O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, criticou, esta sexta-feira, o que considerou um aproveitamento das dificuldades vividas na Venezuela para fins políticos, numa alusão a declarações do eurodeputado Paulo Rangel sobre a situação naquele país.

Rangel, cabeça-de-lista do PSD às europeias, desafiou na quinta-feira o governo a esclarecer se há portugueses entre os “3,5 milhões de refugiados” que deixaram a Venezuela, acusando o executivo de usar uma “diplomacia de pantufas” nesta matéria.

Augusto Santos Silva salientou que faz uma distinção muito clara entre o seu trabalho e as “manifestações daqueles que querem tornar as dificuldades das pessoas em oportunidades eleitorais”, destacando que este não é o seu caminho.

Faço uma distinção muito clara entre o que é utilizar as dificuldades para tentar obter ganhos eleitorais – que não é a minha praia – e as minhas responsabilidades enquanto chefe da diplomacia portuguesa”, reforçou Santos Silva após uma sessão comemorativa do 90.º aniversário do Instituto Camões.

Referindo ter ouvido o presidente da República “dizer que havia portugueses entre os refugiados no Peru”, Rangel questionou: “O Governo português nunca nos falou nisso. Será que eles existem, estão identificados, está a ser canalizada ajuda?”.

O eurodeputado – que esteve recentemente na fronteira da Colômbia com a Venezuela – pediu ao Governo que, se estes refugiados existirem, “os vá buscar ao Peru, ao Brasil e à Colômbia e lhes dê condições de dignidade em Portugal”.

Santos Silva disse, no entanto, que o Governo não tem conhecimento de quaisquer casos de refugiados e apelou a quem souber da existência de portugueses nesta situação para que os dê a conhecer.

Não temos informação de existência de portugueses entre os três milhões de refugiados que, infelizmente, tiveram de abandonar a Venezuela e peço a todos aqueles que tem algum tipo de informação sobre alguma situação que a comunique imediatamente ao MNE" apelou, salientando que esta é uma responsabilidade de todos, incluindo os deputados do Parlamento europeu.

Elogiou o trabalho de deputados que "há muito se interessam pela Venezuela" e mantêm contactos com a comunidade portuguesa, incluindo do PSD, e aproveitou para lançar mais uma farpa aos "outros que chegaram demasiado tarde e demasiado mal", abordando o problema como "oportunidade eleitoral".

O secretário de Estado das Comunidades já se deslocou cinco vezes à Venezuela e, por acaso, em nenhuma delas encontrou o deputado Paulo Rangel", ironizou.

Questionado anteriormente pela Lusa sobre as declarações de Paulo Rangel, o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro escusou-se a usar a expressão 'refugiados', explicando que o Governo "não costuma utilizar essa linguagem", mas precisou que há 5.450 portugueses que saíram da Venezuela desde 2015 e procuraram ajuda nas embaixadas portuguesas nos países vizinhos.

Há 5.450 cidadãos que se dirigiram aos postos consulares desde 2015 no seguimento do agravamento da situação económica, social e humanitária na Venezuela e, relativamente aos casos identificados como de necessidade, foram devidamente encaminhados para a Direção-Geral dos Assuntos Consulares e tem vindo a ser prestada uma retaguarda de apoio", apontou o governante.

Nos últimos quatro anos, houve 4.168 inscrições consulares de portugueses vindos da Venezuela para o Panamá, a que se somam 500 na Argentina, 374 no Chile, 205 na Colômbia, 61 no Uruguai e 20 no Peru, não havendo, no Brasil, inscrições de portugueses nestas circunstâncias, elencou José Luís Carneiro.

Na sessão comemorativa dos 90 anos do Instituto Camões, Santos Silva sublinhou ainda que este organismo “é um instrumento essencial para manter ligados os 15 milhões de portugueses” que vivem fora de Portugal, valorizar o “espaço comum” da língua portuguesa e promover a internacionalização da economia e sociedade portuguesas.

O Instituto Camões apoia o ensino básico e secundário do português em 17 países onde há comunidades portuguesas significativas.

Tem também promovido a introdução do português nos currículos do ensino secundário em 24 países, desenvolvendo ainda atividades ligadas ao estudo da língua portuguesa no ensino superior, apoio à internacionalização, ações culturais e projetos de cooperação.

Rangel lamenta que pareçam existir emigrantes portugueses "de primeira e de segunda"

O cabeça de lista do PSD às europeias afirmou, esta sexta-feira, que o ministro dos Negócios Estrangeiros nunca disse se há ou não portugueses entre os refugiados venezuelanos, concluindo que parecem existir "emigrantes de primeira e segunda".

Santos Silva faz acusações, mas não responde à pergunta: há ou não há nos três milhões e meio de refugiados venezuelanos, portugueses ou pessoas lusodescendentes? Se há, quem são, onde estão e o que é que nós fizemos", questionou Paulo Rangel, que falava aos jornalistas à margem da visita à Qualifica - Feira de Educação, Formação, Juventude e Emprego, que decorre na Exponor, em Matosinhos.

Para o eurodeputado é praticamente impossível que, entre os 3,5 milhões de refugiados no Peru, na Colômbia ou no Brasil, não existam portugueses ou lusodescendentes.

O Presidente da República disse que há. O governo nunca disse que não havia. Nunca falou deles. Aquilo que eu digo é que há emigrantes de primeira e de segunda, os que são refugiados pelos vistos ninguém cuida deles", afirmou, defendeu que a questão da Venezuela é uma questão muito séria, "não é para fazer de pingue-pongue".

 

Eu não lhe fiz nenhuma acusação fiz-lhe duas perguntas. Espero duas respostas. Há ou não portugueses entre os refugiados? Se há, o que é que nós estamos a fazer por eles", reiterou Paulo Rangel, em resposta às declarações de Santos Silva.

Para o social-democrata, Portugal devia procurar identificar estes cidadãos e, depois, através das embaixadas, fazer diligências no sentido de saber se é possível resgatar essas pessoas.

Paulo Rangel disse ainda que Santos Silva tem de clarificar se continua a acreditar que as milícias que atuam na Venezuela existem ou não existem.

Ele disse que não existiam e hoje está mais que demonstrado que a maior ameaça para a estabilidade dos venezuelanos em geral, mas também da comunidade portuguesa, são as milícias", defendeu.

Questionado sobre se considera que o governo estava distraído com a polémica em torno da lista do PS às eleições europeias de maio, Paulo Rangel considerou ser natural que um governo “que perde dois ministros para uma campanha eleitoral” esteja “fragilizado” e, portanto, “não pode dar atenção aos assuntos que deve dar".