"Uma mulher não pode ser feminista e ter em casa uma empregada que aufere o salário mínimo nacional.” As palavras são de Joacine Katar Moreira, candidata a deputada pelo Partido Livre e foram ditas perante uma plateia constituída maioritariamente por mulheres: negras, latinas, sul-americanas, portuguesas, espanholas. Mulheres reunidas para falar sobre feminismos e as suas ligações ao racismo, ao conservadorismo, ao capitalismo e até ao ambiente.

Um encontro de feminismos promovido pela rede “Ella”, que surgiu no Brasil contra a criminalização de mulheres, aconteceu esta sexta-feira na Casa Ninja de Lisboa, espaço que a plataforma brasileira Mídia Ninja inaugurou na capital portuguesa em julho.

A sala pequena estava bem composta com dezenas de mulheres (alguns, muito poucos, homens) e um painel de seis convidadas: além de Katar Moreira, tomaram a palavra a deputada socialista Isabel Moreira, a deputada do Bloco de Esquerda Joana Mortágua, a jornalista Pilar del Rio, Maria Eugenia Palop, eurodeputada do Unidas Podemos de Espanha e Schuma Shumacher, ativista da Bancada Feminista Brasil.

Numa intervenção que suscitou vários momentos de aplausos, Joacine Katar Moreira defendeu que “feminismo é solidariedade” e, nesse contexto, afirmou que “uma mulher não pode ser feminista e ter em casa uma empregada que aufere o salário mínimo nacional.”

A candidata do Livre por Lisboa começou por notar que “durante muito tempo houve uma universalização” daquilo que é ser mulher para reiterar que “não é possível ser-se feminista sem considerar as assimetrias que separam” as mulheres e “as desigualdades” que existem entre elas.

É nos corpos das mulheres negras que o capitalismo é mais implacável”, frisou.

Por outro lado, Katar Moreira sublinhou que “a luta racista não serve de nada se for misógina”.

Se a candidata do Livre destacou a ligação do feminismo à luta antirracista, Isabel Moreira falou da influência do conservadorismo, nomeadamente da Igreja, nos direitos das mulheres.

A deputada socialista não tem dúvidas: “não há feminismo sem laicidade e não há direitos das mulheres sem laicidade".

A influência da Igreja, das igrejas contra as mulheres é enorme. Não há feminismo sem laicidade, não há direitos das mulheres sem laicidade”, vincou.

De resto, Isabel Moreira lembrou que o conceito “ideologia de género” surgiu no seio da Igreja Católica, nos textos do então cardeal Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI.

E aqui, a deputada aproveitou para deixar farpas ao CDS, afirmando “que os partidos tradicionais estão a servir de barriga de aluguer para a direita reacionária”. Quando “um partido de direita” defende que os pais devem ter o direito de escolha nas escolas “isso significa que os pais podem travar a Constituição nas escolas”, acrescentou.

Não, a Constituição entra. O obscurantismo não”, atirou.

Antes, Joana Mortágua já tinha abordado a questão da “ideologia de género”, uma expressão que para a deputada bloquista é apenas uma nova forma de falar em “machismo”.

“O machismo agora é ideologia de género. Declarar guerra à ideologia de género é declarar guerra à igualdade.”

Mortágua afirmou que "o ataque de deputados da direita à ideologia de género” é apenas um exemplo num cenário que se tem verificado a nível global: o “avanço do conservadorismo”. A deputada referiu, a este propósito, o governo de Jair Bolsonaro e as posições do partido de extrema-direita Vox, em Espanha.

E de Espanha veio Maria Eugenia Palop, eurodeputada do Unidas Podemos, que defendeu que “o movimento feminista é o futuro” e que “as mulheres feministas são o antídoto da extrema-direita”.

Esta sexta-feira foi marcada por várias iniciativas a nível mundial pela defesa do ambiente e o tema não só não foi esquecido, como foi sublinhado neste encontro. Palop foi perentória: “a luta feminista tem de ser ecológica”.

A eurodeputada espanhola afirmou que “dependemos de um mundo de recursos naturais e que há quem se queira apropriar do bem comum” e que, por isso, feminismo e ecologia têm de andar de mãos dadas.

Por sua vez, a ativista brasileira Schuma Shumacher destacou o caso específico do seu país, onde, não tem dúvidas, se vive um ambiente de "trevas" com o governo de Jair Bolsonaro. E que o feminismo, que tem saído às ruas brasileiras, tem de ser a resposta. 

O encontro começou num tom melancólico com a voz da fadista Érica Fernandes e acabou com uma selfie de grupo, em clima de festa.