O coordenador da task force para a vacinação contra a covid-19 em Portugal assumiu esta segunda-feira que existem vários profissionais de risco que mereciam ser prioritários, mas que tal não é possível dada a escassez das vacinas.

Questionado sobre o porquê de muitos trabalhadores que nunca chegaram a confinar não terem entrado na primeira fase de vacinação, ao contrário dos professores, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo afirmou que, "se olharmos para a sociedade como um todo, muitos deviam ser prioritários. Dada a escassez de vacinas não podemos vacinar todos (na primeira fase)".

Gouveia e Melo volta a reforçar que a inclusão dos professores na fase 1 se deve à prioridade de garantir "resiliência" ao Estado. Esta garantia iniciou-se com a inoculação dos profissionais de saúde.

O coordenador da Task Force explica que a prioridade na vacinação é definida pela Direção-Geral da Saúde e admite que a mesma atue com base num "problema moral". "Se obrigamos pessoas a não trabalharem confinadas, devemos conferir-lhes proteção", reforça.

Nunca vi, nem cedências, nem pressões de quaisquer corporações e sindicatos", remata, em entrevista a Miguel Sousa Tavares.

Em termos numéricos, o vice-almirante explica que 90% do esforço "foi para proteger vidas" e 10% "para ganhar resiliência no Estado" - no âmbito da resiliência estão incluídas cerca de 50 mil pessoas, um número mais de dez vezes menor do que aquele que tem a responsabilidade de salvar vidas - 600 mil pessoas.

Interrogado sobre a idade avançada que compõe a maior parte do número de mortes diárias e se isso significa que o Estado tem falhado a vacinação de pessoas em risco, Gouveia e Melo rejeita que haja algum tipo de "associação muito direta" nesses casos, "não podemos afirmar que as 10 pessoas que morreram hoje, não teriam morrido", sublinha.

Ainda no âmbito da resiliência do Estado, Gouveia e Melo diz que 50% dos bombeiros já foram vacinados, sendo que as doses foram administradas àqueles que lidam com o transporte de doentes infetados com o SARS-CoV-2.

Estratégia de vacinação diária necessita de 2.500 enfermeiros

O vice-almirante explica que é possível concretizar o plano do Governo de vacinar 100 mil pessoas por dia em abril, alocando 2.500 enfermeiros.

Um número que parece contrariar a tese de que há falta de enfermeiros para o processo de vacinação português. Neste momento, o país tem cerca de 60 mil enfermeiros no ativo ( 48 mil no SNS). 

Para o esforço, Gouveia e Melo diz que parte dos enfermeiros provêm do Serviço Nacional de Saúde e a outra parte "terá de vir de fora do SNS", exemplificando que muitos dos profissionais do Estado disponibilizam-se para efectuar horários extra.

No segundo trimestre está prevista a chegada 9 milhões de vacinas, menos três milhões do que a quantidade contratualizada com as farmacêuticas. É "uma dificuldade que a Europa está a tentar colmatar", mas, e por outro lado, significa também uma operação muito maior àquela vista até aqui.

Só no mês de abril, vamos ter tantas vacinas como no primeiro trimeste", aponta o coordenador, destacando a vacinação de mais 4,5 milhões de portugueses até ao verão.

Questionado sobre a possibilidade de Portugal recorrer ao uso da vacina chinesa contra a covid-19, ou da vacina Sputnik V, Gouveia e Melo reitera a posição da DGS: "Qualquer vacina aprovada por um regulador europeu é útil".

Falando sobre as irregularidades na vacinação registadas durante o mês de janeiro, o militar garante existir um controlo vastamente superior. "O processo de controlo é muito mais rígido para evitar interpretações abusivas dos regulamentos. Não tenho conhecimento de falcatruas", afirma.