Mais do que um artigo de opinião, o texto que o primeiro-ministro, António Costa, assina este domingo no Diário de Notícias, é um elogio a um homem que diz: “nunca existiu pelo poder, mas pela liberdade”

A liberdade que sentiu quando caiu um dos seus governos e foi questionado sobre o que sentia. “Livre como um passarinho", respondeu. E é esta frase que António Costa escolheu para dar título ao seu texto. Mário Soares morreu sábado no Hospital da Cruz Vermelha, aos 92 anos, e em palavras emocionadas Costa questiona: “Não há ninguém insubstituível? Sei que ninguém substitui Mário Soares no lugar que é seu na história do Portugal democrático”.

“Nunca existiu pelo poder, mas pela Liberdade. Foi assim que começou no combate à ditadura quando a hipótese de aceder ao poder era mais ténue do que uma miragem e que continuou toda a sua intensa atividade política nos últimos 20 anos, após o termo dos seus mandatos presidenciais”, relembra o agora líder do Partido Socialista, recordando o pai do partido que dirige

Para António Costa, Mário Soares, foi “um grande navegador” que “não esperou pelo vento e bolinou para encontrar o vento necessário para seguir o seu rumo, sem nunca errar quanto aos pontos cardeais nem tergiversar quanto ao ponto de destino”.

Por isso mesmo, não tem dúvidas: “Ninguém contribuiu tanto como Mário Soares para a construção do Portugal pós-25 de Abril. Muitas vezes não foi compreendido - algumas vezes não o acompanhei - mas há que reconhecer que, no essencial, era ele quem tinha razão”

António Costa recorda ainda um episódio, do homem a quem história deu um lugar próprio: 

“A idade chega a todos e a Mário Soares também. Quando o visitei após doença grave há cerca de três anos, disse-me com indisfarçada surpresa: ‘Sabe, eu podia ter morrido’. Percebi que tal hipótese nunca lhe tinha ocorrido e que a revelação da sua mortalidade lhe ia tirar anos de vida. Nenhum de nós então sabia que o posterior falecimento da Maria de Jesus viria ainda a tirar-lhe outros tantos”

Recorde-se que sábado, o primeiro-ministro reagiu a partir da Índia, onde se encontra para uma visita de seis dias, à morte de Mário Soares. Assumiu que não irá estar presente no funeral, que se realiza terça-feira, e lamentou a "perda insubstituível" daquele que era “o rosto e voz da nossa liberdade”.