O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) manifestou este domingo a esperança de que a voz da nova ministra da Saúde seja mais audível junto do primeiro-ministro, que procedeu à terceira remodelação do seu Governo, e do ministro das Finanças.

Em declarações à agência Lusa, o secretário-geral do Sindicato, Roque da Cunha, disse esperar que a voz de Marta Temido tenha mais força junto das Finanças e do primeiro-ministro do que a de Adalberto Campos Fernandes, ministro cessante.

O sindicato lembra à nova ministra que há um grande descontentamento dos profissionais de saúde e que, no caso dos médicos, o processo negocial se encontra parado há mais de seis meses.

Esperemos que o processo negocial seja retomado", frisou Roque da Cunha.

"Réstia de esperança"

Para a Federação Nacional dos Médicos, a nomeação de Marta Temido para ministra da Saúde “uma réstia de esperança” para o último ano de mandato do Governo, esperando que tenha uma “postura diferente” com os profissionais do setor.

Com este ministro [Adalberto Campos Fernandes] e a sua equipa não negociávamos nada, era um ministro que não aceitava negociar nem aceitava as negociações. Estivemos três anos sem qualquer tipo de negociação viável em relação a descongelamentos, a grelhas a concursos”, disse à agência Lusa o presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), João Proença.

Para João Proença, Adalberto Campos Fernandes “era um ministro ausente e sempre favorável aos interesses dos grupos económicos privados”, esperando agora da nova ministra uma postura diferente.

Espero que com a nova ministra seja uma situação completamente diferente, que tenha uma postura diferente em relação aos médicos, enfermeiros e a todos os trabalhadores da saúde e nomeadamente na defesa do Serviço Nacional de Saúde público, de qualidade e com melhores ordenados para impedir que as pessoas saiam todas do público e vão para o privado”, defendeu o presidente da FNAM.

Lamentou ainda que o “serviço de saúde público” esteja “a desfazer-se por causa das medicas económicas e políticas que têm sido tomadas nos últimos três anos”.

Por isso, vincou, a “nomeação de Marta Temido é uma réstia de esperança para o último ano de mandato” do Governo.

Resolver problemas

Já a Ordem dos Médicos espera que a nova ministra da Saúde, Marta Temido, vá ao terreno falar com os profissionais para compreender os problemas do setor na prática e resolvê-los.

De nada adianta mudar de ministro da Saúde se não se conseguir ter um orçamento para resolver problemas. Se o orçamento para a Saúde for o mesmo do ano passado e do ano anterior, não se vai fazer nada na Saúde“, afirmou à agência Lusa o bastonário dos Médicos, Miguel Guimarães, que espera um reforço significativo de verbas para o setor.

O bastonário lembra que a nova ministra está ligada ao setor da saúde por via da administração hospitalar, manifestando a esperança de que Marta Temido ande no terreno a conversar com os profissionais para detetar os problemas reais e para os resolver.

A Ordem dos Médicos manifesta-se disponível para colaborar com a nova ministra, mas o bastonário avisa que "não está disposto" a que a situação do setor "fique empatada e parada muito tempo".

Ordem dos Enfermeiros muito apreensiva

A Ordem dos Enfermeiros mostrou-se hoje muito apreensiva com a mudança do ministro da saúde, não pela pessoa escolhida, mas pelo momento em que a alteração ocorre.

Em declarações à agência Lusa, a bastonária dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, manifestou-se "completamente surpreendida" com a alteração no Ministério da Saúde neste momento.

Entendemos até, no imediato, que não será uma boa decisão, porque há muitas negociações em curso. E teme-se que esta mudança deite abaixo as negociações", afirmou Ana Rita Cavaco, mostrando também preocupação com o que acontecerá nas secretarias de Estado na Saúde, já que são os secretários de Estado que têm em mãos as questões mais técnicas e as negociações com as várias estruturas que representam os profissionais de saúde.

Sindicato lembra carreira

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) considerou que, independentemente de quem é o ministro da Saúde, o que importa é que o Governo cumpra o compromisso que assumiu com os profissionais de saúde relativamente à carreira de enfermagem.

Guadalupe Simões, dirigente sindical do SEP, comentava desta forma à agência Lusa a nomeação hoje divulgada de Marta Temido para ministra da Saúde em substituição de Adalberto Campos Fernandes,

As mudanças são sempre atos de gestão por parte do Governo e o que importa não são as personagens, são as políticas do Governo, e o que o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses espera desta mudança é que o Governo cumpra o compromisso que assumiu que foi a negociação da carreira, independentemente de quem é o ministro”.

Guadalupe Simões lembrou que o Governo assinou o compromisso de dignificar a profissão de enfermagem, cujo processo negocial da carreira devia ter terminado no primeiro semestre deste ano, o que não aconteceu.

O que se espera é que o processo negocial fique concluído “no espaço mais rápido de tempo para entrar em vigor em janeiro de 2019 conforme foi o compromisso por parte do Governo”, defendeu.

Nesse sentido, reiterou, “seja quem seja o ministro da Saúde, tem que cumprir” este compromisso.

Sensível aos farmacêuticos

A Ordem dos Farmacêuticos considerou que a nova ministra da Saúde é conhecedora e sensível aos problemas do setor em Portugal e deixou um agradecimento ao ministro cessante.

A bastonária dos Farmacêuticos, Ana Paula Martins, sublinhou que Marta Temido é uma pessoa conhecida há muitos anos no setor e respeitada pelos farmacêuticos, sendo "sensível aos problemas" da saúde.

Desejamos todo o sucesso e estamos disponíveis, como sempre, para colaborar", declarou à agência Lusa.

A bastonária dos Farmacêuticos deixou ainda o seu reconhecimento e agradecimento ao ministro da Saúde cessante, Adalberto Campos Fernandes, lembrando que não é uma tarefa fácil exercer esta função num país como Portugal.

Quero deixar um agradecimento e reconhecimento ao ministro da Saúde que agora sai. Mesmo não estando sempre de acordo, reconhecemos que ser ministro D Saúde em Portugal será sempre uma tarefa difícil", disse Ana Paula Martins.

Sobre a decisão de remodelar o Governo neste momento e substituir o ministro da Saúde, a bastonária disse respeitar a decisão do primeiro-ministro.

O primeiro-ministro propôs hoje a nomeação de Marta Temido para nova ministra da Saúde, em substituição de Adalberto Campos Fernandes, o que foi aceite pelo Presidente da República.

Especializada em Administração Hospitalar pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, Marta Temido exercia os cargos de subdiretora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e de presidente não executiva do conselho de administração do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa.

Entre 2016 e 2017, foi presidente do conselho diretivo da Administração Central do Sistema de Saúde.

Além de Adalberto Campos Fernandes, o chefe do executivo substituiu hoje também os ministros da Defesa, da Economia e da Cultura.