O frente a frente entre Marcelo Rebelo de Sousa e João Ferreira ficou marcado pelas acusações do candidato comunista à falta de "neutralidade" do atual Presidente da República durante o seu mandato, mas também pela defesa que Marcelo fez à direita. Marcelo relembrou ainda que é um Presidente de direita que coabitou com um Governo de esquerda. 

João Ferreira entrou ao ataque e acusou Marcelo de ter falhado na ponderação política e ideológica dos seus poderes e que isso ficou demonstrado na "não neutralidade" no exercício de poderes.

Em momentos chave, em que era importante dar um sinal de valorização do trabalho e dos trabalhadores, com o que isso comporta, de elemento de justiça social para aquelas pessoas, para todos aqueles que vivem do seu trabalho, mas como elemento também de dinamização da própria atividade económica, isso não aconteceu".

O candidato comunista alegou ainda que o atual Presidente da República apoiou mais as grandes empresas, ao invés dos micro e pequenos empresários e dos pequenos trabalhadores, e que isso é um dos pontos que revelam que Marcelo "convergiu com aquilo que foram as posições dos partidos mais à direita". 

Questionado se Marcelo tem condições para gerir a crise económica provocada pela pandemia de covid-19, João Ferreira foi claro.

Eu acho que não. Eu acho que a situação que estamos a viver exige um outro exercício de poder do Presidente da República. Um exercício que, nos tais confrontos que percorrem a sociedade portuguesa, saiba tomar o lado daquilo que é necessário de um ponto de vista de justiça social, mas também de desenvolvimento do país". 

Reforçou dizendo que é preciso um Presidente "verdadeiramente coerente", nomeadamente, na "valorização do trabalho e dos trabalhadores".

Marcelo: "É preciso um Presidente que não seja porta-voz de um partido"

Marcelo Rebelo de Sousa reiterou que o importante para o próximo mandato é não ter um Presidente que seja "porta-voz de um partido".

O perfil necessário para o próximo mandato: é preciso um Presidente que não seja de fação, que não seja dirigente de um partido, porta-voz de um partido. Que seja de compromisso. Que seja de estabilidade e compromisso. Isso é o fundamental".

Aproveitou também para relembrar que é um Presidente de direita, mas que "coabitou" com um Governo de esquerda e que não fez questão de colocar a direita no poder. 

Eu venho da direita. Coabitei com um Governo de Esquerda. Vim da direita e não fiz questão de impor a direita no poder. Isso é muito importante, isso é a função do Presidente". 

"A direita tem direito a organizar-se"

Marcelo refutou mais uma vez as acusações do candidato comunista, alegando que foi um fator de "estabilidade" durante o seu mandato e que contribuiu para evitar crises políticas. 

O passado mostra. Eu fui um fator de estabilidade. A legislatura começou em 2015, terminou em 2019. As minhas intervenções foram estabilizadoras. Evitando crises, superando crises, contribuindo para evitar crises".

O atual Presidente defendeu que a atual legislatura "tem de ir até ao fim", mas aproveitou para deixar alguns recados à direita. 

A direita tem direito a organizar-se. É fundamental que seja forte no futuro para concorrer à eleições de 2023, porque um sistema político manco, coxo, é um sistema político onde entram os radicalismos, nomeadamente, populistas". 

 

Cláudia Évora