Miguel Poiares Maduro afirmou esta segunda-feira que a operação Marquês revela como a cultura política tem uma "proximidade excessiva com o poder económico", o que leva a um enfraquecimento progressivo da sociedade civil.

Em entrevista a Miguel Sousa Tavares, Poiares Maduro explica que é necessário um debate sobre a dimensão política do processo. Uma conversa que permita analisar a chegada e filtragem de certas personalidades no poder, tal como o facto de um partido político se confundir com o Estado.

Não devíamos divergir sobre o facto de um partido político se confundir com o Estado e isso enfraquece a sociedade civil, isso cria medo e nós devíamos estar a debater isto”, afirma.

Poiares Maduro exlica que há problemas no sistema judicial que são amplificados porque “remetemos para o sistema judicial problemas que deveriam ser tratados politicamente”.

Com um passado de seis anos no Tribunal Europeu, Miguel Poiares Maduro preocupa-se com o facto de Portugal insistir em ser pouco transparente nas decisões públicas, especialmente no que concerne à aquisição de recursos humanos.

É muito difícil medir o impacto da corrupção, mas Portugal tem bem a ótica de que é um problema grave. Por outro lado, temos um grau muito baixo de cumprimento das recomendações da Europa”, explica o antigo ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional. 

Para o político, Portugal é também um país que “valoriza muito pouco os reguladores independentes”.

"Sofagate é ofensa aos valores europeus"

O antigo advogado-geral no Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias olha para o sofagate, que originou após uma imagem polémica mostrar Erdogan e Charles Michel sentados, enquanto Von der Leyen foi oferecida um lugar distante num sofá, como um incidente de protocolo que corrompe os valores da União Europeia.

Foi um dano muito grande à reputação de Charles Michel. É uma ofensa à União Europeia e aos seus valores”, afirma Poiares Maduro, sublinhando ironicamente que esta é a oportunidade de António Costa assumir o cargo de presidente do Conselho Europeu.

Este incidente de protocolo revela a ponta do iceberg de uma Europa em risco. “Estamos a assistir à política internacional a fazer-se muito mais agressivamente e baseada no conflito”, explica o professor catedrático.

A Europa é o maior exportador de regras para o mundo, por exemplo em temas de mercado, mas não tem a autoridade para afirmar a sua posição. Não tem capital político para impor convicções e as divergências internas dificultam cada vez mais as decisões comuns”, argumenta Poiares Maduro.