O porta-voz do PS, João Galamba, considera que a posição de Augusto Santos Silva, que esta semana escreveu dois artigos de opinião no Público a defender que "o caminho do PS é o da esquerda moderada e europeia", afastando-se dos "extremos", é "ultraminoritária" dentro do partido.

Para Galamba, o "lugar histórico do PS" é à esquerda e daí a experiência da geringonça estar a ser "enriquecedora". Já Santos Silva prefere destacar que este Governo resulta da "matriz" do PS e que, para o futuro, convém manter "as pontes de comunicação abertas", tanto com a esquerda como com a direita.

Numa altura em que o acordo com o PCP, Bloco de Esquerda e PEV tem sofrido alguns abalos - nomeadamente, em relação à redução da meta do défice protagonizada por Mário Centeno e aos acordos assinados entre António Costa e Rui Rio -, e aproximando-se o congresso de maio, as duas correntes socialistas parecem estar a "aquecer" o debate.

"Confesso alguma estranheza quando um alto responsável de um Governo do PS não é capaz de interpretar as razões do seu próprio sucesso", começou por dizer João Galamba, na Prova dos 9, da TVI24, acrescentando que a posição de Santos Silva é "ultraminoritária" no PS.

Questionado diretamente sobre se o PS deve manter as alianças à esquerda, respondeu: "Se não é melhor deixar de se chamar PS e abandonar de vez a família social-democrata. É esse o lugar histórico do PS. Ou se mantém, ou perde qualquer lugar histórico."

Galamba promete que este assunto "será seguramente discutido no congresso", mas não vê nenhuma posição de força no facto de a visão de Santos Silva ser a mesma do ministro das Finanças. "Centeno não é militante do PS, nem sei se participará no congresso", acrescentou.

“O que o PS conseguiu evitar em 2015 pode regressar. O PS evitou a sua total insignificância ao fazer a escolha de negociar à esquerda. O PS só se manterá relevante e só fara sentido aos olhos do eleitorado de esquerda se mantiver esta escolha."

O porta-voz do PS sugeriu a Augusto Santos Silva e aos “defensores da terceira via” que “façam o mesmo que exigiram aos outros”.

“Olhem para a realidade, façam uma autocrítica, percebam o que correu mal e deem respostas concretas aos problemas que vivemos hoje e leio o artigo de Santos Silva e não vislumbro nada disso.”

"Há pessoas que deviam estar no Bloco e foram para o PS" 

Também na Prova dos 9, o eurodeputado do PSD Paulo Rangel sugeriu que a posição de Augusto Santos Silva será a mesma do primeiro-ministro e secretário-geral do PS, António Costa, e disse acreditar que esta é maioritária, ao contrário do que afirmou Galamba.

“A grande maioria das pessoas apoiará a linha de Costa. O ministro dos Negócios Estrangeiros não escreve artigos sobre esta matéria sem que o primeiro-ministro não saiba…”

Quando Rangel desmentiu a maioria de uma ala esquerdista no PS, ouviu um aparte de João Galamba: “Tem falado demais com Francisco Assis em Bruxelas…”

O eurodeputado do PSD admite que os socialistas possam ter "convergências" com os partidos à sua esquerda, mas sublinhou que há "linhas vermelhas" a separá-los. 

“Se o PS quer estar desse lado da história, quer estar, mas não é o lado da social-democracia. Sempre achei que isso é mau para o PS e para o país.”

Sobre a ala defendida por Galamba, Paulo Rangel afirmou: "O PS tem um setor filobloquista: pessoas que deviam estar no BE, mas foram para o PS".

Já Fernando Rosas, sobre o mesmo tema, admitiu que a "o debate sobre a crise da social-democracia é importante".

“Santos Silva fez dois artigos seguidos doutrinários, de preparação do PS, e é uma controvérsia interessante para o congresso daqui a um mês. É contra a existência de uma esquerda do PS que lhe passe pela cabeça fazer uma viragem à esquerda.”

Ouvindo depois a explicação de João Galamba, o bloquista ficou "muito contente" por saber que a ala esquerdista do PS seria maioritária. 

Catarina Pereira