No dia 12 de abril de 2021, chegou à nossa caixa de e-mail uma nova publicação a circular a grande velocidade no Twitter. Brasil de Olho republicou um vídeo com a denúncia de uma alegada “ameaça de morte com uma arma ao deputado português, André Ventura”. A publicação original surgiu no fórum brasileiro "Adrenaline" onde o autor da alegada ameaça se identificava como um senegalês que agia em defesa do nome de Mamadou Ba.

Print do vídeo, agora indisponível, e que, às 17h29 do dia 12 de abril de 2021, contava já quase 400 visualizações

(Imagem mostra a data de criação da página que disseminou o conteúdo. Foto: DR)

 

A conta, além dos símbolos do Brasil como imagem de perfil, não tem seguidores. Contudo, na sua lista de pessoas “a seguir”, constam nomes como o de André Ventura, Augusto Damásio, militante do CHEGA e Pedro dos Santos Frazão, atual cabeça de lista do partido à Câmara Municipal de Santarém.

Este é um dos exemplos de desinformação que circulam no espaço digital português. Uma vez que mencionavam diretamente o Bloco de Esquerda (BE), o partido ficou logo alerta. De seguida, a publicação foi denunciada em massa e o Twitter eliminou todos os registos.

Mamadou Ba, visado na publicação e dirigente do SOS Racismo, relata: “quando digo alguma coisa, ela é retirada do contexto e aproveitada para construir uma narrativa falsa, transmitindo a ideia de que sou uma ameaça, um perigo para a democracia”. Asseverando que a alegada ameaça de morte é “absolutamente falsa”, afirma ser recorrente, tratando-se do “modus operandi da extrema-direita”, não só em Portugal, mas em países como o Brasil e os Estados Unidos da América. Questionada via e-mail, a assessora de imprensa do CHEGA, Patrícia Carvalho, defende que “não faz sentido nenhum esse tipo de acusação”.

(Foto: Jon Nazca/Reuters)

O mundo da desinformação

As fake news, ou a difusão de informações falsas, mascaradas de “notícias”, são um dos temas centrais do século XXI. Desde as deep fakes, com manipulação de imagens em vídeo, até à simples partilha de textos com relatos falsos e informações descontextualizadas, o mundo vivido online convive, ao segundo, com a difusão alucinante destes conteúdos. Uma ameaça que pode levar a que multidões sejam movidas por mentiras, em poucos dias, ou horas.

Numa altura em que 26% dos europeus confiam nas notícias e conteúdos partilhados nas redes sociais, segundo dados do Eurobarómetro de 2018, “a desinformação passou a estar quase equiparada ou até a ter algum predomínio, nalguns momentos, sobre a informação verídica”, defende Alexandre de Sousa Carvalho, investigador associado do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES). Por sua vez, Nuno de Sá Teixeira, professor auxiliar convidado no Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro, assinala que o que as redes sociais acrescentaram será “só em termos de escala – quantidade - não em termos de qualidade”.

A desinformação é um tema que tem marcado o debate na Academia. Como acontece a difusão de fake news? O que provocam nas pessoas? Quais as suas piores consequências?

A professora e investigadora da Universidade Católica explica o fenómeno da desinformação

A analista de política assinala que os “reforços das narrativas” acabam por ser mais “visíveis em partidos populistas que fazem publicações nas redes sociais que se mostram, mais tarde, mentira”.

Dá o exemplo do alegado tiroteio no Seixal que foi provocado por um emigrante, recém-chegado, e que, segundo o JN, “alcoolizado disparou três tiros de caçadeira, do telhado de sua casa, contra um café onde estavam vários moradores”. Helena Ferro de Gouveia recorda o tweet de André Ventura, líder do partido CHEGA e deputado único na Assembleia da República, e as “insinuações” da publicação quando, “na realidade, a factualidade é outra. Mas desmentido – esse - nunca aconteceu”.

Alexandre de Sousa Carvalho defende que “a desinformação sempre foi parte da política”, salientado que “não há um espetro político que seja, necessariamente, mais propenso do que o outro” para utilizar a desinformação como arma de arremesso. Se tivesse de destacar algum, seriam “os casos dos movimentos populistas”. Helena Ferro de Gouveia, por sua vez, destaca que “a desinformação é utilizada, de alguma forma, por todos os partidos políticos”.

