No primeiro discurso do arranque do segundo mandato enquanto Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, num tom de esperança, recordou um "ano demolidor", devido à pandemia de covid-19, e apelou a um desconfinamento sensato e ao bom uso dos fundos europeus. 

Um ano demolidor para a vida e a saúde, para o emprego e os rendimentos, para os planos e as realizações, as comunidades, as famílias, as pessoas, cada um de nós", disse Marcelo Rebelo de Sousa, na cerimónia de tomada de posse, na Assembleia da República, em Lisboa. 

O Presidente da República disse ainda que à pandemia na saúde se juntou a pandemia social e económica. Aproveitou ainda para criticar aquilo que se "podia ter resolvido e não se resolveu".

Trata-se da primeira vez na história da democracia que um Presidente da República toma posse em pleno estado de emergência. Nesse sentido, lembrou que durante a pandemia o Parlamento "nunca deixou de funcionar ao serviço dos portugueses", e agradeceu aos deputados "o exemplo de dedicação à democracia, nunca aceitando calá-la, nunca aceitando suspendê-la, nunca aceitando fazê-la refém".

Que seja essa a primeira lição do dia de hoje: vivemos em democracia, queremos continuar a viver em democracia, e em democracia combater as mais graves pandemias. Preferimos a liberdade à opressão, o diálogo ao monólogo, o pluralismo à censura, e demonstrámo-lo realizando duas eleições em pandemia, de uma das quais resultou a subida da oposição ao Governo", afirmou, referindo-se às eleições regionais nos Açores, e observando: "Isto é democracia".

Em seguida, o Presidente da República defendeu que é preciso "melhor democracia, onde a liberdade não seja esvaziada pela pobreza, pela ignorância, pela dependência ou pela corrupção, onde a inclusão, a tolerância, o respeito por todos os portugueses, para além do género, do credo, da cor da pele, das convicções pessoais, políticas e sociais não sejam sacrificados ao mito do português puro, da casta iluminada, dos antigos e novos privilegiados".

Queremos uma democracia que seja ética republicana na limitação dos mandatos, convergência no regime e alternativa clara na governação, estabilidade sem pântano, justiça com segurança, renovação que evite rutura, antecipação que impeça decadência, proximidade que impossibilite deslumbramento, arrogância, abuso do poder. Assegurá-lo é a primeira prioridade do Presidente da República para estes cinco anos", acrescentou.

Marcelo definiu como segunda prioridade do mandato, numa lista de cinco, estancar o número de mortos por covid-19, diminuir o número de novos casos, ampliar a vacinação, aumentar a testagem e rastreio, 

Sabemos todos o que queremos: queremos encurtá-la e não alongá-la, estancar o número dos nossos mortos, baixar a contaminação, ampliar a vacinação, a testagem e o rastreio, evitar nova exaustação das estruturas de saúde e dos seus heróis, desconfinar com sensatez e sucesso".

O Presidente da República referiu ainda que é preciso acabar com o medo, reforçar a confiança dos portugueses, recuperar os adiamentos nos doentes não covid, e restabelecer o equilíbrio do Serviço Nacional de Saúde.

Apelou ainda ao bom uso dos fundos europeus, "com clareza estratégica, boa gestão, transparência e eficácia".

Só haverá, porém, verdadeira reconstrução se a pobreza se reduzir, os focos de carência alimentar extrema desaparecerem, as desigualdades se esbaterem, a exclusão diminuir, a clivagem entre gerações e entre territórios for superada", defendeu.

"Sou o mesmo de há cinco anos, sou o mesmo de ontem"

Já na reta final do discurso, Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de lembrar que não mudou desde há cinco anos para cá: "Portugueses, resta lembrar o óbvio: sou o mesmo de há cinco anos, sou o mesmo de ontem, nos mesmos exatos termos eleito e reeleito para ser Presidente de todos vós".

Independentemente da maioria parlamentar, Marcelo prometeu manter "independência, espírito de compromisso e estabilidade, proximidade, afeto, preferência pelos excluídos, honestidade, convergência no essencial, alternativa entre duas áreas fortes, sustentáveis e credíveis, rejeição de messianismos presidenciais, no exercício de poder ou na antecipada nostalgia do termo desse exercício, no respeito pela diferença e pelo pluralismo, na construção da justiça social, no orgulho de ser Portugal, de ser português".

Uma nota que vai ao encontro da primeira parte do discurso, na qual o chefe de Estado assumiu que "hoje, como há cinco anos, Portugal é a única razão de ser do compromisso solene que hoje assumo"

São pois os portugueses todos eles, a única razão de ser do compromisso solene que acabei de assumir, a começar nos que mais necessitam: os sem abrigo, os com teto mas sem habitação condiga, os da minha idade ou mais que vivem em lares ou em sua casa em solidão ou velados por cuidadores formais ou informais”.

Marcelo dedicou ainda o início do seu discurso aos “reformados ou pensionistas pobres” aos “desempregados ou em lay off”, aos “trabalhadores e empresários precários” e às crianças, jovens, famílias, professores e não docentes “atropelados em dois anos letivos”, bem como aos profissionais de saúde e os que perderam entes queridos nestes tempos de pandemia.

Uma pátria são, acima de tudo, as pessoas e nela cada pessoa conta, diversa, diferente, irrepetível”, disse.

Em suma, neste que foi o primeiro discurso do segundo mandato, Marcelo Rebelo de Sousa assumiu cinco missões enquanto Presidente da República: melhor democracia; combate à covid-19; recuperação económica; coesão social e protagonismo internacional do país.

Cláudia Évora / Notícia atualizada às 14:36