O líder parlamentar do PCP considerou "mau prenúncio" o facto de o primeiro-ministro, António Costa, pronunciar-se várias vezes sobre a nova "aritmética" parlamentar necessária para vir a ser derrotado no parlamento, na sua nova composição.

João Oliveira discursava em intervenção de fundo na fase de debate do primeiro dia da discussão parlamentar sobre o programa de Governo do PS e referia-se às palavras anteriores de Costa que disse ser preciso à direita aliar-se ao PAN e à restante esquerda para bater os socialistas.

Já ouvimos hoje, por mais que uma vez, o primeiro-ministro fazer contas à aritmética parlamentar procurando fixar ideias quanto às difíceis condições que precisam de estar reunidas para que o PS e o Governo possam ser derrotados em votações nesta Assembleia da República. É mau prenúncio que o Governo parta já do princípio de que as suas propostas poderão suscitar a necessidade de derrota com tal aritmética, mas ficamos, pelo menos, a saber que o Governo conta, à partida, com essa aritmética para algum desfecho ou objetivo tremendista que pretenda vir a alcançar", disse.

O deputado comunista começou por dizer que, "no entender do PCP, o programa de Governo não corresponde à política de que o país necessita para resolver os problemas presentes e assegurar um futuro de desenvolvimento soberano, progresso e justiça social".

É de uma política alternativa, patriótica e de esquerda que Portugal necessita e essa não é a política do PS nem desde Governo", vincou João Oliveira.

Contudo, segundo o presidente da bancada comunista, "o PCP não faz, como nunca fez, uma apreciação fixista ou expectante do programa de Governo".

Sabemos que o programa e a política do Governo terão de confrontar-se com a realidade a que se dirigem, que a sua insuficiência ou opções erradas traduzir-se-ão na incapacidade de resolução dos graves problemas nacionais que persistem e que essa incapacidade colocará o desenvolvimento da luta dos trabalhadores e das populações como condição para que se obtenha resposta cabal às necessidades e anseios populares", continuou.

João Oliveira estimou que "acontecerá com este Governo como acontece com todos os governos".

De resto, a experiência da última legislatura demonstra com clareza que as opções erradas, insuficientes ou limitadas do Governo podem sempre ser superadas com a iniciativa política e o desenvolvimento da luta. Foi assim que aconteceu com o aumento real das pensões, recusado pelo anterior Governo e não inscrito no seu programa, mas depois concretizado porque a força da luta e a iniciativa política do PCP assim o determinaram", congratulou-se.

O líder parlamentar do PCP condenou ainda a submissão do executivo e do PS às imposições da União Europeia, do Tratado Orçamental e das regras da zona euro, deixando "intocados os interesses do capital monopolista e dos grandes grupos económicos".

As opções do Governo em matéria de dívida pública correspondem à casa de madeira da fábula dos três porquinhos e do lobo mau. Pode ser mais robusta que a casa de palha e mais fácil de fazer do que a de betão, pode até ser mais rápida de pôr à vista, mas bastará um sopro mais forte dos especuladores-credores numa próxima ofensiva especulativa sobre o nosso país e lá se vai a obra toda ao ar novamente", ironizou o deputado comunista.

"Contas" de Costa também caíram mal ao Bloco

O BE considerou que uma legislatura para quatro anos não devia começar com as contas de "como o Governo pode ser derrubado", defendendo que o tom de ameaça e desafio é um caminho errado para quem deseja estabilidade.

Ao debatermos um programa do Governo do PS, escolhido, decidido e apresentado apenas e só pelo PS, nós percebemos neste debate que, onde antes havia promessas de cooperação com o parlamento, hoje parece existir um tom de desafio, um tom de ameaça. Não é um bom caminho se se deseja mesmo a estabilidade para quatro anos", lamentou o líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, na discussão do Programa do Governo que decorre no parlamento.

Na perspetiva do líder parlamentar bloquista, "um projeto para quatro anos não se devia começar com uma vinda ao parlamento mostrando que já se fez as contas como o Governo pode ser derrubado".

Deveria era mostrar que estavam disponíveis para fazer as escolhas certas para que essas contas nunca fossem feitas", defendeu.

O primeiro-ministro, António Costa, tinha apontado hoje que, no novo quadro político que resultou das eleições legislativas, a "direita" toda junta só pode derrotar o PS se somar os seus votos aos do PAN e das bancadas à esquerda dos socialistas.

António Costa fez esta referência ao novo quadro político saído das últimas eleições legislativas no debate do programa do Governo, na Assembleia da República, em resposta a uma interpelação feita pela líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes.

/ AG