O mesmo defende Miguel Crespo, investigador no Obercom, que recorda o exemplo de “movimentos políticos que não têm nada a ver com partidos, mas com posições sobre a sociedade, que utilizam a desinformação para passar a sua mensagem”. Alguns casos identificados provêm de “desinformação por parte do PSD”, havendo “pequenos focos de desinformação vindos de todos os quadrantes”. Contudo, destaca que a investigação em Portugal aponta que, de forma sistemática e organizada, a desinformação “vem, maioritariamente, da extrema-direita”.

O autor do livro “Fábrica de Mentiras” e jornalista Paulo Pena, antes de fazer o seu trabalho de investigação sobre as "fake news" em Portugal, vivia também na sua bolha. “Achava que não havia 'fake news' em Portugal”, porque, no seu caso, “não tinha acesso a notícias falsas partilhadas no Facebook ou no Twitter”. A pesquisa veio-lhe provar o contrário: ao fim de algum tempo de investigação, deparou-se com mais de 50 sites de “produção de mentiras”.

Jornalista freelancer explica como as "fake news" podem ser um negócio lucrativo

 

Miguel Crespo assinala que “a partir do momento em que alguém pode ganhar dinheiro com a desinformação” torna-a “um negócio”, o que vai além dos “objetivos políticos ou sociais”. Segundo o especialista em comunicação digital, o Facebook, o WhatsApp e o Youtube são as principais redes onde circula informação falsa. No caso do WhatsApp, há a agravante de “ninguém saber o que se passa dentro dos grupos fechados”, estando os investigadores dependentes de pessoas que se voluntariem a partilhar informações, para estudarem as cadeias de desinformação nesta rede social.

O que nos leva a cair na ratoeira?

Nuno de Sá Teixeira frisa que as emoções que “impulsionam as pessoas a partilhar a informação falsa estão mais associadas a emoções negativas”, como o medo, a raiva, a repulsa. É uma reação que está inscrita no ADN humano: “na nossa história evolutiva compensou sempre agirmos perante qualquer coisa que nos instile medo”. Com as redes sociais, o alcance destas mensagens gera múltiplas reações e comentários, em comparação, por exemplo, com a publicação de um órgão de comunicação social.

(As publicações nas redes sociais do líder do CHEGA atingem um maior alcance do que o trabalho de fact-checking realizado pelo Polígrafo. Foto: DR)

Alexandre de Sousa Carvalho recorda o caráter instigador e polarizador de emoções nas redes sociais. “Quem quer ter um ativismo político que sobressaia precisa também de estar sempre a navegar nos escândalos das redes sociais, que são o que alimenta também as interações” online. O investigador destaca, em Portugal, o caso de André Ventura dado que a sua ação interventiva nas redes sociais é usada para o “promover como ator político e só o vai credibilizar porque ele se coloca no centro da discussão”. Aliás, “a base de qualquer movimento populista tende a usar as redes sociais como forma de autopromoção”.

“Discursos muito emocionais, que polarizam e com uma certa agressividade, potenciam a possibilidade de fazer partilhas online – são tipos de discursos que os media têm muita dificuldade em resistir”, explica Rita Figueiras, professora na Universidade Católica Portuguesa. Afinal, não são apenas as plataformas que dão palco aos movimentos populistas. “É muito difícil para os meios de comunicação não colaborarem – ainda que não intencionalmente – dando visibilidade”, afirma.

Helena Ferro de Gouveia adianta o erro que o jornalismo não pode cometer: “dar microfone, sem contraditório”. Ao contrário de algumas posições mais extremadas que defendem o total silêncio perante estes movimentos, a ex-jornalista acredita que, em contexto democrático, devem ser ouvidos, “mas há que contextualizar sempre as informações”. Destaca a necessidade de se tornar uma rotina mais relevante nos media, dado que o fact-checking “é válido para populistas, mas também para outros partidos”.

Em Bruxelas, Carlos Zorrinho e José Manuel Fernandes, eurodeputados portugueses, permanecem alertas. A ascensão de movimentos populistas e extremistas é uma realidade no contexto europeu. “Exploram as dificuldades das pessoas, não debatem soluções”, critica Carlos Zorrinho, membro do Grupo da Aliança Progressistas dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu. Na sua opinião, “resolver os problemas das pessoas é o melhor caminho para retirar pasto ao seu crescimento”.

José Manuel Fernandes, membro do Grupo do Partido Popular Europeu, apela à educação: “tem de haver um combate sério ao populismo, que comece na escola”. Os extremos “autoalimentam-se com discursos contraditórios. Depois, os moderados começam a ficar condicionados e é importante que não percam essa batalha”. Além de considerar que “é errado pensar-se que os populismos e as redes sociais são unicamente utilizados pela extrema-direita – as 'fake news' existem de ambos os lados”.

