A ministra da Saúde defendeu no parlamento que as respostas à crise gerada pela pandemia de covid-19 têm de ir para lá do combate à infeção com o novo coronavírus e devem ter uma dimensão social.

“Enquanto não surgir um tratamento ou uma vacina os riscos de uma segunda onda permanecem, mas assistimos hoje a focos de doença que nos mostram claramente a todos que as respostas de que precisamos vão para além da infeção SARS-Cov-2”, afirmou Marta Temido no discurso de encerramento da interpelação ao Governo pedida pelo PS sobre a resposta do Estado social à pandemia.

Segundo a ministra, são problemas que reclamam e justificam a existência de “um Estado social, de um Estado solidário, baseado em fortes políticas públicas”.

“Sem surpresa, a evidência dos resultados desta crise sem precedentes revela que o impacto sanitário económico e social do novo coronavírus se distribui assimetricamente na população afetando em especial os mais vulneráveis”, sublinhou.

Marta Temido sustentou que “os que se encontram mais expostos são como sempre os que vivem e trabalham em condições mais precárias”, acrescentando que as condições de habitabilidade a estabilidade laboral, a rede social de suporte são quase sempre fatores protetores.

Sublinhou ainda que os mais idosos são também aqueles que enfrentam maior risco de doença grave.

Ressalvando que “ainda é cedo” para fazer a avaliação do desempenho dos diferentes modelos de sistema de saúde na resposta à covid-19, a ministra afirmou que “há características do sistema de saúde português e da responsabilidade constitucional do Serviço Nacional de Saúde [SNS] que seguramente não serão neutras na história que um dia se escreverá”.

Entre essas características apontou a “matriz universal” do SNS reforçada pela nova Lei de Bases de saúde” que garante que todos os cidadãos residentes em Portugal, os requerentes de proteção internacional e os imigrantes legalizados ou não tenham acesso à rede pública de serviços de saúde.

“A capacidade que Portugal tem tido de responder à pandemia não é obra do acaso, resulta de escolhas políticas, de políticas concretas adotadas nos últimos cinco anos em particular no Serviço Nacional de Saúde, na escola pública, no emprego, na proteção do trabalho e na redistribuição de rendimentos”, sublinhou.

Marta Temido sublinhou que “a defesa do Estado Social é uma escolha política”, mas advertiu que se deve “evitar a todo o custo o risco de apenas compreender a sua relevância num contexto de emergência sanitária”.

No seu entender, há “muito caminho a fazer”, muito que melhorar, muitas respostas para dar, mas, afirmou, o Estado pode orgulhar-se do caminho levado até aqui e, sobretudo, do que caminho que tem de continuar a perseguir.

“Não rescrevemos as nossas preocupações, elas estão nos cuidados de saúde primários”, na integração de cuidados e na resposta em tempos de espera adequados “e com a humanização adequada num Estado Social que não é um chapéu saído de um armário de naftalina é um guarda chuva social que nos protege a todos sobretudo quando mais dele precisamos e é isso que os portugueses lá fora sabem e não esquecem”, declarou Marta Temido.

No seu discurso, lembrou ainda que na próxima terça-feira passam três meses desde que Portugal registou o primeiro caso de covid-19 (02 de março.

Ao longo das semanas seguintes o número de novos casos foi crescendo e instalou-se a transmissão comunitária. No final de março o país atingiu a incidência máxima da doença e na primeira quinzena de abril o SNS contou registou número máximo de internamentos.

Até agora, houve 318 mil casos suspeitos, mais de 31 mil confirmados e 1.368 mortos, mas mais de 18 mil doentes recuperaram. “Ao longo deste período os portugueses e todos aqueles que se encontravam no país puderam contar com o Serviço Nacional de Saúde”, rematou.

/ AM