Um dia após o chumbo do Orçamento do Estado do próximo ano, Manuela Ferreira Leite analisou o atual cenário de crise política na TVI24.

A comentadora reitera que a culpa do chumbo do OE2022 se centra, somente, em António Costa e que teve início com o discurso utilizado aquando da formação da "geringonça", que deixou o Governo aprisionado às vontades da esquerda.

A pessoa que efetivamente tem culpa nesta situação é o primeiro-ministro, António Costa, o secretário-geral do PS, quando se acantonou à esquerda e disse não quero nada daqui para o lado [para a direita]. Ao dizer isso ficou nas mãos deles [da esquerda]”, esclarece.

Manuela Ferreira Leite lembra, no entanto, que Portugal já estava nesta situação muito antes do OE2022 ter sido chumbado pelo Parlamento.

A crise política não se traduz apenas na ideia de que há um Governo ou que não apresentou um Orçamento ou que se demitiu ou que vai haver eleições. O que estava anteriormente já era uma crise política. Era um primeiro-ministro que estava a querer aprovar um Orçamento que não correspondia às necessidades do país e que estava a ceder a determinado tipo de condições absolutamente contrárias àquilo que era necessário fazer”, explica.

Ainda assim, Ferreira Leite admite que esperava que o documento fosse aprovado com o aval do PCP ou do Bloco de Esquerda. A comentadora diz que acreditou que o discurso da esquerda seria apenas "um teatro"

Manuel Ferreira Leite acrescenta ainda que Marcelo Rebelo de Sousa terá de ser célere na marcação das eleições, porque "vai haver um conjunto de meses em que o primeiro-ministro pode fazer a campanha que entender". O que representa "uma desigualdade enorme entre os candidatos dos outros partidos e aquele que é o candidato do PS".

Vimos o que se passou nas Autárquicas, em que o primeiro-ministro fez uma campanha clara a favor dos seus autarcas. (…) É uma desigualdade bastante grande. De tal forma gritante, que estou certa que o Presidente da República encurtará este período tanto quanto possível”, refere.

Sobre o facto de os partidos de direita estarem a braços com eleições diretas, que vão definir a liderança, Ferreira Leite acredita que esta possa ser uma desvantagem e que "se a política não fosse a política e o que imperasse fosse o bom senso, era evidente que se adiavam as eleições internas".

Contudo, a antiga presidente do PSD entende que o o "grupo que está a olhar para o poder e a candidatar-se não aceitará” o adiamento das internas.

Quanto ao encontro entre Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Rangel, Ferreira Leite confidencia que não sabe qual foi o motivo da reunião, mas que acredita que o Presidente da República não se envolveria na disputa interna do PSD.

Não tenho conhecimento suficiente para saber se se trata de uma imagem que foi explorada ou se corresponde a mais outra coisa. Penso que o Presidente da República não se envolveria numa situação dessas, porque não acho que tomasse uma decisão tão incorreta”, diz.

Manuela Ferreira Leite aproveitou ainda para deixar um recado a Paulo Rangel, que disse que caso seja presidente do PSD não vai ter qualquer ligação com os socialistas. A comentadora realça que sem aproximações entre os dois maiores partidos nacionais "o país não pode fazer reformas".

Por último, Ferreira Leite alerta para a falta de "seriedade" a que tem assistido no debate parlamentar relativa, sobretudo, à direita e ao PSD.

Continua a haver muito pouca seriedade na forma como se fazem as discussões políticas. A ideia da direita que corta salários ou que corta pensões como se isso fosse uma característica da direita. Está se a falar de uma coisa que não pode generalizada. É como se eu tivesse uma doença, porque a Carla me deu uma 'pancadona' na cabeça, veio o médico para me tratar e a culpa é do médico. Portanto, não é de quem me deu a pancada, mas sim do médico que me tratou. Isto não é correto”, ironiza.

Nuno Mandeiro