O líder parlamentar comunista desvalorizou esta terça-feira a moção de censura ao Governo apresentada pelo CDS-PP, atribuindo-a à disputa de espaço à direita, mas reconheceu que o executivo socialista a merece nas matérias convergentes com PSD e democratas-cristãos.

João Oliveira respondia a perguntas dos jornalistas no encerramento de dia e meio de jornadas parlamentares no distrito de Braga, num hotel da Cidade dos Arcebispos.

Estando nós a poucos meses das eleições legislativas e já com a data marcada para 06 de outubro, esta iniciativa do CDS, naturalmente, não é para ser levada a sério. Resulta de uma disputa de espaço político entre CDS e PSD, à direita, matéria na qual o PCP não se intromete nem tem interesse nenhum", disse.

O deputado do PCP acrescentou que, "ainda para mais", vivendo-se "num quadro em que, sendo verdade que muitas das opções do PS e do Governo merecem censura, essas são precisamente aquelas em que o CDS converge com o PS e o Governo e CDS e o PSD apoiam o PS e o Governo".

O debate desta moção de censura que vai substituir o debate quinzenal que estava agendado para esta semana talvez possa ter ainda assim essa utilidade marginal de trazer à evidência as convergências entre CDS, PSD, PS e Governo naquilo em que há problemas por resolver e são rejeitadas soluções que o PCP apresenta, naquilo em que não se avançou porque PSD e CDS se revelaram muletas muito úteis contra os interesses dos trabalhadores e do povo", anteviu João Oliveira.

“Gostávamos mesmo de eleições”

Por seu lado, a líder do CDS-PP acusou o Governo de se ter transformado numa “verdadeira direção de campanha eleitoral” do PS e deseja que o executivo caia na quarta-feira, no parlamento, com a moção de censura centrista.

Gostávamos mesmo de eleições”, admitiu Assunção Cristas em declarações aos jornalistas, após um almoço, num hotel de Lisboa, da associação de amizade Portugal-EUA, em que, por três vezes, afirmou que o “Governo está esgotado” e está “transformado numa verdadeira direção de campanha do PS”, após a remodelação de domingo.

Para Cristas, “este governo deveria cessar já” e os partidos da esquerda, que têm dado apoio ao executivo, PCP, BE e PEV, “se fossem consistentes”, deveriam apoiar a censura ao Governo na quarta-feira ou optar por “uma moção alternativa” à do CDS.

Se as esquerdas fossem consistentes com o que dizem todos os dias, na rua e no parlamento, ou votariam esta moção ou apresentariam uma moção alternativa à do CDS, mas com o mesmo efeito, que seria derrubar o Governo”, afirmou.

"Governo que não governa"

A líder do CDS-PP relativizou ainda as críticas do PSD por se sentarem no Conselho de Ministros um pai e uma filha, após a remodelação, afirmando que “o mais escandaloso” é ver “um Governo que não governa”.

Assunção Cristas foi questionada sobre se concordava com Rui Rio, que na segunda-feira afirmou que as expectativas em relação à remodelação governamental “não são nenhumas”, alertando para um certo “afunilamento”, pois no Conselho de Ministros, “pela primeira vez na história de Portugal, senta-se marido e mulher [Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, e Ana Paula Vitorino, ministra do Mar] e agora pai e filha [Vieira da Silva, ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, e Mariana Vieira da Silva, ministra da Presidência e Modernização Administrativa]”.

Acho escandalosas muitas coisas. Para mim, o mais escandaloso é ver um governo que não governa, transformado numa direção de campanha do PS, numa deriva ideológica à esquerda, muito visível no Serviço Nacional de Saúde e no esvaziamento da ADSE”, afirmou.

E, para Assunção Cristas, um Governo que é “incapaz de manter um diálogo social produtivo não governa”.

Outras opções podem escandalizar-nos mais ou menos, mas no limite tudo se resume ao que disse” sobre as críticas ao executivo de António Costa.

A líder do CDS-PP justificou a moção de censura com “o esgotamento” do Governo, “incapaz de encontrar soluções” para o país e de só estar a pensar “nas próximas eleições”.

Esta será a segunda moção de censura ao Governo minoritário do PS, chefiado por António Costa.

"Atuações parlamentares"

Já o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recusou comentar a moção de censura ao Governo apresentada pelo CDS-PP por ser uma questão do “foro” da Assembleia da República.

Não comento essas atuações parlamentares, são do foro da Assembleia da República. O Presidente da República não deve estar a comentar”, afirmou aos jornalistas à margem do lançamento do livro "A Sedutora Tinta das Minhas Noutes", da autoria do homólogo de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca.

O chefe de Estado falava na Póvoa de Varzim, no distrito do Porto, à margem da 20.ª edição do Correntes d´Escritas.

Questionado sobre que livro proporia a António Costa em vésperas da votação da moção de censura, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu que ele é uma pessoa que lê muito e que gosta muito de ler, tendo boas escolhas.

Sei que ele tem boas escolhas porque já trocámos critérios de escolhas algumas vezes”, referiu.