O antigo Presidente da República Mário Soares declarou-se, esta sexta-feira, «surpreendido e entristecido» com a morte do Nobel da Literatura, José Saramago, e defendeu que o escritor deveria ficar sepultado no Panteão Nacional e a declaração de luto nacional.

«Acho que devia ir para o Panteão Nacional. Acho que o Estado português deveria decretar luto nacional. Justifica-se porque era um português ilustríssimo», disse Mário Soares, à margem de uma conferência dedicada à importância estratégica do mar, que esta tarde decorreu na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Mário Soares, que afirmou ter acompanhado nos últimos anos a vida do Prémio Nobel da Literatura português e falar frequentemente com a mulher do escritor, Pilar del Rio, ficou ainda assim surpreendido com a notícia da morte, mesmo sabendo da degradação do seu estado de saúde. «Sabia que ele estava um pouco fragilizado, mas não pensava que estivesse no fim. Fiquei muito surpreendido com a morte dele, soube pela televisão», declarou.

«Fiquei evidentemente entristecido, é uma grande perda para Portugal, perdemos um grande escritor, um dos maiores do século XX, sem dúvida, um homem conhecido internacionalmente, com os livros todos traduzidos em todos os idiomas, de uma maneira geral, e com um grande prestígio», acrescentou.

Mário Soares recorda um homem «rígido, severo e senhor do seu nariz, se assim se pode dizer», mas também um homem «que se emocionava e que compreendia bem tudo aquilo que o cercava», com quem privou nos últimos anos da sua vida, apesar de nem sempre ter sido assim. «Tive um período da minha vida em que estive até de relações cortadas com ele, que foi durante o PREC [Processo Revolucionário em Curso], porque estive em oposição frontal às posições dele quando era director do Diário de Notícias. Depois retomei as relações com ele e tornámo-nos amigos», lembrou.

«Fizemos as pazes quando ele publicou o "Memorial do Convento" e no ano seguinte "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Nessa altura li os livros, era primeiro-ministro e escrevi uma carta a felicitá-lo pelos livros e ele respondeu-me dizendo que apesar de estarmos de relações cortadas tinha ficado satisfeito por eu lhe ter escrito. Desde aí retomámos relações. Quando era Presidente ele visitou-me imensas vezes e eu a ele. Fui passar um dia com ele a Lanzarote», precisou o antigo Presidente da República.

Mário Soares recusou ainda que haja lugar a um pedido de desculpas por parte do Estado português na sequência de polémica em torno da publicação do «Evangelho segundo Jesus Cristo».
Redação / MM