Alvos de desinformação

Fabian Figueiredo estava em casa. No dia 21 de janeiro de 2021, durante a noite, ouve o seu telemóvel a tocar. Olha para o ecrã. Uma chamada anónima.

“Regra geral, não atendo números anónimos”. Mas, desta vez, abriu uma exceção. “Eram pessoas que, supostamente, apoiavam o CHEGA e diziam saber que eu era o autor do ataque contra o André Ventura”, em Setúbal . “Nessa altura, percebi que, mais tarde ou mais cedo, seria visado por uma ‘deep fake’ e que tentariam dizer que manipulei ou ordenei pessoas para atacar” o ex-candidato presidencial, relata o dirigente do Bloco de Esquerda (BE).

O alerta veio mais tarde.

Um amigo contactou-o e alertou-o que “manipularam mensagens de Whatsapp a fazer de conta que teria orquestrado aquele incidente em Setúbal”. Contudo, a primeira mencionada nessas publicações foi Joana Mortágua, onde era alvo de uma “acusação semelhante”. Quando Fabian foi o visado, foi alertado de imediato. “Denunciei aquilo ao Twitter que, rapidamente, reconheceu que era uma conta falsa que estava a divulgar material manipulado”, revela. Nos prints a que tivemos acesso, o nome da conta era "BRASlLMlSTERIO2" – que, entretanto, foi removida.

No trabalho de investigação realizado pelo jornalista Pedro Coelho, da SIC, com o apoio de uma Bolsa de Jornalismo de Investigação da Fundação Calouste Gulbenkian, “A Grande Ilusão”, os nomes dos organizadores das manifestações contra André Ventura foram revelados. Bruno Prudêncio da Frente Antirracista Cigana e Jonathan da União Antifascista Portuguesa.

A circulação de notícias falsas acerca da candidata à Câmara de Almada não é uma novidade. Tal como acontece com a irmã, Mariana Mortágua, e o pai, Camilo Mortágua, que têm sido alvos constantes de notícias falsas. “É uma forma de direcionar o ódio”, refere. “A melhor maneira é denunciar”, seja através de meios públicos, como o Polígrafo, ou “recorrer para tribunal, quando for preciso”. “Que não se normalize na nossa sociedade democrática”, apela.

Mamadou Ba, militante do BE, afirma que “não sabia da existência do vídeo”. Contudo, “não é uma surpresa”, uma vez que é frequentemente protagonista de conteúdos de desinformação disseminados “pela extrema-direita”, desde a criação de contas falsas, bem como a alegada vandalização de monumentos como o Padrão dos Descobrimentos.

O dirigente da SOS Racismo defende a necessidade de “mecanismos de fiscalização, monitorização e sanção efetiva da manipulação mediática”. Na mesma linha, Joana Mortágua destaca a urgência de um investimento nos media, a fim de haver “redações fortes e com memória, para que a imprensa tradicional não acabe por ser atropelada pelas redes sociais”.

(Jornalistas em Lisboa. Foto: António Pedro Santos/Lusa)

 

Com as autárquicas no calendário de próximas eleições, Fabian Figueiredo acredita que “se prevê” que o ambiente de desinformação “possa ganhar uma dimensão ainda maior”. Afinal de contas, “haverá centenas de candidaturas que se disputam entre si e a internet, até por força da pandemia, será um terreno ainda mais importante”, acrescenta. A investigação científica prova isso mesmo. Miguel Crespo adianta que “eleições são momentos de pico da desinformação”.

Jornalistas na mira

Miguel Carvalho é jornalista há mais de 30 anos. Desde dezembro de 1999, trabalha na Visão. Mais recentemente, tem feito diversos trabalhos de investigação sobre o CHEGA e a extrema-direita em Portugal. Rotular o partido “como fascista, não é a verdade toda, é demasiado simplista”, relata o jornalista. Por tentar “conhecer as entranhas do projeto”, saindo da sua secretária e indo para o terreno, Miguel Carvalho foi também ele difamado nas redes sociais do próprio André Ventura. Na publicação, rotula o jornalista como “comunista” e refere-o como autor da biografia de Álvaro Cunhal.

