Pedro Marques, do PS, e Paulo Rangel, do PSD, protagonizaram o duelo mais acalorado do debate desta quarta-feira entre os principais cabeças de lista às europeias, na TVI24. O debate, que contou ainda com a participação de Marisa Matias, do BE, João Ferreira, CDU, Nuno Melo, CDS, e Marinho e Pinto, PDR, ficou marcado por muitas acusações entre os cabeças de lista dos partidos mais à esquerda, de um lado, e os dos partidos mais à direita, do outro.

Para o social-democrata Paulo Rangel “as propostas do PS são utópicas” e “a grande diferença” entre o PSD e o PS nestas eleições “é o realismo”. O cabeça de lista do PSD foi mais longe, afirmando que as medidas implementadas pelo PS "têm um custo" e que em Portugal isso traduziu-se num "ataque ao Estado social", numa degradação do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Pedro Marques sabe que as propostas do PS são utópicas. Em Portugal foi implementada a degradação do SNS levada ao limite, o SNS nos tempos da troika estava com uma performance muito superior a que tem hoje. (...) O maior ataque ao Estado social foi feito pelo PS”.

Rangel também não hesitou em criticar a lista com que o PS concorre a estas eleições, atirando que “tem antigos governantes de António Costa e de José Sócrates”.

A referência a José Sócrates não foi ignorada e Pedro Marques contra-atacou com a “bomba orçamental” sobre a contagem do tempo de serviço dos professores.

As coisas devem estar a correr mal ao PSD, quando as coisas correm mal a estes partidos eles começam a falar de José Sócrates. Como é que podem vir falar nisto quando lançam esta bomba orçamental?”, questionou.

O cabeça de lista do PS continuou ao ataque, afirmando que a situação levou a credibilidade do PSD “pelo rio abaixo”.

A credibilidade do PSD foi pelo rio abaixo com esta vontade de ganhar a todo o custo. É demasiado grave, é uma tragédia de má qualidade que deixou marcas na credibilidade do PSD, de Rui Rio e de Paulo Rangel.”

Mas Marisa Matias não tem dúvidas de que não há crise nenhuma e que esta "encenação", como lhe chamou, deve acabar. A bloquista lembrou ainda que o seu partido foi um dos dois, juntamente com o PCP, que não mudou o sentido de voto.

Devíamos acabar com a encenação desta falsa crise. As pessoas já perceberam que houve dois partidos que não mudaram de voto, o BE foi um deles", reiterou.

 

Pedro Marques defendeu que a visão da direita “é o modelo dos cortes, das sanções”, enquanto que a do PS é a de “inovação, de ambição”, mas num outro momento do debate, Rangel levou uma entrevista antiga do socialista na qual este afirmou que os próximos fundos europeus seriam “uma bomba orçamental”. O cabeça de lista do PS respondeu, acusando-o de “desonestidade intelectual” e defendendo que falou do "efeito no Orçamento do Estado em contrapartidas nacionais e nada sobre cortes nos fundos europeus".

Quem também não poupou nas críticas ao PS foi o cabeça de lista do CDS, Nuno Melo. O centrista, que se congratulou com o seu contributo para uma iniciativa do setor agroalimentar em Bruxelas, afirmou que o primeiro-ministro "ameaçou que se demitia por achar que Pedro Marques não é um candidato suficientemente forte".

Depois, Nuno Melo insistiu em vários momentos que os socialistas "desperdiçam" os fundos comunitários.

O CDS representa o aproveitamento que o PS desperdiça. O PS desperdiça os fundos comunitários e aceita perder os fundos de coesão. (...) Os fundos comunitários permitem corrigir assimetrias e estão a ser desperdiçados aos milhões", sublinhou.

O cabeça de lista do CDS falou especificamente sobre a ferrovia, acusando Pedro Marques de mentir ao dizer que a Ferrovia 2020 está executada em 40%. Pedro Marques respondeu mais tarde, afirmando que "o que disse foi que a Ferrovia 20202 tem 40% das obras lançadas, em curso ou concluídas".

Aproveitando a deixa de Nuno Melo, João Ferreira, da CDU,  disse que "as necessidades de ferrovia em Portugal estão distantes" das necessidades dos países do centro da Europa, vincando que "os fundos comunitários estão todos orientados para as ligações que servem países como a Alemanha". 

O comunista afirmou ainda que "Nuno Melo organiza uma feira de agricultura em Bruxelas, mas dentro das paredes do Parlamento Europeu tal como o PSD e o PS votaram favoravelmente a reforma da PAC [Política Agrícola Comum da União Europeia] que liquidou vários setores da agricultura nacional".

E não deixou escapar as críticas de Rangel à degradação do SNS, frisando que "há vários anos que a Comissão Europeia recomenda cortes" e que "PSD e CDS votam sempre a favor dessas recomendações".  "Portanto não venham falar nos cortes no SNS porque são co-responsáveis por eles", concluiu. De resto, João Ferreira defendeu que o voto na CDU é precisamente um voto na "voz contra as pressões e chantagens" europeias.

Marisa Matias também falou nesta questão, afirmando que o BE não cede "aos interesses financeiros, às imposições de Bruxelas". "Sou europeísta, mas não há outra forma de ser europeísta sem ser crítica da UE".

A troca de galhardetes entre os candidatos de esquerda e direita foi usada por Marinho e Pinto, do PDR, para defender que "a razão pela qual não se deve votar nestes candidatos é porque eles vão levar para o Parlamento Europeu estas encenações que fazem aqui".

Chega a altura de eleições e começam a criar artificialmente contradições e oposições. Votando no PDR tem havido mais autenticidade, não estou vinculado a direções partidárias". 

A este propósito, Marinho e Pinto acusou o PS de afastar eurodeputados por causa de "clientelas partidárias", dando vários exemplos. "Ricardo Serrão Santos foi corrido para dar lugar a um 'muchacho' do Dr. Carlos César".