José Sócrates vai estar esta quinta-feira à noite em Faro, no Algarve, para um comício na Pontinha, local de festa e militância que ficou conhecido na década de 90 por ser uma espécie de vitamina para o PS ganhar eleições. Reeditada, apesar de forma diferente, em 2005.

A história dos comícios da Pontinha não se escreve, contudo, sem o PSD. Teremos de recuar até 1976 e a um pinhal de nome Pontal, nos arredores de Faro. Foi lá que aconteceu a primeira festa-picnic, um momento de mobilização política nos tempos conturbados do pós-PREC, que contou com a presença de Francisco Sá Carneiro.

A tradição do então PPD ganhou dimensão com Cavaco Silva, que chegou à liderança partidária em 1985, dois anos antes de arrancar a primeira maioria absoluta de um só partido numas eleições em Portugal.

Ano após ano, a popularidade de Cavaco Silva - ele próprio um algarvio de Boliqueime a passar férias na terra - era testada ali no Algarve, a meio de Agosto, aproveitando a romaria dos portugueses para a praia e daqueles que de lá partiam depois de quinze dias a banhos. O partido celebrava a rentrée política junto do povo, que ali se amontoava, num mar de gente.

Na oposição há demasiado tempo, o PS aproveitou a queda do cavaquismo e a liderança pouco mobilizadora de Fernando Nogueira, que lhe sucedeu, para medir forças, marcando uma festa de rentrée política no mesmo dia e à mesma hora na Pontinha, na altura um terreiro em Faro.

Estávamos em Agosto de 1995 e a ideia totalmente provocatória partiu de Jorge Coelho, na altura o homem que fazia mexer a máquina socialista.

Nas redacções dos jornais, a excitação consumia os jornalistas encarregues da reportagem, que tinham de correr de um lado para outro para saber a única coisa que interessava: quem tinha conseguido mais gente. António Guterres preparava-se para entrar no território laranja e ficar com o sumo dos votos. E foi isso mesmo que aconteceu.

O partido mobilizou-se a tal ponto que vieram camionetas cheias de gente de todo o país, numa gigantesca organização que envolveu todas as federações socialistas. O objectivo era apenas um: ter mais gente na festa-rentrée socialista do que na social-democrata. Para isso, era preciso trabalhar também no terreno.

Durante dias, distribuíram-se panfletos nos parques de estacionamento das praias algarvias, de uma ponta à outra da costa. Dois dias antes, um avião dava voltas aos areais a publicitar a rentrée. Os jornais consumiam páginas a escrever sobre o assunto: seria ou não este o momento de viragem? E foi mesmo.

A campanha eleitoral socialista para as legislativas de Outubro começou ali. «Ganhámos!» - foi assim que os socialistas reagiram no dia seguinte, expressão que virou slogan de campanha de um dia para o outro.

Na campanha para as legislativas de 2005 tentou-se uma reedição desse comício mano a mano, no mesmo dia, à mesma hora, mas faltou ser em Agosto.

Com as eleições marcadas para 20 de Fevereiro, o duelo foi entre José Sócrates e Santana Lopes. O PSD ainda tentava colher frutos dos comícios do passado no Pontal, depois de Jorge Sampaio, presidente da República, ter dissolvido a Assembleia da República e feito cair o breve governo do sucessor de Durão Barroso.

Apesar do frio, Sócrates saiu da Pontinha, em 2005, com a vitória a aquecer-lhe as mãos. E Santana, que não soube ler nas estrelas o precipício de votos que acabou por ter nessa derrota eleitoral, virava o barco do partido para o eixo da oposição - até hoje.

Desta vez não há Festa no Pontal, até porque há vários anos que o terreiro passou a betão e os sociais-democratas transferiam a rentrée para Quarteira no ano seguinte ao desaire de Santana nas urnas. Na Pontinha também já não há comício porque agora mandam ali os carros do parque de estacionamento em que se transformou. As camionetas deixaram de arrancar de todo lado. Das festas ficaram os nomes, quem sabe se os votos.
Paula Oliveira