Na verdade, o autor dessa biografia é José Pacheco Pereira, professor, investigador e cronista português. O jornalista da Visão é sim o autor da obra “Álvaro Cunhal - Íntimo e Pessoal”, um “dicionário afetivo” que conta também com os testemunhos de pessoas que o entrevistaram, como Maria Flor Pedroso ou Luís Osório.

Miguel Carvalho considera que, embora “no âmbito da liberdade de expressão do próprio deputado”, é “grave que tenha que recorrer a métodos destes para contestar investigações que nunca desmentiu”. Com a sua fotografia exposta, o repórter já foi alvo de insultos e ameaças. “Acho irónico que se ataque o jornalista e não tente contribuir para o esclarecimento das coisas que lhe foram perguntadas”. Segundo Miguel Carvalho, o líder do CHEGA já não respondeu às perguntas enviadas no âmbito da última investigação para a "Newsmagazine".

O mesmo rótulo de ligação ao Partido Comunista Português foi atribuído a Pedro Coelho, jornalista de investigação da SIC. “Eles nunca tocam nos factos”, sublinha. “A única coisa que eles tentam é ir para lá da reportagem, ou seja, tentar fazer este tal assassínio de caráter do jornalista responsável pela investigação”. Tal como o colega da Visão, recebeu ameaças e tentativas de condicionamento do seu trabalho, por parte de pessoas adeptas do partido. “Eles tentam condicionar o meu trabalho. Como consequência, tentam atentar contra a liberdade de imprensa”, frisa.

(André Ventura, líder do Chega, durante um protesto na Avenida da Liberdade relacionado com o racismo em Portugal. Foto: Rafael Marchante/Reuters)

 

A assessora de imprensa do partido quando questionada, via e-mail, sobre a relação do CHEGA com a comunicação social, admitiu não ser “uma relação fácil”. Aponta “uma certa hostilidade da comunicação social para com o partido e os seus dirigentes”. Assinala também que “a cobertura mediática dada a outros partidos não é a mesma, sendo o CHEGA prejudicado”.

O jornalista da Visão, que acompanhou eventos e conheceu centenas de militantes do partido, esteve presente até ao anúncio da candidatura de André Ventura, a Presidente da República, em Portalegre. Apesar de já não ter acompanhado a comitiva do partido, durante as eleições presidenciais chegaram-lhe relatos de colegas que “sentiram bastantes constrangimentos por parte da estrutura do CHEGA”. É um partido que “dá sinais cada vez mais evidentes de lidar muito mal com o escrutínio feito pela comunicação social”, aponta.

A assessora de imprensa, por sua vez, assegura “que sempre houve uma relação de respeito entre os dirigentes do partido e os jornalistas”. Acrescenta que “há que distinguir o que são as ações e palavras da comitiva e dos dirigentes daquelas que são as atitudes de militantes e/ou apoiantes” e critica aqueles que não os conseguem separar.

No caso de Pedro Coelho, o jornalista, que contactou com a realidade de outros países europeus, como a França, Espanha e Itália, foi-se “apercebendo que os jornalistas que tinham feito a cobertura destas temáticas tinham a vida condicionada”. Apesar de precavido, “não imaginava o nível de ameaça que suplantou, negativamente, as piores expectativas”. Na sequência das intimações de que a equipa foi vítima, nomeadamente, no contexto digital, o Internal Press Institute apresentou uma queixa formal às autoridades portuguesas “sobre o risco da ação do CHEGA”, na sequência das duas primeiras reportagens exibidas na SIC.

A Comissão Europeia na luta pelo combate à desinformação

A desinformação já fazia parte da agenda europeia. Com a pandemia, a necessidade de controlar a propagação de “factos duvidosos” alimentou o debate nos corredores do Parlamento Europeu. Uma das principais medidas foi o Código de Conduta acordado com as redes sociais, para o controlo da desinformação.

Věra Jourová, Vice-Presidente para os Valores e Transparência da Comissão Europeia (CE), confessa, via e-mail, que apesar dos “bons resultados, o acordo ainda não é suficiente”. Destaca a urgência de as plataformas se tornarem “mais responsáveis, com políticas mais transparentes e possibilidade de acesso a dados relevantes”.

(Vera Jourova, comissária europeia para os Valores e Transparência. Foto: Johanna Geron/Reuters)

Em Portugal, a Entidade Reguladora para a Comunicação (ERC) tem trabalhado, desde 2018, em conjunto com a União Europeia. Faz-se representar no subgrupo de trabalho European Regulators Group for Audiovisual Media Services (ERGA) sobre Desinformação e salvaguarda dos processos democráticos. A nível nacional, “a ERC tem respondido a reclamações dos cidadãos que lhes são enviadas e apreciadas caso a caso”, sendo que quando “se comprova a divulgação de desinformação, esta é endereçada ao cuido do Ministério Público”, destaca Tânia Soares, Diretora do Departamento de Análise dos Media.

