Daniela Oliveira, 15 anos, é uma provocadora nata. Para a aluna do nono ano de uma escola na Brandoa, a política é um sketch humorístico. E os discursos dos políticos não são mais do que uma stand-up comedy para a fazer rir. Neste espectáculo dela entrou o candidato socialista.

Esta tarde, o programa de fim de aulas foi uma animação. «Ó tio! Ó tio! Tudo bem?», pulava e gritava Daniela para José Sócrates, entre as centenas de pessoas que ali se encontravam, enquanto este aguardava pela sua vez no palanque do Fórum Luís Camões, na Brandoa.

Nessa altura, Joaquim Raposo, presidente da Câmara da Amadora, falava das benesses do Estado Social e José Sócrates, que não a conseguia ignorar, ainda ergueu o polegar da mão direita, como que a dizer «Fixe!». Mas Daniela e o seu grupo de amigos - quatro raparigas e um rapaz - não sossegava. Ao lado, já se ouviam militantes a mandar-lhe um também sonoro «xiu».

Por esta altura, já Ferro Rodrigues tinha dito que «a direita não conseguiu, mesmo com maioria absoluta, acabar com as conquistas sociais», apesar de o ter tentado. E, entre bandeiras a acenar (chegámos a ver uma pessoa com quatro bandeiras, tamanho o entusiasmo), a massa de gente gritava «PS, PS» e «Vitória».

Uma das raparigas do grupo pôs-se de repente a chamar por «Paulo Portas!», entre risinhos adolescentes, e aí o povo à sua volta virou-se para o grupo de olhos arregalados, em choque. O ambiente ali à volta era equivalente ao de uma criança a dizer um palavrão no meio de uma igreja cheia de gente. Um pecado, portanto. Mas Daniela, sempre a pular como uma cheerleader, resolve o embaraço com um sonoro: «Sócrates está na Brandoa, whoa».

Importa dizer por esta altura, que a Brandoa não é a terra mais bonita do mundo. Os prédios são feios, avistam-se barracas quando se circula na estrada que lhe dá acesso, passa-se por um longo cemitério com lages partidas e descuidadas à saída. A visão não é boa, mas já foi pior. E Sócrates está ali para lembrar isso mesmo.

O secretário-geral do PS tomou finalmente a palavra, mas a voz saia-lhe a custo. Ainda acometido por uma laringite que não lhe tem travado, contudo, o discurso, José Sócrates dizia uma das frases muito repetidas nesta campanha e, de novo, Daniela a reagir. «Quem foi o Governo que tirou 250 mil idosos da condições de pobreza?!», dizia o candidato socialista, embalado pela obra feita. «Quem fala assim não é gago», comentava a jovem.



- Não estás muito atenta ao discurso, pois não?

- Não (risos)

- Porquê?

- Porque acho que aquilo que ele tem feito ao país não tem sido correcto.

- Então, por que é que estás aqui?

- Ele fala, e no fim não vai fazer nada, como tem feito nestes últimos quatro anos.

- Por que é que estás cá?

- Estou cá porque ouvi dizer que havia comer. (risos)

Quando terminaram os discursos, já a tarde pedia reforço alimentar. Sócrates saía de cena e entravam panelas de sopa.
Paula Oliveira