Já no final da contagem dos votos das eleições Legislativas, o Livre e o Chega conseguiram eleger um deputado cada para a Assembleia da República. Joacine Katar Moreira e André Ventura, ambos eleitos pelo círculo eleitoral de Lisboa, estreiam-se no Parlamento com visões e políticas bem distintas.

Com ideais de extrema-direita, o Chega de André Ventura defende políticas de imigração mais apertadas e o reforço de poder das polícias. Eleito com mais de 22 mil votos por Lisboa, o líder do Chega pretende ainda que o aborto e as cirurgias de mudança de sexo deixem a esfera da saúde pública.

A antagonizar esta ideologia, o Livre, que vai ser representado por uma mulher negra, assume-se como um partido ecologista, feminista e antirracista.

Se o Livre fez história ao conseguir o seu primeiro mandato, Joacine Katar Moreira foi mais longe no feito, juntamente com as estreantes Beatriz Gomes Dias (Bloco) e Romualda Fernandes (PS). Pela primeira vez, haverá três deputadas negras, um cenário inédito na história do hemiciclo português.

De resto, com a entrada do Chega no Parlamento, Portugal deixa o cada vez mais pequeno grupo de países da União Europeia sem representação da extrema-direita. Restam, agora, Irlanda, Luxemburgo e Malta, cujas eleições legislativas se realizam, respetivamente, em 2020, 2021 e 2022.

Em totais nacionais, o partido de André Ventura, que se afirma como "antissistema", conquistou 66.422 votos, fazendo do Chega o sétimo partido mais votado, com 1,30%. O discurso apregoado e o próprio programa do partido, com o combate à corrupção como nota de cartaz, refletem um estilo populista que resultou de forma rápida em Itália ou Espanha.

O lado B

Sendo verdade que a extrema-direita chegou à Assembleia da República, também o é um facto diametralmente oposto. Pela primeira vez, os eleitores serão representados por três mulheres negras, sendo que nenhuma delas nasceu em território nacional.

Joacine Katar Moreira foi uma das figuras da campanha, conseguindo alcançar um dos 48 mandatos distribuídos pelo círculo eleitoral de Lisboa, onde o Livre reuniu 22.807 votantes. Mesmo não sendo a líder do partido, a candidata, que nasceu na Guiné-Bissau, depressa se tornou na figura do Livre, relegando Rui Tavares para segundo plano. Professora e investigadora no ISCTE, promete ser uma das vozes ativas no Parlamento.

Tal como Joacine, Beatriz Gomes Dias também foi eleita pelos bloquistas em Lisboa. Nascida há 48 anos no Senegal, esta filha de pais guineenses tem o ativismo no sangue. Fundou a Djass, uma associação de afrodescendentes.

Outra mulher a fazer história é Romualda Fernandes, eleita pelo PS, igualmente pela capital. Nascida na Guiné-Bissau, vive em Portugal desde 1968, embora tenha passado longos períodos em França, onde se licenciou em Direito. Aos 65 anos, ocupa também o lugar de vogal do conselho diretivo do Alto Comissariado para as Migrações.

Os três partidos que elegeram estas mulheres negras defendem políticas antirracistas e inscreveram o combate ao racismo no seu programa. Em sentido contrário, PSD e CDS, que até chegaram a ter representantes com ascendência africana (Nilza de Sousa e Hélder Amaral), não têm qualquer menção ao racismo nas suas diretivas.