O ministro da Defesa disse esta quinta-feira que o Governo está a desenvolver “um trabalho intenso” entre as várias tutelas para a retirada de civis do Afeganistão e a sua receção em Portugal, que pode acontecer já este mês.

Há um trabalho intenso, coordenado neste momento pela senhora ministra do Estado e da Presidência, que envolve o Ministério da Defesa, naturalmente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Ministério da Administração Interna e o próprio Ministério da Presidência, que têm todos responsabilidades diversas no que toca à retirada de estrangeiros e afegãos do país e sua receção em Portugal”, adiantou João Gomes Cravinho.

O ministro da Defesa falava aos jornalistas na cerimónia de despedida da fragata “Corte-Real”, da Marinha Portuguesa, que partiu esta manhã da Base Naval de Lisboa (situada em Almada), com destino ao Mar Báltico, para se juntar à Força Naval Permanente n.º 1 da NATO (SNMG1 - Standing NATO Maritime Group One), durante os próximos quatro meses.

Cravinho destacou que “neste momento há um trabalho muito intenso que está a ocorrer”, mas que “ainda não estão plenamente definidas todas as modalidades” para a receção destes civis.

Questionado sobre quando Portugal pode começar a receber estes cidadãos, o ministro apontou que "isso está atualmente a ser trabalhado no seio da NATO e da União Europeia”.

Não há uma resposta definitiva que possa dar, mas apontaria para ainda este mês de agosto”, respondeu.

Já quanto à operacionalização da retirada destes cidadãos, Cravinho adiantou que Portugal está em contacto com a NATO, a União Europeia e as Nações Unidas “para dar a sua colaboração e naturalmente que receberá pessoas em cada um desses quadros”.

Aquilo que importa nestes próximos dias, temos que tratar do imediato e o imediato é retirar do Afeganistão todos os estrangeiros que lá estão e que querem sair, todos os afegãos que trabalharam ao longo dos anos com as forças estrangeiras, com as nossas forças por exemplo, com as forças da NATO com a delegação da UE, com a representação das Nações Unidas e portanto são bastantes milhares de afegãos e o fundamental nestes próximos dias é assegurar que possam sair, junto com as suas famílias, em segurança”, apontou.

Questionado sobre se os últimos 20 anos de presença militar estrangeira no Afeganistão poderão ter sido em vão, Gomes Cravinho discordou.

“Não acredito que tenha sido em vão. Desde logo, foram 20 anos e durante 20 anos as pessoas do Afeganistão, a população afegã pôde beneficiar de um país melhor. Segundo, creio que se terão também lançado algumas sementes para o futuro, acredito nisso, isto é, desde logo tivemos durante 20 anos raparigas afegãs a frequentarem a escola, há toda uma geração que teve oportunidades que não tinha tido anteriormente e que se vão refletir ao longo das suas vidas e que se irão refletir necessariamente na vida do país”, sustentou.

O ministro disse ainda que o regresso dos talibãs ao poder é um cenário preocupante “atendendo àquilo que é o percurso dessa organização”.

Contudo, para nós, comunidade internacional, é fundamental que, por um lado, os direitos humanos sejam respeitados e em segundo, que o Afeganistão não seja uma base para o terrorismo. E esses dois parâmetros serão fundamentais para o diálogo com o regime que se está a instalar”, rematou.

Para o responsável pela tutela da Defesa é também necessário “mais recuo” para se saber se a retirada das tropas do país poderia ter sido feita de outra forma.

Poderia haver diferentes interpretações sobre quanto tempo para que os talibãs tomassem conta do país, mas julgo que todos compreendiam que isso ia acontecer mais mês, menos mês. Se seria possível fazer esta retirada de forma mais ordeira penso que precisamos de um pouco de recuo para poder responder”, sustentou.

Os talibãs conquistaram Cabul no passado domingo, culminando uma ofensiva iniciada em maio, quando começou a retirada das forças militares norte-americanas e da NATO.

As forças internacionais estavam no país desde 2001, no âmbito da ofensiva liderada pelos Estados Unidos contra o regime extremista (1996-2001), que acolhia no seu território o líder da Al-Qaida, Osama bin Laden, principal responsável pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

A tomada da capital pôs fim a uma presença militar estrangeira de 20 anos no Afeganistão, dos Estados Unidos e dos seus aliados na NATO, incluindo Portugal.

Face à brutalidade e interpretação radical do Islão que marcou o anterior regime, os talibãs têm assegurado aos afegãos que a "vida, propriedade e honra" vão ser respeitadas e que as mulheres poderão estudar e trabalhar.

Para sexta-feira à tarde está agendada uma reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO, convocada pelo secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg.