"Só agora começou" é o título do livro que José Sócrates decidiu publicar quando a fase de instrução terminasse e ao qual a TVI teve acesso.

Nele, o antigo primeiro-ministro tenta desmontar a tese do Ministério Público, ataca o jornalismo, os juízes e os procuradores, e chama traidor a António Costa, fazendo, ainda, duras criticas à direção do PS. 

Começou a ser escrito em março de 2018 e o prefácio tem a assinatura de Dilma Rousseff.

São 160 páginas onde José Sócrates tenta mostrar que é inocente e para isso insiste em desmontar a tese do Ministério Público.

Mas comecemos pelas alfinetadas a António Costa e à direção do PS.

Durante estes quatro anos não ouvi por parte da direção do PS uma palavra de condenação desta prepotência. Encontrei nos militantes do PS um apoio e um companheirismo que não esquecerei. Mas a injustiça que agora a direção do PS comete comigo, juntando-se à direita política na tentativa de criminalizar uma governação, ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político", afirma.

Bastaram oito páginas parar arrasar o comportamento de alguns socialistas, pelos quais diz ter sentido "um esgar de repulsa".

O que percebo mal é que o PS não tivesse encontrado uma oportunidade para condenar os abusos e as ilegalidades das autoridades (...) O silêncio não só normalizou os abusos como tornou o PS cúmplice dessas arbitrariedades. No fundo, o silêncio do PS legitimou uma certa política de justiça", justifica, motivo pelo qual saiu do partido.

A mágoa com António Costa a nível pessoal é nula porque, escreve, "não se atraiçoa o que nunca existiu".

Sem nunca referir o nome do atual primeiro-ministro, diz o que pensa dele a nível politico e aquilo que pensa fazer mossa na direção do PS.

Como remédio para algo que sempre a assombrou, o único líder que teve uma maioria absoluta deveria ser removido da história do PS. Mas nem sempre as coisas correm como planeado e às vezes os mais maquiavélicos são também os mais ingénuos. Digamo-lo assim, como Ulysses Guimarães, a política ama a traição, mas despreza o traidor."

Ao longo do livro são vários os ataques aos jornalistas, procuradores e juízes. 

No meio do lastro das decisões favoráveis ao Ministério Público destaca o voto de vencido de um juiz desembargador.

Seis meses depois da prisão, um juiz afirma que fui preso sem haver indícios ou factos da prática do crime de corrupção", escreve.

E até recorda a detenção de Paulo Pedroso em 2003, quando "a indústria da comunicação televisiva esteve ao lado da infâmia", ao que chama de detenção espetáculo em público nas televisões.

A colagem a Mário Soares, bem visível no capítulo que lhe dedica, a cumplicidade com Lula da Silva e a comparação com o processo do antigo presidente do Brasil, reforçada por Dilma Rousseff.

Beatriz Jalón / CM