Vamos falar de presidenciais? Então: ao sexto dia de debates, isto já vai de cobarde e vigarista para cima, o mediatraining está a produzir os seus resultados, a democracia do politicamente correto está a cumprir bem o seu papel e… Marcelo continua o seu passeio no parque. Isto promete.

O primeiro debate da noite — da minha, pelo menos — foi entre Marisa Matias e André Ventura. Tinha tudo para correr mal e…correu, de facto, muito mal. A candidata do Bloco de Esquerda não se preparou para um debate, preparou-se para um combate de boxe. E como não quis ser a primeira a levar com um gancho de direita, “disparou” um “jab” ao adversário que só não o atirou ao chão porque Ventura é quase tão bom a lutar como a fazer fita. 

Marcelo Rebelo de Sousa já tinha encostado o candidato do Chega às cordas, mas Marisa Matias apostou tudo num KO. A candidata do Bloco de Esquerda entrou ao ataque e, numa primeira fase, até conseguiu colocar André Ventura na defensiva. Não lhe faltava “material” nas redes sociais, na imprensa, na justiça e até — imagine-se — no programa político de Ventura para atacar um candidato habituado a transformar estúdios de televisão em ringues de pugilismo. Marisa Matias ia bem municiada — o clipping estava muito bem feito — e as coisas até lhe estavam a correr bem, se não tivesse deixado as “entranhas” falar por ela. 

Chamar “cobarde” e “vigarista” a André Ventura teve o duplo efeito de baixar o nível do debate político e permitir ao adversário um cliché tão antigo como a política: a vitimização. É disso que André Ventura se alimenta, todos os dias, dos que lhe dão a relevância que não tem e dos que o atacam colericamente. Marisa, que podia ter o debate ganho, perdeu-o o ali, naquele momento, quando decidiu descer o nível. E é uma pena, porque não era preciso tanto. Porque as contradições, as incoerências e a total ausência de política de Ventura são tão evidentes que não era preciso mais do que assinalar o óbvio. Marcelo soube fazê-lo. Marisa Matias não. 

Um “neoliberal” e uma “neossocialista” encontram-se à esquina

Em tese, podia ser um debate bastante interessante e esclarecedor para o eleitorado. Uma socialista e um liberal candidatam-se ao mais alto cargo da nação e vão, finalmente, debater as suas ideias e visões para o cargo de Presidente da República, num contexto tão adverso como o que o país vive. Só que não.

Ana Gomes e Tiago Mayan Gonçalves limitaram-se a reproduzir um guião previsível, desvalorizando as perguntas que não interessava responder e procurando marcar pontos no Twitter com frases feitas, como quem está num jogo onde o mais importante não é exatamente a política, mas o que cada um de nós faz dela. 

Ana Gomes continua a fazer uma pré-campanha francamente fraca, sem rasgo, mas, sobretudo, sem conseguir posicionar-se num patamar político acima dos adversários mais diretos. E, a continuar assim, arrisca-se mesmo a ficar em terceiro lugar. Já Tiago Mayan Gonçalves é um claro erro de casting. Por mais mediatraining que tenha, por mais “tiradas” que leve preparadas, o candidato do Iniciativa Liberal pode ter nascido para muita coisa, mas para a política não foi seguramente. Talvez a meritocracia que defende, um dia, lhe ensine isso. 

Procura-se: alguém que queira debater com Tino

É impossível deixar de assinalar a ironia: tanta comoção porque as televisões privadas não organizaram debates com Vitorino Silva, que era a democracia que estava em causa e… quatro debates depois, nem um candidato, até agora, se atreveu a debater uma ideia política com o “famoso” Tino de Rans. 

Desta vez foi Marcelo Rebelo de Sousa — o político que, nesta matéria, é o mais politicamente correto de todos — a meter aquele ar delicodoce, quase paternalista, de quem não está ali para debater, mas para fazer uma conversa de café com o calceteiro mais famoso do país. Assim como assim, o candidato Marcelo sempre aproveita para fazer mais um bocadinho de campanha à borla, enquanto o Presidente Marcelo aproveita para responder a dois ou três temas do dia. 

Nada que Ana Gomes, Marisa Matias ou André Ventura não tenham já feito. E talvez este seja o preço a pagar pela democracia: ter debates que nada debatem, mas que servem para cumprir quotas, sem qualquer critério que não seja tratar por igual o que é completamente diferente. Talvez este preço venha a ser pago, mas mais tarde. É esperar que o ridículo não nos mate primeiro. 

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Anselmo Crespo