O secretário-geral do PCP acusou hoje o PSD de fazer da Caixa Geral de Depósitos uma "arma de guerrilha", considerando que o partido não pode reclamar transparência quando esconde o objetivo principal, que é a privatização do banco.

No final da reunião de hoje do Comité Central do PCP, Jerónimo de Sousa foi questionado sobre a constituição de uma nova comissão de inquérito sobre a Caixa, anunciada por PSD e CDS-PP na sexta-feira, tendo começado por acusar os sociais-democratas de não terem permitido "que se concluísse os trabalhos da anterior comissão".

"O PSD faz disto permanentemente uma arma de guerrilha e bate-se muito pela transparência... Nunca foi capaz de responder a uma acusação direta, a uma denúncia, em relação ao seu objetivo supremo em torno da Caixa Geral de Depósitos, que é a sua privatização. Quem esconde um objetivo principal não pode reclamar transparência", condenou.

Para o secretário-geral do PCP, os inquéritos são "uma figura parlamentar a defender, mas desde que respeite as estritas exigências da Constituição da República e da lei", aguardando pela concretização desse anúncio.

"PSD, e CDS, não quer nada transparência, não quer apuramento da verdade. O PSD quer, no essencial, complicar esta situação, particularmente num momento de início de recapitalização da CGD", criticou.

As críticas de Jerónimo de Sousa também se destinam ao executivo socialista, considerando que "PSD e CDS têm o posicionamento que têm também muito animados pelos erros de condução deste processo por parte do Governo PS".

Perante a insistência dos jornalistas sobre se o ministro das Finanças deveria revelar as sms trocadas com o antigo presidente da CGD, Jerónimo de Sousa foi perentório: "eu fico imensamente preocupado, depois te ter procurado dizer coisas sérias - pelos vistos não consegui -, que continue este folhetim da CGD".

"A direita está a conseguir o objetivo. Não queremos alimentar mais este folhetim, tendo em conta os objetivos que a animam", enfatizou.

Autárquicas: Jerónimo quer mais eleitos da CDU

O secretário-geral do PCP também considerou um erro fazer um "exercício mimético" entre eleições legislativas, autárquicas ou presidenciais, assumindo como objetivo aumentar o número de eleitos nas próximas eleições, nas quais a CDU é alternativa a todos os partidos.

Um dos temas em debate no comité central do PCP de hoje foram as próximas eleições autárquicas, tendo Jerónimo de Sousa respondido aos jornalistas que o objetivo da CDU "é manter e reforçar posições, mantendo as maiorias, conquistando outras, procurando aumentar o número de eleitos".

Sobre os impactos do apoio parlamentar do PCP ao Governo socialista, o secretário-geral comunista considera que "não se podem misturar as coisas" e foi perentório: "erra quem procure fazer um exercício mimético entre o que são eleições legislativas e o que são eleições autárquicas ou eleições presidenciais".

"Não há essa correspondência e por isso é que nós temos sempre mais votos para as autarquias do que para outras eleições", justificou.

Durante a declaração, o líder comunista considerou que "na nova fase da vida política nacional ganha maior importância a afirmação distintiva do projeto da CDU, o caráter diferenciador das suas propostas e opções, a dimensão de alternativa clara e assumida à gestão e projetos de outras forças políticas, sejam PSD e CDS, sejam PS ou BE".

Jerónimo de Sousa deu "dois pequenos exemplos" - que assume que "não valem como lei geral" -, sendo o primeiro as eleições autárquicas antecipadas de São João da Madeira, no dia das eleições presidenciais, onde o candidato Edgar Silva "teve 200, 300 votos e, no entanto, depois, para a autarquia, a CDU teve mais de mil votos".

A eleição numa pequena, mas rica freguesia de Galveias onde o PS tinha maioria absoluta. A verdade é que a CDU teve maioria absoluta nas intercalares. O BE, que tinha tido 50 e tal votos, e passou a ter 16", descreveu ainda.

O PCP “apresenta-se a estas eleições no quadro da CDU - Coligação Democrática Unitária e inscreve como objetivos a apresentação de listas a todos os órgãos municipais e ao maior número possível de freguesias", adiantou ainda.

A CDU, segundo Jerónimo de Sousa, "apresenta-se em todo o país com o seu projeto alternativo e o caráter distintivo da sua ação autárquica", provando o seu "reconhecido rigor e isenção na gestão das autarquias e na postura dos seus eleitos".

"No âmbito do trabalho de preparação das eleições autárquicas foi definido um vasto conjunto de linhas de trabalho e marcou-se para o próximo dia 08 de abril, na Aula Magna, em Lisboa, um Encontro Nacional do PCP", anunciou ainda.

Governo minoritário do PS nunca adotaria medidas e avanços conquistados

Por fim, Jerónimo de Sousa, enalteceu a contribuição decisiva dos comunistas nas conquistas do país com a nova correlação de forças, "medidas e avanços que um governo maioritário do PS nunca adotou nem adotaria".

Jerónimo de Sousa ainda sublinhou que "o país conheceu nesta nova fase da vida política nacional avanços na defesa, reposição e conquista de direitos" que foram "realizados com a contribuição decisiva da luta dos trabalhadores e do povo e da intervenção do PCP".

"Avanços e conquistas que só se tornaram possíveis numa correlação de forças em que o PS não dispõe de um governo maioritário. Avanços e conquistas que, para além do que o Programa do PS admitia, só se tornaram possíveis pela ação e luta dos trabalhadores e do povo e da contribuição e influência decisivas do PCP. Medidas e avanços que um governo maioritário do PS nunca adotou nem adotaria", sublinhou.

O PCP, pela voz do seu líder, avisou que vai continuar a sua intervenção "não iludindo limitações, constrangimentos e contradições" e que "não transigirá perante a política de direita e as opções que lhe deem corpo, venham de onde vierem".

"Tal como não determinará a sua intervenção a partir de pressões, nem condicionará a sua intervenção e juízo próprio de decisão a manobras de conjuntura", alertou.

Jerónimo de Sousa insistiu que "o reforço da União Europeia e do Euro não trará a solidariedade que nunca existiu" e que, pelo contrário, vai reforçar "a prevalência dos interesses das principais potências da União Europeia, em detrimento dos interesses de Portugal".

O comité central também se debruçou sobre o "início de funções do novo Presidente dos Estados Unidos da América", que "suscita justas inquietações".

"Identificando-se elementos novos nas prioridades, discurso e tática da política externa da Administração Trump, sublinha-se, contudo, que no essencial esta se desenvolve na continuidade da linha estratégica das anteriores administrações dos EUA, prosseguindo o mesmo objetivo de contrariar o declínio da hegemonia mundial dos Estados Unidos da América", considerou.

Redação / PP - atualizada às 20:50