No derradeiro dia de homenagens fúnebres a Mário Soares, as portas da Sala dos Azulejos do Mosteiro dos Jerónimos abriram às 08:30, meia hora depois do previsto. Durante duas horas e meia, anónimos e personalidades públicas fizeram questão de se despedir do antigo Presidente da República, apesar de, no dia de hoje, a urna estar fechada e mais afastada do público.

Figuras como o juiz Armando Leandro, presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, o gestor Luís Nazaré, o jornalista António Perez Metelo, a atleta Rosa Mota ou o antigo ministro Miguel Cadilhe homenagearam Soares durante a manhã.

João Soares, acompanhado dos filhos (que na segunda-feira protagonizaram um dos momentos mais emotivos do dia), chegou pouco depois das 10:00. Entrou, sem falar aos jornalistas e, já na Sala dos Azulejos, recebeu quem fez questão de dizer um último adeus a Mário Soares.

A irmã, Isabel Soares chegou cerca de 45 minutos depois e juntou-se a João Soares na Sala dos Azulejos.

Um dos momentos mais marcantes da manhã foi quando os antigos militares que trabalharam com Mário Soares no Palácio de Belém prestaram homenagem ao antigo Presidente. Já reformados, fizeram questão de fazer a guarda de honra ao caixão. O pedido foi feito aos responsáveis pelo protocolo e, durante alguns minutos, vestidos à civil, substituíram, inertes, os agentes que prestavam a guarda de honra.

Miguel Cadilhe, antigo ministro das Finanças dos Governos de Cavaco Silva, passou pelos Jerónimos. Aos jornalistas, recordou as cartas trocadas com Soares e os “episódios belíssimos” que ficaram para contar, marcados pela “consideração” e pelo “fairplay” da parte de Mário Soares.

Uma vez, cometi uma impertinência. Soube que ele não gostou e escrevi-lhe e foi uma pedra no assunto. Escrevi-lhe a pedir desculpa e compreensão, sobretudo. Não poderia diminuir a grande admiração, o respeito e a gratidão que eu tinha por ele”, recordou.

 

Ele tinha uma outra estatura. Tinha uma visão muito grande. Tinha a visão do cimo da montanha. Via a floresta, não via a pequena árvore.”

A atleta Rosa Mota, reconhecida apoiante de Soares, recordou uma história em Bruxelas, em que Soares se fez passar por convidado dela num evento:

Tínhamos uma cerimónia muito importante. Ele era Presidente da República, na altura e tinha-se esquecido do convite. Eu tinha o meu e o meu dizia ‘duas pessoas’. (…) Ele disse-me ‘Tem aí o seu, não tem? É para duas pessoas? Olhe, eu sou acompanhante desta senhora!’. O senhor Presidente da República é que passou a ser meu acompanhante.”

Rosa Mota fez ainda questão de sublinhar a importância que Soares deu ao Desporto: “Soube a importância que o Desporto tinha na nossa sociedade e soube valorizá-lo socialmente.”

O ex-candidato presidencial Vitorino Silva (Tino de Rans) também esteve nos Jerónimos e, à saída, falou aos jornalistas e deixou um desafio aos portugueses para uma verdadeira homenagem ao homem que lutou pela democracia: “A democracia não acabou. As pessoas vão continuar a ser livres e a poder votar. (…) Gostaria que, para homenagear Mário Soares, nas próximas eleições, as pessoas votassem em massa e combatessem a abstenção.”

Bruno de Carvalho deslocou-se aos Jerónimos em representação do Sporting, mas também em nome pessoal, como fez questão de sublinhar: “O meu tio-avô, Pinheiro de Azevedo também teve um papel importante [na luta pela Democracia].”

Jaime Marta Soares, outra das personalidades que passaram pelos Jerónimos, recordou o convívio com Soares. O antigo autarca e presidente da Liga dos Bombeiros lembra uma visita de Soares a Vila Nova de Poiares e também uma história “bela” com Mário Soares, que mostra a “sensibilidade que ele tinha de, nos momentos sérios, também brincar.

Cerimónias prevista para a tarde

As portas do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, fecharam ao público às 11:00, para que a família e os amigos mais chegados tenham oportunidade de se despedir, em privado, do antigo Presidente da República.

Cerca das 13:00, a urna foi transportada para os claustros do Mosteiro, para a realização de uma sessão solene evocativa de homenagem. Haverá lugar a diversas interpretações musicais por parte do coro e da orquestra do Teatro Nacional de São Carlos, além de "A Portuguesa" no princípio e no final.

O protocolo previsto para esta cerimónia privada é o seguinte:

A seguir ao hino nacional, ecoará através da instalação audiovisual a voz de Soares, seguindo-se uma intervenção do filho, João. Ouvir-se-á depois a voz de Maria Barroso, antes da intervenção da filha, Isabel. Após a intervenção de Isabel Soares, diretora do Colégio Moderno, terá lugar um momento musical com uma peça do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart.

Em seguida, através de um vídeo de cerca de 10 minutos, gravado durante a atual viagem de Estado à Índia, o primeiro-ministro, António Costa, vai homenagear o fundador do PS. António Costa decidiu manter a visita de Estado à Índia e esta é a forma encontrada para estar presente na homenagem a Soares.

Nova interpretação, desta feita de uma obra do compositor britânico Edward Elgar, e discursará em seguida o presidente da Assembleia da República, o também socialista e ex-líder "rosa" Eduardo Ferro Rodrigues.

Finalmente, a intervenção do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, será a última evocação do evento, antecedida por outro momento musical da autoria do compositor francês Gabriel Fauré.

Pelas 14:00, a urna sairá dos Jerónimos, seguindo no armão da GNR em cortejo com batedores da PSP, guarda a cavalo da GNR e outras viaturas que levam a família e altas entidades.

A Força Aérea informou que uma esquadrilha de seis aviões F-16 vão sobrevoar o Mosteiros dos Jerónimos no momento em que a urna com o antigo Presidente Mário Soares sair em direção em ao cemitério dos Prazeres.

O cortejo fará breves paragens no Palácio de Belém, Assembleia da República, Fundação Mário Soares e sede do PS no Largo do Rato, antes de chegar ao cemitério dos Prazeres.

Mário Soares morreu no sábado, aos 92 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. O Governo português decretou três dias de luto nacional, até quarta-feira.

Manuela Micael