticas, com base no qual se decide quem vai liderar as instituições.  

Em causa estão quatro ou cinco cargos de topo: presidente da Comissao Europeia (e alto representante para a política externa), presidente do Conselho Europeu e presidente do Parlamento Europeu (o próximo presidente do Banco Central Europeu também faz parte da grande barganha, mas é quase ponto assente que ficará para a Alemanha).

A joia da engrenagem é a Comissão Europeia que Costa e os seus aliados acreditam que podem retirar ao centro-direita. Em alternativa, se os  conservadores mantiverem a Comissão, a ideia é que não consigam mais nada.

Com postos-chave na mão, e com o PPE contido, socialistas e liberais querem dar um novo novo impulso e uma nova direção à Europa.

É este o plano europeu de António Costa. Mas, mesmo aceitando que corre como previsto, o próprio sabe das muitas dificuldades.

O interesse de Portugal passa, antes de mais, por ampliar a reforma do euro e equilibrar as diferenças entre países ricos e países pobres. À Holanda, um dos países que mais tem beneficiado da moeda única, interessa-lhe manter o status quo. O aliado Mark Rutte foi durante a crise do euro um dos líderes mais duros com os países do Sul. Nesses anos, um ex-responsável comunitário (de direita) descreveu-o como “um homem que só pensa em dinheiro”, sem espírito europeu e solidariedade.

António Costa sabe-o. Mas acredita que, entretanto, Rutte amaciou-se.

E vê sinais de esperança por já ter negociado com o primeiro-ministro holandês a presidência do Eurogrupo para Mário Centeno e um esboço de um orçamento do euro.

Mas houve um preço. A sombra de Centeno no Eurogrupo (o alto funcionário que efetivamente prepara as reuniões dos países da moeda única) é um holandês da linha dura. E a “capacidade orçamental” do euro é ainda uma insignificância - que não assusta um país-credor nem vai salvar nenhum país aflito - e que pode nunca vir a ser coisa alguma.

A relação entre Macron e Rutte parece ser ainda menos auspiciosa. O presidente francês, que prometeu um “renascimento” europeu, impacienta-se com a falta de resultados em casa e fora e já foi mais bem visto em Bruxelas e em Berlim. E o que será a Alemanha depois de Angela Merkel? Como se curam as divisões entre Norte e Sul? E entre Leste e Oeste?

O jogo europeu é complexo e de geometrias variáveis. Mas a União vive um momento existencial e pode não haver outro.

A única certeza: António Costa vai jogar. Em todos os tabuleiros.