Joe Berardo assegura que nunca teve “ao dispor nenhum dinheiro” que tenha sido emprestado pela Caixa Geral de Depósitos (CGD). Numa carta enviada ao presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, o empresário diz que todo o dinheiro foi usado para comprar ações de bancos “que perderam a quase totalidade do seu valor”.

“Querem dar de mim a ideia de ter ficado no bolso com muitos milhões dos portugueses, quando isso não pode estar mais longe da verdade. Nem eu, nem nenhuma entidade ligada a mim, alguma vez tivemos ao nosso dispor nenhum dinheiro que tenha sido emprestado pela CGD, ou por outros bancos”, escreveu, numa carta aberta a Ferro Rodrigues.

Berardo assegura que o dinheiro em causa foi “imediatamente usado na aquisição de ações (o que os bancos sabiam e até incentivavam desde início) que perderam a quase totalidade do seu valor, devido à crise de 2008, sem que tenha havido nenhum retorno do investimento”.

“Por isso, desde aí, na tentativa de procurar pagar, além de terem sido vendidas as ações compradas com os empréstimos e que tinham sido dadas em penhor (…) ainda reforcei as garantias prestadas a dívidas que não eram minhas, mas de entidades de que era Legal Representante, tendo perdido grande parte do meu património dessa forma”, escreve.

O empresário diz ainda que, “só em juros”, pagou “à volta de 231 milhões de euros”. “Veja-se bem: já paguei à banca cerca de 231 milhões de euros em troco de nada”, sublinha.

Joe Berardo diz que escreve esta carta para se defender, criticando a transmissão televisiva, sem seu consentimento, da sua inquirição na Comissão Parlamentar de Inquérito à CGD.

“Fui sujeito a um interrogatório de mais de cinco horas, sem direito a contraditório. (…) E cinco horas, tive alguns momentos infelizes em que respondi no mesmo tom de desafio a perguntas, também elas provocatórias, quando não vexatórias. (…) Com isso, provoquei a indignação de muitos políticos e opinion makers, sendo essa minha inquirição reproduzida e comentada vezes sem conta nos quase dois meses que se passaram desde a mesma”, acrescenta.

Berardo teme que, além dos “danos à honra pessoal”, esta ida ao Parlamento lhe possa trazer problemas em “vários processos judiciais” que tem a decorrer em tribunal, “pois os tribunais, sendo uma realidade humana, onde decidem homens e mulheres, não são imunes, ainda que inconscientemente, aos efeitos da opinião pública”.

O empresário considera que foi “objeto de um verdadeiro julgamento popular nessa tarde de sexta-feira” e sublinha que “os cidadãos não podem ser julgados em comissões de inquérito na Assembleia da República. Para isso, devem existir os tribunais”.

“Eu penitenciei-me pelos meus excessos. Os excessos de outros intervenientes, nessa sexta-feira, foram mero brio parlamentar?”.

Berardo diz ainda que pouco deve “ao Estado Novo Português, porque só tive oportunidade de frequentar o ensino primário, tendo começado a trabalhar aos 13 anos”.

“Aos 17, tive que emigrar para a África do Sul, país que me deu a oportunidade de constituir família e ter sucesso profissional e reconhecimento pessoal. (…) Voltei a Portugal depois do 25 de Abril de 1974 e acreditei e quero continuar a acreditar na construção de um Estado de Direito Democrático, mais justo e mais inclusivo.”

O empresário e colecionador de arte recorda o “contributo” que deu ao país, “através da criação de estruturas (museus e jardins) que possibilita o usufruto pela população de bens culturais”, refere a criação da Fundação Berardo, “através da qual foram atribuídas quase 16 mil bolsas de estudo a estudantes madeirenses para frequentarem cursos superiores fora da Região Autónoma da Madeira”.