A Assembleia da República viajou para o interior do país neste segundo e último dia de debate na generalidade do Orçamento do Estado para 2019. Foi o novo ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, que deu início à discussão dizendo que "este Orçamento reconhece que investimento público e privado é decisivo para o interior do país". O PSD rapidamente reagiu, dizendo que isso é "só conversa" e até invocou a lenda da noiva de uma terra próxima de Arraiolos.

"A palavra interior tem estado na ponta da língua deste Governo, mas há um problema: as práticas ou a falta delas", começou por dizer o deputado social-democrata António Costa e Silva. Recordou as duas grandes catástrofes dos incêndios em 2017: "morreram pessoas, casas ardidas, empresas destruídas e houve uma grande onda de solidariedade".

Rapidamente o Governo tomou iniciativas, mas é só conversa. Pensa na contagem de votos e eles não estão no interior. Isto é uma opção política: ou sim ou sopas". 

Queixou-se da falta de médicos de especialidade, do transporte de doentes oncológicos, da falta investimento nas escolas nos últimos anos: "Zero. Novos equipamentos sociais? A mesma coisa... Basta ver a execução dos fundos comunitários nestas áreas para ver níveis de investimento, concursos abrem, mas execução zero". "Alteram intercidades para regionais, atrasam comboios, avarias... É assim que tratam o interior", continuou.

"Este país espera que se tomem políticas adequadas para o interior, não é com cortes brutais. Este Governo lembra-me da lenda da sempre noiva. A noiva é o interior do país, parece que arranjou noivo e vai casar, sempre com grandes expectativas e não acontece nada. A noiva até se arranja, até pinta as unhas em pleno Orçamento, e não acontece nada. Sabe quem é o noivo? Não é o senhor, é o primeiro-ministro de Portugal".

Uma alfinetada à deputada do PS Isabel Moreira, que ontem foi fotografada pela Reuters a pintar as unhas durante o debate do Orçamento.

Ainda antes da resposta do ministro, a socialista Hortense Martins acabou por responder às críticas do deputado do PSD, pegando na mesma lenda. 

Com o PSD, a noiva nem sequer arranjou noivo, nunca arranjou noivo. O interior, com PSD e CDS, sabe o que pode esperar: investimento zero, investimento zero na ferrovia, encerramento de serviços públicos, paragem da barragem do Alvito".

Deu esse, entre outros exemplos, contrapondo que este Governo "já investiu" mais na ferrovia e que o investimento em escolas "em boa hora" foi retomado. 

Pouco depois, o ministro Pedro Siza Vieira também usou a mesma expressão de António Costa e Silva para dizer que, "sim, este Governo tem o interior na ponta da língua e na ação governativa". Falou no investimento 1.800 milhões de euros de investimento do Portugal 2020, fala nos concursos de sistemas de incentivos para apoiar projetos no interior acima de 500 milhões de euros, investimento "inédito" na ferrovia com construção e reparação de vias, requalificação do IP3 e manutenção de abertas escolas com 400 turmas com menos de 21 alunos, entre outras medidas.

No seu discurso inicial, já tinha dito que "o investimento que retém emprego e população é, por isso, um desígnio nacional". Com isto, recolheu alguns aplausos da bancada socialista. Também enumerou alguns incentivos à fixação de pessoas no interior: "O Orçamento contém importantes propostas no que toca à mobilidade dos funcionários públicos, com a majoração dias de férias ao pagamento de um suplemento remuneratório". Assinalou a boa experiência com médicos para zonas do interior, que é preciso replicar. 

"Mais outra desilusão"

"Aquilo que disse foi bastante poucochinho", constatou depois Nuno Magalhães, do CDS. Fez quatro perguntas de rajada ao ministro, argumentando que "são fundamentais" para perceber se João Gomes Cravinho "é outro" Mário Centeno, a favor de cativações. : "Está ou não o ministro da Economia de acordo com a redução das portagens como o CDS propôs? De redução de taxa de IRS? De taxa de IRC e majoração de todos os benefícios fiscais para captar benefícios para o interior?". 

Pedro Siza Vieira respondeu: "Sim, redução de portagens, com certeza. É por isto que este ano, pela segunda vez nesta legislatura, vamos reduzir as portagens. É importante reduzir os custos de contexto destas empresas que se encontram mais longe dos centros de consumo. A redução de IRS para metade cria desequilíbrios que não são adequados. O que distingue o residente em Soure do que está em Pombal ao  alterar residência apenas em 30 km para beneficiar?".