Os médicos estão em greve hoje e amanhã e, por isso, tema inevitável no debate quinzenal desta quarta-feira, no Parlamento. Foi puxado pelo PSD, que responsabilizou o Governo pela situação. Já António Costa relativizou, dizendo que o executivo não quer condicionar a greve e que há negociações a decorrer para "obter um acordo justo e razoável" com os profissionais.

Os médicos exigem a presença do ministro Adalberto Campos Fernandes nas negociações, entendendo que a tutela está a tratar o processo com "ligeireza". A líder do CDS-PP, Assunção Cristas, ainda perguntou ao primeiro-ministro se vai falar com os médicos, já que o ministro não fala, mas não obteve resposta.

À esquerda, igual preocupação por parte de todos os partidos. Do PEV (Os Verdes), Heloísa Apolónia lembrou que há "dois mil utentes para cada médico de família", que os médicos "não conseguem trabalhar as longas horas nas urgências, porque não conseguem dar resposta com qualidade".

Daí que "o Governo não pode ficar indiferente, deve pronunciar-se claramente e rapidamente sobre as respostas a dar estas reivindicações". Costa explicou que tudo tem o seu tempo e não quer interpretações deturpadas da atuação do Governo.

Tal como Roma e Pavia não se fizeram num dia a reposição da qualifade dos serviços públicos não se faz num dia. Das minhas palavras não retire qualquer desvalorização da greve dos médicos. Não, não desvalorizamos nada. Agora, temos um procesos negocial que está em curso, tem um calendário previsto até setembro, agora interrompido por causa da greve e que será retomado com espírito construtivo".

Catarina Martins, coordenadora do BE, também fez perguntas no mesmo sentido. "Algum de nós se tiver um problema quer ser atendido por um médico que já está há 18 horas nas urgências? Como é que num país onde faltam médicos há jovens médicos sem acesso à especialidade?".

E reparou que o ministro da Saúde ainda não se pronunciou sobre a greve e deixou perguntas a António Costa. O primeiro-ministro respondeu que o Governo entende que não se deve pronunciar sobre o assunto para não condicionar a greve e relativizou, dizendo que há necessidades na Saúde como há noutros setores. O que fazer? Ir respondendo a essas necessidades de forma a assegurar que essas medidas não serão revertidas.

Já Luís Montenegro, do PSD, constatou que "o desinvestimento na saúde está a refletir-se na vida das pessoas". "Está a ver no que dá reverter as 40 horas? Está a ver no que dá reduzir o défice à custa de cortes e desinvestimento público?".

António Costa atirou culpas para o anterior Governo. "Era impossível que as pessoas não estivessem descontentes depois do que aconteceu nos quatro anos. Nem eu acreditei que fosse possível repor num ano o que foi retirado nos quatro anos. Estamos a reverter as taxas moderadoras, estamos a reverter o desinvestimento nos pessoas, tivemos a maior contratação de médicos".

O que é uma realidade é que contratar mais 4.000 profissionais na saúde não é cortar, é aumentar". 

Montenegro insistiu que há cortes e atribuiu-os ao PS, mas também a BE e PCP, com ironia, ao dizer que os partidos mais à esquerda foram "chorar lágrimas de crocodilo para os hospitais", mas "também são responsáveis pelos cortes na Saúde".

Dos médicos aos balcões da Caixa

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, comparou a falta de médicos com a falta de funcionários noutros serviços públicos como a Segurança Social e a Caixa Geral de Depósitos. 

O encerramento de agências da CGD "onde as populações mais precisam delas" é preocupante para os comunistas, como é o caso da agência de Almeida, na Guarda, que tem causado polémica, que até levou o Presidente da República a querer saber junto dos administradores do banco público o que se passa.

O primeiro-ministro disse ao secretário-geral comunista que CGD tem de ter uma "rede de balcões" que faça "uma cobertura do território nacional" e que a reestruturação do banco público, aprovada pelo Governo, vai nesse sentido.

A reestruturação assegura que em todos os municípios existem balcões da CGD. Em todos os concelhos há balcões da CGD".

Quanto à redução dos trabalhadores voltou a frisar que será feita por via das reformas ou rescisão amigável, "não por despedimentos".

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