O presidente do Conselho Económico e Social (CES), Francisco Assis, esteve esta segunda-feira no Jornal das 8 da TVI, onde concedeu uma entrevista a Miguel Sousa Tavares. O também militante do PS começou por ser questionado sobre qual a vertente do partido com que mais se identifica, afirmando-se um homem da "esquerda moderada", um "social-democrata".

Um assumido crítico da geringonça assumida por PS, PCP e Bloco de Esquerda para formar uma maioria parlamentar em 2015, o socialista diz que a atual situação não aconselha uma crise política, algo que entende que não vai acontecer, atendendo à conjuntura económica e social.

Manifestei a minha oposição [à geringonça] porque temia que colocasse em causa os nossos compromissos europeus, o que não aconteceu", reiterou.

Perante um cenário em que o Governo pode vir a precisar do apoio do PCP para aprovações parlamentares futuras, nomeadamente do Orçamento do Estado, Francisco Assis mostra respeito pelos comunistas, mas atira que "o marxismo-leninismo foi algo de catastrófico para a Humanidade".

Perante uma ascensão da direita populista em Portugal, o ex-eurodeputado recusa que o aparecimento de um populismo à esquerda seja a solução. Em vez disso defende uma solução entre a esquerda moderada e a direita moderada.

Houve uma radicalização dos dois lados em Portugal", afirmou.

Sobre o papel do primeiro-ministro neste extremar de políticas, Francisco Assis considera que o PS deve sempre admitir sempre um cenário de diálogo com o PSD, hipótese já várias vezes descartada por António Costa.

Em nenhuma circunstância o PS deveria excluir o diálogo com o PSD, o que não significa que deixe de ter diálogo com o Bloco de Esquerda ou o PCP", apontou.

O socialista diz mesmo que Portugal deve alguns méritos a Pedro Passos Coelho, antecessor de António Costa no cargo, que "tratou os portugueses como adultos, no sentido de explicar as coisas".

Sobre António Costa, Francisco Assis fala numa reintrodução do otimismo em Portugal, ainda que haja "um desfasamento entre o discurso político e a realidade".

O antigo eurodeputado rejeita desta forma uma divisão entre correntes mais radicais dentro do PS, recordando as suas posições como líder parlamentar e até a corrida à Câmara Municipal do Porto.

Confrontado por Miguel Sousa Tavares sobre o apoio a Ana Gomes, candidata às eleições Presidenciais considerada pelo entrevistador como pertencente à "esquerda radical", Francisco Assis entendeu ser "fundamental uma candidatura do espaço da esquerda democrática", afirmando que não está arrependido do apoio dado.

Ela apareceu com coragem. Conheço Ana Gomes e, tendo divergências claras, sempre admirei a coragem", explicou.

O lado socio-económico

Presidente do CES, Francisco Assis destaca a relevância do organismo na intermediação entre o Governo e os outros atores económicos, como sejam empresas e sindicatos.

Desde que chegou ao CES, o responsável assumiu vários objetivos, entre os quais está uma melhoria dos rendimentos dos portugueses, que pode ser atingido pelo aumento da produtividade.

Os portugueses ganham muito pouco. Um trabalhador em Portugal produz, por hora, cerca de metade do que produz na Alemanha", explicou.

Esta é uma situação que ocorre mesmo num cenário em que os portugueses trabalham mais horas. Para Francisco Assis, um dos fatores para este flagelo é a falta de organização empresarial, nomeadamente nas Pequenas e Médias Empresas, muitas vezes de contexto familiar.

Numa altura em que Portugal se prepara para receber fundos europeus para recuperar os setores da economia mais atingidos pela covid-19, caberá ao CES fazer parte do aconselhamento da alocação desse dinheiro.

Neste ponto, Francisco Assis fala num problema que vem de antes, e pretende implementar uma "democratização do acesso aos fundos comunitários".

António Guimarães