O Presidente da República reagiu esta sexta-feira à morte de Jorge Sampaio, chefe de Estado que esteve em Belém entre 1996 e 2006. Começando por dizer que já prestou as condolências à família, Marcelo Rebelo de Sousa recordou um homem "sereno".

Portugueses, acabei de exprimir à família do Presidente Jorge Sampaio, em dor, o pesar de todos vós. Lutando, mas serenamente, nos deixou hoje o Presidente Jorge Sampaio. Lutando serenamente, como sereno foi o seu testemunho de vida ao serviço da liberdade e da igualdade", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, na Sala das Bicas do Palácio de Belém, em Lisboa.

Numa declaração de cinco minutos, o Presidente da República recordou Jorge Sampaio como "um homem bom", que era "sereno na sua luminosa inteligência, sereno na sua profunda sensibilidade, sereno na sua paciente, mas porfiada coragem", acrescentando: "Nasceu e formou-se para ser um lutador, e a causa da sua luta foi uma: a liberdade na igualdade"

Falando na causa de Jorge Sampaio como a "causa da liberdade", o chefe de Estado destacou a presença na luta contra a ditadura, em diferentes âmbitos.

Homem de construção de pontes, homem de ideias", realçou.

De gravata preta, com uma bandeira de Portugal como fundo, Marcelo Rebelo de Sousa recordou o percurso do antigo chefe de Estado, desde os tempos da ditadura até à atualidade, e defendeu que Jorge Sampaio "provou que se pode nascer privilegiado e converter a vida na batalha pelos não privilegiados".

Podendo ter-se resignado ao caminho mais fácil do jurista respeitado, da quietude da sua origem social, do natural ascendente da sua cultura, do seu pensamento, da sua oratória, escolheu o caminho mais ingrato da solidariedade para com os que mais sofriam, do convívio com o concreto, da privação da sua saúde frágil em exaustivos e desgastantes labores. Ninguém esquecerá momentos únicos dessa entrega", disse.

Jorge Sampaio distinguiu-se "na carismática afirmação no movimento estudantil no início dos anos 60, na defesa em tribunais plenários dos presos políticos durante a ditadura, na representação externa da democracia nascente, na construção de pontes, década após década, entre formações diversas no seu hemisfério político e para além dele, na adesão ao PS, de que viria a ser deputado, líder parlamentar e líder nacional", referiu.

O Presidente da República lembrou "as intervenções decisivas desse furação ruivo na Alameda da Universidade em 62, a madrugada da libertação dos detidos em Caxias após o 25 de Abril, a conversa com Álvaro Cunhal antes da segunda volta da eleição de Mário Soares em 86" e, quando Jorge Sampaio presidiu à Câmara Municipal de Lisboa, "a travessia em noites de vendaval dos bairros de lata da capital que, com o Governo de então, conseguiu extinguir".

Marcelo Rebelo de Sousa, que disputou a presidência da Câmara de Lisboa nessas eleições autárquicas de 17 de dezembro de 1989 e foi derrotado, tornou-se vereador da oposição e aprofundou a sua amizade com Sampaio, então secretário-geral do PS, que ganhou a presidência da Câmara com uma coligação inédita à esquerda, com PCP, MDP/CDE e PEV.

O chefe de Estado realçou hoje essa "formação da primeira e mais vasta coligação pré-eleitoral de esquerda" da história democrática de Portugal, "na presidência da Câmara Municipal de Lisboa, após uma rara campanha de ideias, com visão estratégica prioridade aos mais pobres e excluídos, preocupação com as pessoas, os seus sonhos, os seus dramas, a sua realidade".

Depois, enalteceu a "devotada e prestigiante presidência de Portugal" de Sampaio, entre 1996 e 2006, "lançando a cimeira de Arraiolos, com todos os chefes de Estado europeus eleitos não presidencialistas criando a Cotec com empresários portugueses, espanhóis, italianos, pela inovação e responsabilidade social. Recriando as presidências abertas do seu antecessor com a constante presença de Maria José Ritta", sua mulher.

Marcelo Rebelo de Sousa destacou ainda "os meses sem dormir passados nesta casa, em Belém, por causa de Timor-Leste, a oposição à intervenção no Iraque" e, do período que se seguiu ao exercício do cargo de Presidente da República, "a dedicação à saúde pública global, herança do magistério paterno, e ao diálogo entre religiões, culturas e civilizações" e "o exemplar acolhimento dos refugiados sírios, fugidos das tragédias das guerras".

E, sempre, as lágrimas genuínas do homem bom, porque era um homem bom, na partilha da alegria, tal como da dor alheias", acrescentou.

Marcelo Rebelo de Sousa terminou o discurso lembrando um "homem de bem com todos, e todos de bem com ele".

Um grande senhor da nossa democracia, um grande senhor da nossa Pátria comum", referiu.

António Guimarães