O Presidente da República afirmou esta terça-feira, perante o Fórum Empresarial Ibero-Americano, que Portugal tem um consenso político fundamental no combate à covid-19 e advertiu que nesta pandemia" ninguém se salva sozinho" e todos estão no mesmo barco.

A experiência portuguesa no plano político no combate à covid-19, ao longo do último ano, foi tema central da intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa neste fórum, na capital de Andorra, num evento que antecede o começo oficial da XVVII Cimeira Ibero-Americana ao fim da tarde de hoje.

Tem de haver consenso político. Em Portugal, mais de 80% dos deputados dos partidos do parlamento aceitaram ao longo de mais de um ano o estado de emergência, os confinamentos e os desconfinamentos. Mesmo quando discordam de pontos de pormenor, os que votam a favor, ou os que se abstêm, viabilizando a solução, são mais de 80%", disse.

Com o rei e o primeiro-ministro de Espanha a escutá-lo, entre outros chefes de Estado e de Governo, o Presidente da República referiu-se às reuniões do Infarmed, em Lisboa.

Em Portugal, todos os 15 dias, houve reuniões entre epidemiologista, sanitaristas, Presidente da República, presidente da Assembleia da República, primeiro-ministro, Governo, líderes de todos os partidos parlamentares para discutir e para projetar o futuro face à crise pandémica. Consenso político ainda é preciso neste momento e no futuro, porque se trata de uma questão global e não de uma questão eleitoral, partidária, de um grupo social ou económico" disse.

Depois, Marcelo Rebelo de Sousa deixou um conjunto de avisos, começando por salientar que esta questão do combate à pandemia "é de todos".

"Estamos todos no mesmo barco, ninguém de salva sozinho. A vacinação é uma prioridade, todos, vacinação universal, global e igualitária. Só isso permite desenvolvimento sustentável. Sem isso é uma ilusão acreditar num desenvolvimento sustentável", defendeu o chefe de Estado.

Em outro plano, o Presidente da República considerou essencial que se comece a "preparar a recuperação e a reconstrução económica e social".

"E não é suficiente regressar a 2019, porque o que passou a passou, a vida das pessoas e das sociedades mudou, a Europa mudou e o mundo ibero-americano também mudou. Reconstruir significa preparar com todos os meios internos e internacionais", advertiu.

Em relação aos trabalhos plenários da Cimeira Ibero-Americana, que decorrem na quarta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa manifestou apoio a uma proposta que estão em cima da mesa apresentada por Espanha e Argentina, visando uma mudança na atuação do Fundo Monetário Internacional (FMI).

É preciso levar mais longe a solidariedade no mundo Ibero-Americano. A proposta espanhola e argentina para a cimeira é importante, porque passa pelo FMI. Assim como a Europa vai criar inevitavelmente um novo sistema financeiro, é preciso que o FMI ajude nas sobretaxas, nos desembolsos, nas condições de prazo de financiamento, nos direitos de saque especial. O FMI tem de ajudar, caso contrário é mais difícil construir a solidariedade para a reconstrução do futuro", advogou o Presidente da República.

No seu discurso, Marcelo Rebelo de Sousa falou também nas consequências sociais da pandemia da covid-19, aproveitando aqui também para deixar a mensagem de que em Portugal "cresceu pouco o desemprego".

Estamos com menos de 7% de desemprego. No período pior da crise, não ultrapassámos esse limite", disse.

No entanto, o Presidente da República falou em consequências negativas consequências negativas "com a interrupção do período escolar, a perturbação social, mental e nas empresas".

Há que reconstruir a coesão social - e aí os empresários são essenciais. O nosso tecido empresarial em Portugal tem mais de 90% de micro, pequenas e médias empresas. As grandes empresas adaptam-se facilmente a este desafio. As micro, pequenas e médias empresas são fundamentais para a coesão social", defendeu.

Costa ataca proibição de exportações e guerras nacionais em torno das vacinas

O primeiro-ministro atacou as políticas de fecho de fronteiras para impedir a saída de vacinas e as "guerras nacionais" em função do país de origem dessas vacinas, defendendo em contrapartida mais prevenção e regulação global.

Falando depois de uma intervenção por videoconferência do Presidente de França, Emmanuel Macron, e imediatamente antes do discurso do primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez, o líder do executivo português defendeu a "importância de se criarem cadeias de valor global de produção", criticando, em contraponto, "a tentação de se fechar fronteiras para se proibir exportações".

A União Europeia é uma das regiões que nunca interrompeu a exportação de vacinas e grande parte (senão mesmo a totalidade) das vacinas disponíveis na Covax (cooperação mundial) foram produzidas aqui na Europa", apontou o primeiro-ministro, país que detém até junho a presidência do Conselho da União Europeia.

Neste ponto, António Costa sustentou que Estados Unidos e Reino Unido, entre outros, devem seguir este exemplo, fornecendo vacinas à Covax.

Mas, nos seus recados, o primeiro-ministro português foi ainda mais longe, dizendo que, "assim como o vírus não tem nacionalidade nem conhece fronteiras, também as vacinas não têm nacionalidade".

/ HCL