O secretário-geral comunista lamentou, esta terça-feira, a continuidade do "diretório de potências" protagonizado por Alemanha e França na União Europeia (UE) e prometeu tudo fazer na discussão sobre o próximo Orçamento do Estado para contrariar imposições externas.

Para Jerónimo de Sousa, "Portugal não pode continuar à espera daquilo que outros decidem lá fora".

Segundo o secretário-geral do PCP, "a discussão que se desenvolve hoje de forma aberta no seio da UE, recusando o falhanço, as contradições e os problemas resultantes da moeda única", e a insistência "num caminho de aprofundamento do federalismo em todas as suas dimensões - como aliás ouvimos ontem [segunda-feira] o novo presidente francês ao lado de Angela Merkel [chanceler alemã]" confirma "o poderio do diretório das grandes potências".

Merkel e Emmanuel Macron [Presidente francês] admitiram na segunda-feira, em Berlim, uma possível alteração dos tratados europeus, na primeira visita ao exterior do novo chefe de Estado gaulês, um dia após a sua tomada de posse.

Segundo o líder comunista, "foi com esta UE que foram impostas durante os quatro anos de um empenhadíssimo Governo PSD/CDS as medidas mais brutais no plano dos direitos e rendimentos dos trabalhadores", em "níveis de retrocesso só comparáveis com os do tempo do fascismo".

Foi com esta UE que, em nome do euro, o país foi sujeito a ameaças e sanções, a imposições de tipo colonial, acusado de viver acima das suas possibilidades", sublinhou.

"Nos próximos meses, os limites e imposições decorrentes da integração no euro estarão bem presentes na discussão do Orçamento do Estado para 2018 como testemunham o Plano Nacional de Reformas e o Programa de Estabilidade que o Governo submeteu a Bruxelas", alertou.

O secretário-geral do PCP garantiu que, apesar de consciente "dos limites que o próprio Governo assume", o seu partido vai tentar "ir mais longe na criação de emprego, no combate à precariedade, na evolução dos salários e carreiras dos trabalhadores, prosseguir o aumento das reformas, reforçar o investimento público, apoiar a produção nacional e dar resposta a carências urgentes no Serviço Nacional de Saúde e na escola pública", além da reversão do agravamento fiscal sobre o trabalho e introduzir justiça na tributação do grande capital".

Referindo-se aos dados positivos do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2017, mais 2,8% face ao período homólogo, Jerónimo de Sousa sublinhou a "trajetória contrária àquela que predominou durante o Governo PSD/CDS" e a importância da "reposição de rendimentos às camadas populares", mas avisou que a sua consolidação futura precisaria de outras opções políticas que o Governo PS não tem tido, nomeadamente a renegociação da dívida.

O euro priva os estados dos instrumentos monetário, financeiro, cambial e, em larga medida, orçamental para promover um desenvolvimento que leve em conta as suas realidades nacionais. No nosso caso, a recuperação dos nossos enormes atrasos e do retrocesso verificado, particularmente nesta última década e meia de introdução do euro", afirmou.

Contudo, os responsáveis comunistas não ignoram "os custos de um processo de recuperação da soberania monetária", os quais julgam poder ser "minimizados, se existir uma correta preparação que defenda direitos e rendimentos, poupanças da população, o funcionamento da economia e a produção nacional" e permitir "crescimento económico bem acima dos 0,6% de média ao longo dos últimos 18 anos, desde que Portugal está na zona euro".

Numa sessão pública inserida na campanha do PCP sobre questões europeias, em Lisboa, intervieram ainda o ex-líder comunista Carlos Carvalhas, o antigo líder parlamentar do PCP Octávio Teixeira e dirigentes como Jorge Pires e Agostinho Lopes ou o deputado Paulo Sá, defendendo o lema: "Produção, Emprego, Soberania, Libertar Portugal da Submissão ao Euro".