Eles, Jorge Marrão e Paulo Carmona, dois fundadores do MEL - Movimento Europa e Liberdade, estão necessariamente presentes, na primeira convenção que organizam, esta quinta e sexta-feira, em Lisboa. Já outros que foram ou terão sido convidados preferiram declinar o convite, sobretudo à medida que o encontro se foi revelando aos seus olhos como uma espécie de "estados gerais" da direita.

Do lado socialista, segundo sublinha a TSF, o ex-líder António José Seguro chegou a ser anunciado pela organização da convenção do MEL, mas não estará. Idem, para críticos da atual liderança de António Costa, como o deputado Paulo Trigo Pereira ou o eurodeputado Francisco Assis.

Já do lado do PSD, é caso para dizer que a coisa ainda pia mais fino. O presidente do PSD foi o primeiro a dar uma nega ao Movimento Europa e Liberdade, porque, segundo fonte da direção social-democrata ouvida pela agência Lusa, Rui Rio achou que estavam convidados muitos oradores do partido que se têm dedicado "à desestabilização" interna.

Segundo a rádio TSF, no primeiro cartaz com o programa da convenção, constava também o nome de Marcelo Rebelo de Sousa, mas o Presidente da República, tendo sido convidado, recusou de imediato e nunca se quis associar à iniciativa.

Entre os que estarão presentes - para debater questões “do centro da governação” como os desafios da Europa no atual contexto mundial e as razões do fraco crescimento português nas últimas duas décadas, na leitura dos organizadores - contam-se Luís Montenegro, Pedro Duarte, Miguel Morgado e Miguel Pinto Luz, que têm em comum já se terem manifestado disponíveis para disputar a liderança do PSD.

Também deverão estar os ex-líderes social-democratas Marques Mendes e Santana Lopes, este último como figura de proa do novo Aliança, e Assunção Cristas, a presidente do CDS-PP, que deverá encerrar a convenção.

"Algum desprezo"

Jorge Marrão é presidente e fundador do MEL. Em maio esteve num inaugural Manifesto Europa e Liberdade, o qual suscitou tanto interesse que só "apareceu uma rádio" no acto, como o próprio reconheceu numa entrevista ao Jornal Económico.

Percebe-se que as atenções dadas às ideias e propostas de debate, na altura, pouca atenção despertaram. Mas, agora, até pela crispação que se vive no seio do PSD, antes mesmo de começar, a convenção serviu para uma troca de galhardetes entre Luís Montenegro, um desafiador do líder Rui Rio, e a antiga presidente do partido Manuel Ferreira Leite, para quem a iniciativa do MEL até merece "algum desprezo".

Acho que todo este tipo de movimentos que se baseiam em questões de natureza pessoal e muito marcados pela futura próxima constituição de listas para deputados merecem-me algum desprezo", afirmou a antiga ministra das Finanças na TSF.

Apesar das desconfianças, Jorge Marrão tem insistido que o MEL não pretende transformar-se num partido político.

Nós não queremos competir no campo eleitoral, não estamos aqui para atacar lideranças partidárias nem governativas, mas para denunciar um conjunto de matérias que consideramos essenciais que entrem no discurso político e sejam debatidos pelos partidos”, defendeu em declarações à agência Lusa.

Como já é banal entre os que se apregoam de "liberais", o atual sócio da consultora Delloite - nascido na cidade moçambicana de Tete, que estudou e leciona no ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão), segundo o currículo do próprio nas redes sociais - considera que o binómio político esquerda-direita já não faz hoje sentido: "a sociedade quer-se dividir em mensagens, como eu diria, do século XIX, em que o problema é apresentado como uma luta entre o capital e o trabalho", como referia ao Jornal Económico.

Mas, se rejeita essa divisão política, o fundador do MEL assume ter deixado fora dos convites para a convenção, elementos do PCP e Bloco de Esquerda, porque entende ser “no centro da política, no centro da governação” que se resolvem os problemas. E para que não restassem dúvidas sobre os tais indesejáveis, fez questão de publicar no seu Facebook que o conclave não é para "comunistas, trotskistas, extrema-esquerda e novos oportunistas da situação". Esclarecedor, talvez.

Chá e "porradas"

Sem ser convidada para esta convenção "às direitas", verdade seja dita que a esquerda, ou os que assumem um perfil ideológico, no mínimo, social-democrata e socialista, pouco se ralaram. Sem, contudo, perderem a oportunidade de zurzir no emergente MEL.

O socialista Carlos César foi lacónico a considerar que o movimento "não é MEL, é FEL", colocando o evento no campo das lutas intestinas no seio do PSD. Já Francisco Louçã, professor catedrático, fundador do Bloco de Esquerda e atual conselheiro de Estado, preferiu colar a iniciativa a uma espécie de Tea Party de trazer por casa, invocando a fação da ala radical do Partido Republicano norte-americano.

É um pouco uma tentativa, e não é a primeira nem será a última de 'Tea Party', uma força de opinião que depois entra num partido tradicional, neste caso seria o PSD, claro que o CDS vai à boleia, tem uma disputa com Rui Rio e portanto quer aproveitar esse espaço e vai por essa razão", sustentou Louçã aos microfones da TSF.

Em contraponto, face às desconfianças e etiquetas coladas ao MEL, também Paulo Carmona defende que o movimento é "apartidário e apolítico" e que foi a comunicação social a fazer uma "interpretação abusiva" de que se trata de uma espécie de estados gerais da direita.

Paulo Carmona está com Jorge Marrão à frente do MEL. Ambos foram dos responsáveis pela criação da Associação Missão Crescimento, em 2011, que se apresentava como um fórum de debate com "o objectivo de encontrar, ao nível da política económica, respostas capazes de atenuar o impacto recessivo do acordo de reajustamento assinado por Portugal com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário internacional, no âmbito do programa de assistência financeira".

O programa foi pensado para toda a gente que acredita na Europa e na liberdade, até porque para nós nunca fez sentido essa divisão esquerda/direita. O nosso espaço é o que rejeita o totalitarismo, não nos revemos em Bolsonaros ou em Maduros", clama Paulo Carmona, falando hoje sobre a convenção do MEL, ao Diário de Notícias.

Paulo Carmona - que foi antigo presidente da Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis, entre 2013 e 2016, escolhido na altura do Governo de Passos Coelho, organismo que seria extinto pelo Parlamento, por proposta do PCP, com apoio do PS e do BE - afina também pela negação da divisão entre esquerda/direita e daquilo que considera "populismos". Sem, contudo, deixar de tentar um comentário jocoso, no seu Facebook, sobre as origens da ostentação por parte do neto do antigo líder cubano, Fidel Castro.