O presidente da República, que esteve esta segunda-feira reunido com Jair Bolsonaro, no Palácio Alvorada em Brasília, reconheceu divergências com o Brasil em matérias económicas, comerciais e de agricultura.

Em conferência de imprensa, Marcelo destacou que os dois países tentaram chegar à “convergência” em vários assuntos bilaterais, mas assumiu que “há dossiers económicos pontuais onde, naturalmente, há divergências, ou de natureza do domínio da agricultura, no domínio do comércio".

Isso também está sempre presente no nosso espírito, mas com uma ideia de convergência. Vamos ver como conseguimos resolver o problema deste intercâmbio comercial - nesta exportação, neste passo que é preciso dar... Naquele outro que é preciso dar”, exemplificou Rebelo de Sousa, naquele que é o último ponto da visita de trabalho de quatro dias ao Brasil.

O Presidente da República sublinhou que a conversa com o homólogo brasileiro passou pela pasta covid-19, especialmente porque Portugal pode dar um testemunho "mais rico" - "Pois, falando da variante Delta, temos, como toda a Europa, uma percentagem esmagadora de casos".

Nós fizemos o ponto da pandemia da ótica portuguesa e ouvimos o ponto da pandemia da ótica brasileira. Digamos que existiu uma preocupação muito clara que é de explorar todos os caminhos - e são muitos - de passos a dar em conjunto, bilateralmente, na União Europeia e na CPLP.

Bolsonaro sem máscara: "Não formulamos juízos sobre os que nos recebem"

O encontro com o presidente do Brasil ficou marcado por um momento caricato. Durante a cerimónia de cumprimentos, foi notório o contraste entre a comitiva portuguesa toda de máscara e a brasileira, incluindo o Presidente Bolsonaro, sem.

Questionado pela TVI sobre isto, Marcelo preferiu colocar os holofotes no comportamento da delegação nacional que, diz o chefe de Estado, esteve como tem estado sempre em todas as cerimónias oficiais. "Fizemos aquilo que era expectável".

Não temos que formular juízos sobre a posição das outras delegações (na reinauguração do Museu da Língua Portuguesa). Menos ainda formulamos juízos sobre os anfitriões que recebiam o Presidente no Palácio da Alvorada, em sua casa", afirmou o Presidente da República, apontando para a importância que tem esta reabertura que acontece seis anos depois de um incêndio que destruiu parte do prédio em São Paulo, ter forçado o encerramento da casa cultural.

A cerimónia oficial de reinauguração do Museu da Língua Portuguesa contou com a artista Fafá de Belém que cantou o Hino Nacional Brasileiro e o Hino de Portugal. Representantes dos CPLP, como o ministro da Cultura de Angola e o presidente de Cabo Verde, também fizeram parte do leque de convidados.

O museu recebeu ainda a Ordem de Camões, concedida pelo Estado pela prestação de serviços relevantes à língua portuguesa.

O estreitamento de laços foi uma das grandes razões da visita de trabalho de Marcelo ao Brasil, mas o Presidente da República afirma que não está prevista qualquer vinda de Bolsonaro a território português. "Não falámos de viagens próximas, Portugal apresentou o seu calendário eleitoral e o mesmo aconteceu com o Brasil".

Marcelo Rebelo de Sousa convidou, em 2019, Jair Bolsonaro para visitar Portugal durante um encontro no âmbito da sua tomada de posse como novo Presidente do Brasil, uma viagem que nunca se concretizou.

Marcelo Rebelo de Sousa reafirmou que o encontro com o Presidente Bolsonaro seguiu a mesma linha de todos os pontos da agenda da visita, numa alusão às audiências e reuniões com os ex-chefes de Estado Lula da Silva, Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso.

Estes encontros, em particular, a audiência com Lula da Silva na residência do Cônsul de Portugal em São Paulo, geraram alguma controvérsia e foram entendidos por alguns quadrantes como uma tentativa de Marcelo Rebelo de Sousa preparar o terreno das relações entre Portugal e o Brasil no pós-eleições presidenciais brasileiras de 2022.

A visita de Marcelo Rebelo de Sousa ocorreu numa altura em que a popularidade do Presidente  Jair Bolsonaro está em queda e cresce a contestação às suas políticas, nomeadamente à forma como lidou com a pandemia de covid-19

Por outro lado, permanece a incógnita sobre se Lula da Silva pretende concorrer às presidenciais de 2022, quando várias sondagens apontam para uma vitória sua sobre Bolsonaro, no cenário hipotético de uma segunda volta entre os dois.

Foi neste contexto que, em vários momentos da viagem, Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou a importância de “ouvir” e “registar” os pontos de vista dos ex-chefes de Estado, assinalando sempre que o objetivo fundamental da sua deslocação ao Brasil foi cultural e não político.

Henrique Magalhães Claudino / Atualizada às 21:45