O Presidente da República revelou esta segunda-feira não ter feito "o mínimo reparo" quando o primeiro-ministro propôs o nome de João Leão para ministro das Finanças, por entender que corresponde "à continuação da mesma linha" de Mário Centeno.

Questionado pelos jornalistas, nas instalações da RTP, em Lisboa, sobre o que espera do novo ministro de Estado e das Finanças, a quem esta segunda-feira deu posse, Marcelo Rebelo de Sousa reiterou que espera que João Leão "siga a linha do seu antecessor".

Quando o nome me foi apresentado pelo senhor primeiro-ministro, não houve o mínimo reparo da minha parte, e a primeira razão foi muito simples: era um colaborador muito próximo do ministro cessante, numa pasta fundamental que é o Orçamento, em que é essencial para o futuro fazer um equilíbrio difícil que é enfrentar esta crise, mas enfrentar de tal maneira que não se perca a noção de que o Orçamento é importante", acrescentou.

O chefe de Estado, que falava depois de ter dado uma aula em direto para o projeto de ensino à distância #EstudoEmCasa, referiu que Portugal já passou pela experiência de entrar "em derrapagem orçamental" e salientou que quando isso acontece "de forma sustentada ou duradoura tem depois outros custos".

O facto de ser alguém que corresponde à continuação da mesma linha política em matéria financeira e orçamental a mim pareceu-me muito importante", reforçou.

Logo no dia em que foi conhecida a saída de Mário Centeno do Governo, a seu pedido, e a sua substituição pelo até então secretário de Estado do Orçamento, João Leão, na terça-feira da semana passada, Marcelo Rebelo de Sousa mostrou-se confiante de que "não haverá mudança de rumo" em matéria de política orçamental e considerou que "isso é importante".

Em declarações aos jornalistas, em Cascais, o chefe de Estado argumentou que, "pela própria lógica de ter, durante quatro anos e meio, colaborado diretamente com o ainda ministro Mário Centeno", o novo ministro das Finanças, João Leão, dá "uma garantia de continuidade que é fundamental".

Questionado, uma vez mais, sobre o projeto de lei do PAN aprovado na generalidade no parlamento na terça-feira que, entre outros artigos, impede que alguém que tenha sido primeiro-ministro ou governante responsáveis pelas Finanças ocupe nos cinco anos seguintes o cargo de governador do Banco de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa recusou comentar o conteúdo do diploma.

A lei está no parlamento, está a ser votada, não sei quando é que estará em condições de chegar a Belém. Quando eu olhar para a lei, eu naturalmente direi a minha opinião sobre a lei", declarou.

Quanto à eventual nomeação do ex-ministro das Finanças Mário Centeno para governador do Banco de Portugal, o Presidente da República reiterou que não vê nenhum problema nessa passagem direta.

Eu já tinha dito que não via problema naquilo que se passou na nossa monarquia, na I República, na ditadura e em democracia, não uma vez, mas talvez duas dúzias de vezes, que foi membros do Governo do Ministério das Finanças, ministros ou secretários de Estado, passarem a governadores do Banco de Portugal", referiu.

Interrogado se concorda com o primeiro-ministro, António Costa, que considerou haver neste projeto de lei "uma perseguição" a Mário Centeno, o chefe de Estado não quis pronunciar-se sobre isso.

Marcelo espera "canais de diálogo" face à "brutal crise económica e social" 

 Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou esta segunda-feira esperar que os responsáveis políticos mantenham "canais de diálogo" para fazer face à "brutal crise económica e social" resultante da pandemia de covid-19.

Marcelo Rebelo de Sousa começou por salientar que "a pandemia não desapareceu, o vírus não desapareceu", até está a ressurgir na China, e que "não há medicamentos e não há vacinas ainda".

Portanto, aquilo que eu penso é que, sendo perfeitamente legítimo numa democracia haver pluralismo de opinião, todos terão presente a importância de não perderem canais de diálogo que existiram por causa da pandemia em torno da pandemia e que, se for possível, é bom existirem, mesmo que noutros termos, relativamente à crise brutal, económica e social que estamos a viver e vamos viver", acrescentou.

O Presidente da República alertou para a gravidade dos efeitos económicos e sociais da pandemia: "Vamos viver uma crise pior do que aquela que neste momento vivemos, e não vamos esperar muito tempo por isso. E quanto mais tempo durar a pandemia, maior será a crise".

"Logo, eu não apelo a coisa nenhuma, porque os nossos responsáveis políticos são responsáveis, e são livres de escolher os seus caminhos, porque isto é uma democracia. Eu limito-me a dizer: a pandemia não acabou, diálogo e convergência em torno do combate à pandemia é bom; diálogo, ainda que num plano diferente e com diversidade de opiniões, quanto àquilo que vai ser a brutal crise económica e social que vamos enfrentar, é bom", reforçou.

/ publicado por Rafaela Laja