Já era de esperar que o frente a frente entre Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa fosse intenso e agitado. Mas os candidatos meteram o pé no acelerador e conseguiram falar de cerca de oito temas, com alguns atropelos, em meia hora. Vamos focar-nos nos três mais os esquentaram: caso SEF, ilegalização do Chega (mais a solução governativa nos Açores) e ainda Rui Pinto. 

Dentro da mesma linha daquilo que tem defendido, Ana Gomes disse que não tem nada contra os eleitores do Chega, mas sim com as ideias que este partido defende. A diplomata acusou Marcelo de ter "normalizado" um partido de extrema-direita nos Açores.

Mais do que nunca, era essencial que o Presidente da República, neste caso concreto o professor Marcelo Rebelo de Sousa, não tivesse permitido esta normalização do Chega". A socialista acrescentou que existem sempre soluções que contornem e impossibilitem este tipo de acordos. 

O recandidato à Presidência da República começou por dizer que, em relação ao Chega, existem duas grandes divergências com Ana Gomes: uma constitucional e outra relacionada com a forma como cada um encara este tipo de "fenómenos"

Temos aqui duas divergências claras entre nós dois. Uma de fundo e outra constitucional. Aparecem os partidos, ouvidos por ordem crescente, e aparecem partidos que dizem 'temos acordos para constituir um governo'. Não aconteceu assim no caso das legislativas. Como é que um Presidente da República recusa uma maioria parlamentar? E como é que diz: 'olhe o senhor é de um partido que apesar de legal, devia estar ilegalizado'? Mas há a questão de fundo: é que nós divergimos na maneira de encarar fenómenos como o partido Chega". 

Marcelo acusou a socialista de querer fazer um "cordão sanitário" ao partido de André Ventura e admitiu ser contra recorrer ao Ministério Público para que o Chega seja ilegalizado. 

Ganha-se no debate das ideias, não se ganha proibindo. Não se ganha calando. Isso é dar razão, é vitimizá-los. Isso é encorpá-los. (...) Não é solução". 

Em resposta, Ana Gomes reiterou que o Chega é um partido que "foi legalizado com assinaturas falsas". Foi neste instante que o ambiente ficou mais pesado e Marcelo interrompeu a socialista para questionar: "Foi ao Ministério Público pedir a ilegalização do partido? Como cidadã podia ir ao Ministério Público pedir"

Respondendo a Marcelo, a eurodeputada disse que não o fez porque esperava que "órgãos da república máxima" o fizessem. Marcelo esclareceu, mais uma vez,  que não o fez por considerar a ideia "um disparate" e acusou Ana Gomes de só ter assumido esta "indignação" quando anunciou ser candidata a Belém. 

SEF: audiência com Magina da Silva foi com 'ok' do primeiro-ministro

Ana Gomes considerou que houve erros graves por parte do Estado na forma como geriu o caso do cidadão ucraniano, alegadamente morto às mãos de três inspetores do SEF, mas disse que o mais grave tinha que ver com a reforma deste serviço. 

O caso do SEF é um caso em que eu acho que há graves erros por parte do Estado, de todos os agentes de Estado, mas também por parte de Marcelo Rebelo de Sousa que só atuou quando houve uma grande pressão mediática". 

Criticou ainda o Presidente da República por ter recebido o Diretor Nacional da PSP: "esta é uma das matérias em que eu faria diferente, sem dúvida"

O atual Presidente da República reiterou que Magina da Silva tinha pedido para ser recebido numa audiência em Belém e que António Costa concordou com esse encontro.

"O serviço cívico" de Rui Pinto tem de ser "valorizado"

Questionado se a justiça portuguesa precisa de denunciantes como Rui Pinto e se os deve proteger, Marcelo respondeu: "quem decide isso é a justiça. Eu não me substituo à decisão aos tribunais".

Ana Gomes concorda, mas alega também cabe à justiça "valorizar o serviço cívico de interesse público" que o hacker prestou, ao denunciar todos os esquemas de corrupção que revelou. 

Isso tem de ser, naturalmente, relevado pela justiça quando apreciar os seus crimes. É isso que eu digo e que mantenho. E, por outro lado, tem de valorizar o facto de ele hoje estar a colaborar com a justiça portuguesa". 

Ana Gomes invoca Salgado e Marcelo responde que "não vale tudo em política"

Já na reta final do debate, Ana Gomes invocou a amizade de Marcelo Rebelo de Sousa com Ricardo Salgado, alcançando assim mais um momento de grande tensão e ouviu em resposta que "não vale tudo em política".

A socialista referiu-se ao antigo presidente do BES quando falava sobre justiça e sobre os grandes casos, acusando Marcelo de não ter sido eficaz na promoção dos meios adequados para as instâncias judiciárias.

Eu sei que o senhor professor, até pela sua relação com o doutor Ricardo Salgado, é das pessoas com mais interesse em que o caso BES já tivesse sido esclarecido, que já estivessem apuradas responsabilidades, desse senhor e de muitas outras pessoas", declarou a diplomata, assinalando que o julgamento "ainda não começou" e que este caso "está ligado, por exemplo, ao caso Sócrates".

O Presidente da República considerou que esta referência "vem sempre no programa" e reagiu: "Escusa de tentar atingir a minha honorabilidade e a minha integridade".

Eu nunca diria de si aquilo que disse de mim, é uma questão de princípio", acrescentou, observando que "não vale tudo em política".

Marcelo realçou que, durante o seu mandato, Ricardo Salgado "foi condenado em três processos movidos pelo Banco de Portugal e foi finalmente acusado no processo BES".

No meu mandato orgulho-me de terem avançado, com duas procuradoras [gerais da República], operação Marquês, operação BES recentemente, o julgamento de Tancos, operação Lex, operações contra magistrados judiciais. Avançaram, não pararam de avançar", assinalou.

Dirigindo-se a Ana Gomes, declarou: "Não sei se percebe o quão ofensivo é aquilo que disse: interessado que é em que corra bem e se esclareça o caso Ricardo Salgado. Tenho o mesmo interesse em relação a todos os portugueses".

Esse é um assunto de interesse pessoal para todos os portugueses, porque estamos todos a pagar", retorquiu a candidata apoiada por PAN e Livre.

Cláudia Évora