O tom da mensagem é natalício, com uma garfada generosa nos progressos alcançados até aqui, mais outra de olho nas eleições do próximo ano, com uma paragem na refeição para constatar que ainda é preciso melhorar e o que falta fazer. Com a viragem do ano à porta, o primeiro-ministro recorre às suas expressões habituais "virada a página" e "contas certas" para enumerar progressos e fazer promessas. Há eleições legislativas em 2019, a mensagem se não fosse de Natal poderia passar por tempo de antena eleitoral. Foi emitida neste dia 25 de dezembro, dia em que o Presidente da República advertiu para os riscos de o clima pré-eleitoral ter começado "muito cedo". Constatou-o ainda antes de esta mensagem de António Costa ser divulgada ao público.

Para o chefe de Governo, "virada a página dos anos mais difíceis, há agora duas questões essenciais que se colocam: por um lado, como conseguir dar continuidade a este percurso sem riscos de retrocesso, por outro como garantir que cada vez mais pessoas beneficiam no seu dia a dia desta melhoria". Enfatiza-o depois de desejar um feliz natal e bom ano novo - mensagem que repetiu no final, lembrando nomeadamente as comunidades portuguesas, as Forças Armadas e forças de segurança no estrangeiro, bem como quem não tem ninguém para passar a quadra. "Aos que, por circunstâncias várias da vida, estão sós, quero transmitir uma palavra solidária de conforto e esperança".

A partir daí coloca a primeira mudança no trenó natalício, deslizando pelos resultados económicos e a melhoria dos rendimentos, prometendo uma política de continuidade, mais investimento no Serviço Nacional de Saúde (num final de ano marcado pela greve dos enfermeiros) e nos transportes (falando na diminuição do custo dos transportes públicos: os passes sociais aliviam, mas quase todas as outras tarifas aumentam nem que seja por via da inflação).

Promete "a melhoria da vida dos pensionistas e das condições de trabalho na administração pública, aumentar a justiça fiscal e as prestações sociais", destacando ainda o alargamento de creches como a secretária de Estado já tinha feito o fim de semana, e na universalização do pré-escolar, para além da "nova geração" de políticas de habitação.

Eu não me iludo e não nos podemos iludir com os números: é verdade que temos mais 341 mil empregos criados, mas há ainda muitas pessoas a procurar emprego. Os rendimentos têm melhorado, mas persistem níveis elevados de pobreza. Já conseguimos assegurar médico de família a 93% dos cidadãos, mas há ainda 680 mil portugueses que aguardam pelo seu médico de família. Ou seja, estamos melhor, mas ainda temos muito para continuar a melhorar".

Os dois "grandes desafios"

O país tem "dois grandes desafios" para "vencer": por um lado, "o pleno aproveitamento do nosso território, valorizando os recursos que desaproveitamos, no imenso mar que os Açores e a Madeira prolongam até meio do Atlântico, ou também no interior do continente, onde temos de aproveitar potencial natural e grande proximidade a mercado ibérico de 60 milhões de consumidores, para podermos repovoar esse território e ganharmos maior coesão territorial"; por outro, o desafio demográfco. 

Não podemos resolver só com a imigração. É absolutamente essencial que os jovens sintam que têm em Portugal a oportunidade de se realizarem plenamente do ponto de vista pessoal e profissional e a assegurar, assim, uma nova dinâmica à natalidade. Mas as empresas têm também de compreender que na economia global onde vivemos se querem ser competitivas a exportar, têm também de ser competitivas a recrutar e a valorizar a carreira dos seus quadros".

Nesse sentido, defende que é essencial "uma clara melhoria" das perspetivas que os jovens têm na sua realização profissional: "menos precariedade, salário justo, expectativa de carreira, possibilidade conciliação entre a vida pessoal e familiar". "O país não se pode dar ao luxo de perder a sua geração mais qualificada de sempre e, por isso, nós não desistimos de criar as melhores condições de incentivar o regresso de quem no passado partiu".

Classifica os desafios como "grandes, mas aliciantes e mobilizadores". Embora haja "muito trabalho pela frente", fecha com a tónica num país "melhor" e num tom positivo, de melhorar o que entende já estar melhor, com "contas certas", sem esquecer a eliminação do défice e a redução da dívida.

Eu não desvalorizo, naturalmente, o muito que em conjunto já conseguimos, mas não ignoro o que temos e podemos continuar a fazer para termos um país mais justo, com mais crescimento, melhor emprego e maior igualdade. Essa tem que ser a nossa ambição e é com essa ambição que desejo a todas e a todos votos sinceros de um feliz Natal e de um bom ano novo".

PS destaca mensagem de Natal “serena, realista e inconformada”

O PS considerou que a mensagem de Natal do primeiro-ministro, António Costa, foi "serena, realista e inconformada", defendendo que "ainda é preciso caminhar" apesar do "muito já foi feito" para melhorar a qualidade de vida dos portugueses.

"A mensagem do primeiro-ministro foi uma mensagem serena, realista e inconformada", sintetizou, em declarações à agência Lusa, o deputado do PS Hugo Pires.

Segundo o socialista, é uma mensagem na qual "o PS se revê na integra, com muita humildade", uma vez "que não está tudo feito, ainda é preciso caminhar muito, mas que muito já foi feito".

Com muita humildade é preciso continuar a dar passos certos e seguros no caminho de uma melhor qualidade de vida dos portugueses", sublinhou.

Para Hugo Pires, a mensagem de Natal de António Costa foi serena porque Portugal vive "tempos mais sossegados, mais tranquilos", com "contas certas" e, "pela primeira vez neste século", com a economia a crescer "mais do que a média europeia".

Depois realista porque, apesar deste Governo ter travado a fundo o caminho do empobrecimento que Portugal estava a seguir e sendo hoje inegável a melhoria das condições de vida dos portugueses, é preciso fazer mais", concordou.

Na opinião do deputado socialista "é preciso continuar a trabalhar para criar condições para haver melhores salários, trabalho digno", apontando ainda o investimento "em saúde, educação e infraestruturas" como objetivo.

E queremos também que a continuação das políticas seja feita de forma sustentada, passo a passo, com passos seguros para que nenhum português tenha que viver outra vez e passar por aquilo que passou nos tempos da troika", garantiu.

A mensagem de António Costa aos portugueses foi "inconformada porque fala dos dois grandes desígnios" para o país, como a "valorização do território e demografia", justificou Hugo Pires.