Medidas da UE no controlo da desinformação

O Código de Prática promovido pela Comissão Europeia, em 2018, foi uma iniciativa desenvolvida em colaboração com as redes sociais. Facebook, Google e Twitter integraram o acordo com objetivo de combater a desinformação, que, após o período pandémico, passou a incluir o TikTok, Microsoft e Mozilla.

O eurodeputado José Manuel Fernandes considera que as medidas “não são suficientes, mas são mais uma contribuição”. O facto de a CE ter “competências limitadas” alerta para a necessidade de “os estados-membros fazerem a sua parte”, nomeadamente, no que toca a políticas de literacia mediática.

Carlos Zorrinho, por sua vez, assinala que “a desinformação ganhar cada vez mais terreno conduz à insuficiência da resposta, mas não há ainda definição clara do que falta fazer”. O papel central deve estar nos cidadãos “para poderem ser eles os primeiros e os mais naturais e saudáveis filtros, que ajudem a travar e a não propagar a desinformação”, frisa.

Um dos debates provocados é os limites da intervenção na liberdade de expressão versus o combate à censura. Věra Jourová garante que “o trabalho da CE para combater a desinformação não irá culminar na criação dos ‘Ministérios da Verdade’”, numa referência à obra de George Orwell, 1984. O foco do investimento será “nos cidadãos e na literacia digital”. Além dos programas de financiamento de “apoio a jornalistas que são peças chave e que oferecem informação credível”, assinala.

Paulo Pena, jornalista do Investigate Europe, refere que “a UE deveria ter um papel preponderante na regulação das redes sociais”. Recorda a tentativa, em 2018, de “autorregulação das plataformas que ainda hoje não surtiu efeito”. O jornalista de investigação salienta o problema das contas falsas nas redes sociais, que permite que uma só pessoa possa ter dezenas ou mais de perfis. “Uma coisa que tem de ser regulada rapidamente é a identidade digital”, que admita que as pessoas sejam responsabilizadas pela sua atividade online. “Não sabemos ao debater, nas redes sociais, se estamos a debater com uma pessoa ou com um programa de computador, que só faz reply de fake news”, alerta.

O eurodeputado do PS assevera que “a definição de novas políticas de regulação está neste momento no centro do debate e da decisão europeia”. Por sua vez, José Manuel Fernandes defende que “na internet não deveria existir o anonimato”. Apesar dos avanços dos sistemas de Inteligência Artificial, bem como os algoritmos desenvolvidos pela CE, ainda “há um trabalho grande a ser feito nesta área”. Se o ambiente de desinformação prevalecer, bem como a proliferação de contas falsas, “se for essa a marca do debate público, estamos à beira de um precipício”, denuncia Paulo Pena.

Quantos "likes" vale o jornalismo?

Com a migração dos jornais para o digital, a informação começou a migrar para os feeds das redes sociais. Nesse mesmo espaço, a informação jornalística tem de competir, diariamente, pela atenção dos cidadãos com novos fenómenos, como o caso da desinformação. Uma das agravantes é o facto de a “desinformação se alimentar das notícias dos jornais e conseguir ter mais cliques do que a notícia original”, assinala o repórter Paulo Pena.

O autor de um livro sobre o tema, que trabalhou em redações como a do Público, Diário de Notícias e Visão, salienta que o lucro publicitário de plataformas de disseminação de fake news será sempre superior aos do jornalismo nas redes sociais. “É muito importante ter em conta, sobretudo as direções editoriais dos jornais, que o jornalismo nunca vai poder competir pelos cliques”, adianta.

Miguel Carvalho, cujo última obra editada é sobre “a história secreta da vida” de Amália Rodrigues, destaca como uma das suas maiores preocupações é o jornalismo estar “a deixar de definir a sua própria agenda”. A falta de recursos humanos e financeiros, que vai afetando a generalidade das redações, além do teletrabalho, devido à pandemia, “cria dependência do que se vai dizendo e torna os jornalistas menos despertos e menos atentos às próprias necessidades que os cidadãos têm”, frisa.

