Ponham Marcelo Rebelo de Sousa frente a um candidato de direita e temos luta. Ar maquiavélico, chispa nos olhos, irritação pré-fabricada para libertar nos momentos certos e frases assassinas para tentar meter o adversário no bolso. Foi assim com Mayan, foi assim com Ventura. Com a esquerda é sempre outra cantiga, é um slow romântico de dançar agarradinho, uma harmonia ideológica de plástico para seduzir o eleitorado do PC e do BE que as sondagens mostram que é falível ao encantamento. Pode parecer estranho, mas é tudo estratégia de político experimentado que quer reforçar o poder com o maior número dos votos possível. Esta noite não era dia de segurar votos à esquerda, era dia de estancar as perdas para a direita mais radical.

Ponham André Ventura frente a Marcelo e temos o rufia da escola a levar um calduço do professor. A antecipação era grande, Ventura alimentou a bazófia e já não dormia só de pensar. Depois sentou-se e amochou.

De facto, não é fácil levantar a voz e fazer bullying ao campeão da popularidade. Marcelo era, provavelmente, o adversário mais difícil que tinha pela frente nesta série de debates porque Ventura estava ali para agradar a uma direita ofendida com Marcelo, mas pisava gelo fino e um ataque mais arruaceiro podia queimá-lo. E se já tinha falhado no dia anterior com Tiago Mayan Gonçalves, o candidato do Chega nem ousou repetir a estratégia Trump que marcou o famoso debate com João Ferreira. Por isso, foi de mansinho. O sistema é para deitar abaixo e tal, os bandidos e os traficantes de droga, mas no fundo, o respeitinho é muito bonito.

Marcelo cheirou a fragilidade do adversário e transformou um debate de dois candidatos de direita numa clivagem ideológica. A direita social, de Sá Carneiro, do Papa e da Igreja, que não distingue os puros dos impuros contra a “direita securitária” “persecutória” e “do medo”, a que tem um projeto “presidencialista” que pode levar à ditadura. Marcelo levou o Chega “ao colo” nos Açores, mas não quer misturas.

Isto só por si teve graça, sobretudo porque minutos depois, as duas ideologias mais distantes que se confrontam nestas eleições – a do liberal Mayan e a do comunista Ferreira – foram a debate na TVI24 e nada de especial aconteceu. Um não quer fazer na campanha o que não é permitido ao cidadão comum, o outro não quer ser limitado nos seus direitos políticos. O liberalismo é mau, o comunismo é mau. O paraíso liberal é o inferno dos povos, disse um. Infernos na terra é a Coreia do Sul, disse o outro no lapso que acabou por inspirar esta metáfora: no fundo, passámos ali meia hora na zona desmilitarizada que separa as duas Coreias. Nenhum perdeu ou ganhou votos neste debate civilizado e aborrecido entre dois seres de planetas diferentes.

Tiros a sério só se ouviram, portanto, entre as duas direitas. E os de André Ventura cheiraram a pólvora seca. Mostrou uma fotografia de Marcelo no Bairro Jamaica e levou com o presidente dos pobres e desempregados. Para mostrar colagem ao governo, levou outra sobre os incêndios de Pedrogão e só percebeu que isso era fogo amigo quando o atual Presidente recordou o momento em que mais esteve no terreno a apontar o dedo a Costa e o discurso “mais violento” do mandato, que teve como consequência a saída da ministra (um golpe que podia ser desfeito se Ventura tivesse perguntado a Marcelo porque não usou a mesma força com o MAI no caso do SEF ou com a ministra da Justiça na embaraçosa história do procurador europeu). 

O candidato do Chega estava em baixo de forma, não conseguiu sair do discurso repetitivo que anima a sua claque e falhou nos ataques porque Marcelo já os antecipava todos e respondia com voz grossa: “Falar é fácil, difícil é ser Presidente da República”. E sempre neste tom, o candidato “que não é de fação”, refutou as acusações de ser manipulado por Costa com a derradeira humilhação do adversário:  “Não admito que o senhor diga aqui o que não diz em Belém”, como quem diz que o tigre que aparece na televisão é um gatinho nos salões da Presidência. 

André Ventura dizia à boca cheia que mal podia dormir só na antecipação do debate com Marcelo. Mas pelos vistos, era dos nervos.

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Pedro Benevides