O Presidente da República considerou esta segunda-feira que tem faltado ao mundo o protagonismo da União Europeia, advertindo que quem quer construir uma Europa tem de contar consigo e não com "a condescendência dos aliados, amigos ou vizinhos".

Se queremos construir uma Europa temos de ser nós a construí-la. Não podemos contar com a iniciativa, a liderança, a benevolência, a condescendência dos aliados, amigos ou vizinhos na Europa. Quaisquer que eles sejam. Mais aliados num momento, menos aliados no momento seguinte. Mais próximos num instante, menos próximos no momento seguinte" disse Marcelo Rebelo de Sousa na abertura de uma conferência que decorre estar tarde no Porto.

"Europa, para onde vamos?" é o tema do encontro, tendo o Presidente da República comentado as declarações de domingo da chanceler alemã, Ângela Merkel, que instou os países da União Europeia (UE) a manterem-se unidos e a tomarem as rédeas do seu destino.

Com opinião semelhante, Marcelo Rebelo de Sousa disse que "contar para um projeto com os aliados efetivos ou eventuais desse projeto é uma forma de demissão própria" e recordou que há cerca de um ano expôs no Parlamento Europeu as suas ideias sobre a Europa mas entretanto ocorreram dois factos: o referendo britânico e as eleições nos EUA.

A responsabilidade é nossa, de todos, não é deles [aliados, amigos ou vizinhos]. O que tem feito falta ao mundo é o protagonismo da União Europeia no domínio da política externa. E esse protagonismo é fundamental para o equilíbrio mundial", disse o chefe de Estado português.

Marcelo Rebelo de Sousa disse que se aguarda "a definição de posições claras da parte de protagonistas cimeiros da realidade internacional" e que existem "pela frente vários problemas em simultâneo", tendo enumerado desafios que vão desde a superação da crise, à afirmação do crescimento passando pelo terrorismo, migrações, entre outros.

"Europa fechada em populismos xenófobos é Europa pobre"

O Presidente da República defendeu ainda que uma Europa fechada em híper nacionalismos ou populismos xenófobos é uma Europa pobre e vazia culturalmente. Marcelo Rebelo de Sousa disse que a Europa não se pode fechar ao mundo, numa reflexão sobre as políticas a adotar em relação a migrantes e refugiados.

Mas será que algum Europeu pensa que é puro? Algum europeu pensa que provém de uma raça privilegiada? E que, portanto, deve defender o seu mundo dos forasteiros? Mas a Europa nasceu de uma encruzilhada de culturas e civilizações. A Europa atrai porque tem várias matrizes que confluíram. A Europa fechada em híper nacionalismos, em populismo xenófobos, é uma Europa pobre, é uma Europa culturalmente vazia", sustentou Marcelo Rebelo de Sousa.

O Presidente da República considerou que "a definição das políticas perante migrantes e refugiados" tem de ser clara e acrescentou que muitos líderes europeus têm agora a oportunidade de se afirmarem, não indo atrás de populismos.

Pode ser ingrato ou difícil, mas tem de haver uma definição. Ser líder político é muitas vezes ter de afrontar os populismos a cada instante. É isso que é a liderança. Não é ir atrás desses populismos", disse.

Marcelo Rebelo de Sousa considerou que os líderes têm de mostrar se "são ou não capazes de pedagogicamente afrontar as tensões, as tendências, os tropismos vividos nas suas sociedades" porque caso não o façam "perdem eles a prazo, perdem os respetivos Estados, perdem as respetivas sociedades e perde a Europa e perde o mundo".

"Porque esse tropismo multiplica-se para além de fronteiras de continentes", afirmou o chefe de Estado que antes tinha introduzido este tema referindo-se ao "desafio da liberdade inevitavelmente ligada à segurança".

Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que se deve "ser muito claro na condenação, como aquilo que é um atentado contra os direitos fundamentais das pessoas, mas não se pode aceitar, a pretexto do combate a essa realidade, o desvirtuar do que é fundamental no projeto europeu".

"É um projeto de democracia e de liberdade e de humanismo e por isso também de circulação das pessoas e circulação das ideias e de abertura ao exterior", defendeu.