O jornalista considera que o próprio jornalismo se “está a definir muito pelo que tem likes”. Recordando uma notícia publicada no The Guardian, Miguel Carvalho destaca que o facto de o “The Daily Telegraph estar a ponderar pagar aos jornalistas consoante os likes que tenham, não é um fenómeno britânico, é global. Portugal já tem disto”, confessa, sem adiantar nomes.

Paulo Pena, por sua vez, “cada vez mais esperançoso”, acredita que “o jornalismo tem de ter a capacidade de mostrar a sua relevância às pessoas e mostrar por que não é apenas mais um conteúdo que está disponível no feed” das suas redes sociais. Se a luta pelas visualizações continuar, “o jornalismo vai ser cada vez mais influenciável pela lógica da desinformação”, defende.

“O processo da erosão das democracias é anterior à pandemia”

Com o início da pandemia, a vida ‘normal’ ficou suspensa. Todos os setores foram sentindo, de forma mais ou menos aguda, os efeitos das restrições e dos confinamentos impostos. A investigadora Rita Figueiras salienta que, apesar de ainda ser necessário esperar mais tempo para uma avaliação fidedigna, “a pandemia pode ter aqui um efeito evidente, se pensarmos que muitas democracias já estavam a ser conturbadas”. Será uma reflexão a fazer no futuro, a fim de perceber o “tipo de consequências que pode ter em termos de impacto na erosão das democracias que já estava em curso”, assinala.

No contexto europeu, esse tem sido um debate premente. Věra Jourová destaca a importância de olhar individualmente para cada país, uma vez que “a situação em Portugal não é a mesma que na França ou na Polónia”. Além de evidenciar a crise financeira e migratória como principais pontos fraturantes, crê que “a razão pela qual os populismos estão a crescer em alguns países resulta da quebra de confiança nos políticos e partidos mainstream”.

A Vice-Presidente destaca, ainda, o European Citizens Iniative como “o primeiro instrumento democrático transnacional”, que permite a participação dos cidadãos europeus na construção da agenda da UE.

Helena de Ferro Gouveia acredita que um dos principais “perigos” nos populismos é o de “não jogarem as regras do jogo democrático”. A “desumanização do adversário político”, sejam eles membros de outros partidos ou até jornalistas, leva a que ao “se criar um inimigo, se consigam mobilizar tropas fiéis”.

Focando no exemplo da instrumentalização da desinformação como arma política, no que toca ao Rendimento Social de Inserção, a analista defende que “o que os democratas têm a fazer é não cair neste jogo, portanto, o silêncio não é solução. Têm que desmontar o discurso de ódio com argumentos”.

O grande repórter Pedro Coelho, que tem feito os trabalhos de investigação sobre a extrema-direita na Europa e em Portugal, recorda que “a política é nobre” e tem “a obrigação, enquanto jornalista, de despertar a nobreza da política”. Na mesma linha, Miguel Carvalho acredita que o “CHEGA é um bom pretexto para discutir o jornalismo”.

Qual é a chave?

Além da regulação das plataformas sociais, cujos acordos com a CE têm caminhado nesse sentido, a literacia mediática é uma das armas que capacitam os cidadãos, defendem Alexandre de Sousa Carvalho, Helena de Ferro Gouveia e Rita Figueiras. Nuno de Sá Teixeira estabelece uma analogia com a ‘vacina’: “à parte das metáforas, é simplesmente um exercício de informação. A informação não é focada no que são notícias falsas ou não, mas acerca dos métodos e formas de as propagar”, explica.

“O algoritmo que funciona no Facebook não é um algoritmo que seja positivo para a sociedade, nem para a democracia em geral”, critica o investigador do CES. Por isso, há que investir na educação dos cidadãos para os media, para saberem “identificar fontes credíveis ou quais os lugares onde é mais provável encontrar desinformação”, destaca Rita Figueiras. Além do reforço no investimento “nos meios de comunicação tradicionais”, acrescenta Helena Ferro de Gouveia. Quanto ao jornalismo, “tem de perceber que a sua função nunca foi tão evidente e tão necessária como é agora”, conclui Paulo Pena.

A reportagem que aqui apresentamos foi desenvolvida no âmbito da iniciativa ReportEU por uma equipa de estudantes de jornalismo ou comunicação social e deve ser vista como parte de uma experiência de aprendizagem. A Comissão Europeia, o REC e as outras entidades que colaboraram, nomeadamente a TVI, não são responsáveis pelos dados, informações ou pontos de vista incluídos e em relação ao formato da reportagem, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade pelos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores e entrevistados. 

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/ Ana Sofia Pereira e Catarina Magalhães