António Costa não vem ao funeral de Mário Soares e isso é um "dilema" semelhante àquele que o antigo Presidente também passou em tempos. O antigo assessor de Soares, José Manuel dos Santos, desdramatizou a situação, em entrevista no Jornal das 8 da TVI, numa altura em que o primeiro-ministro está a ser alvo de algumas críticas - um jornal espanhol fala mesmo em polémica - pela sua ausência.

"Mário Soares teve situação parecida com esta: na manhã em que ia partir para visita de Estado à Hungria, em 1989, soube do acidente brutal com o filho João, que estava às portas da morte. Mandou a mulher ir à África do Sul e achou que naquele momento era seu dever de Estado continuar a visita", começou por contar, quando questionado por José Alberto Carvalho sobre o quase 'caso' que esta questão parece estar a levantar para alguns setores.

Acho que António Costa teve o mesmo dilema, não são decisões que se tomem com facilidade. O que eu posso dizer é que ele tem seguido, mesmo nos intervalos do programa da Índia, obviamente muito preenchido, tem estado em permanente contacto com tudo o que se está aqui a passar e estará presente, não estará fisicamente, mas através do seu discurso que vai poder ser visto. É como se ele estivesse presente".

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O antigo assessor de Soares defende que também Costa "obviamente" sabe que a "decisão é difícil, porque nenhuma das situações era boa". Isto porque a viagem de Estado à Índia é, também, "importantíssima para o país e seria difícil recuperá-la mais tarde", nos mesmos moldes. Nesta altura, o "entusiasmo" dos indianos justifica a decisão.

O primeiro-ministro já teve necessidade de justificar por três vezes a sua decisão, a última delas no Twitter. 

"Na morte, a melhor homenagem é falar da vida"

José Manuel dos Santos foi não só assessor, mas conselheiro e amigo de Mário Soares e defende que ele gostaria de ser evocado pela vida que teve. "Gostava sobretudo da vida, era daí que tudo corria. Na morte dele, a melhor homenagem que lhe podemos fazer é falar da vida e da vida dele. É por isso que ele considerava que a via, sem liberdade, não tinha sentido. Por isso era preciso lutar pela liberdade para que a vida fosse digna.".

Disse que o antigo Presidente gostaria de ser lembrado como Sophia e Mello Breyner falou dele.

"Ela fala do momento em que o conheceu e diz: ele era um homem corajoso, como todos os homens da oposição, mas havia uma diferença na coragem dele. Era uma coragem, em primeiro lugar, serena, uma coragem confiante e alegre e era, ao mesmo tempo, uma coragem que desenhava em volta dela uma espécie de um círculo de ânimo. Era ele que animava os outros, mesmo quando às vezes parecia que era ele que estava em piores condições".

"Testemunhei muitas vezes essa situação em que, depois de uma derrota eleitoral, as pessoas tinham ficado muito tristes e sem saberem muito bem o que seria o futuro. Faziam aquele voto piedoso de ir junto dele, tentando animá-lo. Ele não precisava de animação nenhuma, era ele que nos animava". 

Uma coragem que se viu das vezes que saiu da prisão. "Não saía com compaixão dele próprio, saía como alguém que cumpria o seu dever, a luta pela liberdade tinha um preço a pagar e ele pagava-o".

"Os últimos anos foram de grande preocupação e tristeza"

Nunca Soares considerou a luta pela liberdade acabada ou garantida. Achava sim que "a liberdade é uma planta frágil e devemos cuidar sempre dela", citou o seu antigo assessor.

Tal como sabia que "nada na história está garantido". Basta olhar para aquilo que se passou nos últimos anos de vida. 

Esta crise terrível, ele viveu sempre muito tempo antes de outros a prevê-la, a preveni-la, muito alarmado com o que se estava a passar"

Partiu com mágoa? "Sim, creio que muitas das coisas pelas quais ele se bateu estão postas em causa. a democracia já é uma espécie de falsificação de democracia, em muitos casos, a Europa numa crise terrível, o Ocidente como conjunto de valores humanistas em que ele se reconhecia, por estupidez e cegueira, neste momento, estão a ser postos em causa", expressou José Manuel dos Santos.

Os últimos anos dele foram anos de grande preocupação e de tristeza. não escondia [o desencanto], mas reagia a essas situações combatendo, denunciando, lutando, mobilizando, chamando à atenção, congregando pessoas. Para ele, havia sempre uma saída, mesmo perante as situações mais difíceis".

Vanessa Cruz