Sucedem-se, neste domingo, as reações à morte de Otelo Saraiva de Carvalho, capitão de Abril e mentor da Revolução dos Cravos.

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa foram dos primeiros a lamentar a morte de Otelo, com o Presidente da República a dizer que "é ainda cedo para a História o apreciar com a devida distância", enquanto o primeiro-ministro enalteceu a sua "dedicação e generosidade".

O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, homenageou Otelo, “o maior símbolo individual do Movimento das Forças Armadas”, que concretizou o sonho de todos os que “ansiavam por viver em liberdade”.

Apesar dos excessos que se possam apontar, nomeadamente no período pós 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho foi, e será sempre considerado, o maior símbolo individual do Movimento das Forças Armadas”, consta na mensagem de pesar do presidente da Assembleia da República.

Segundo Ferro Rodrigues, “por todos os democratas, que ansiavam por viver em liberdade e em democracia, Otelo Saraiva de Carvalho concretizou esse sonho”.

No momento do seu desaparecimento, e pelo seu decisivo contributo, é justo render-lhe a mais sentida homenagem”, enalteceu.

O presidente do PSD, Rui Rio, reconheceu “o papel corajoso e decisivo” de Otelo Saraiva de Carvalho no 25 de Abril, considerando que será a história, com isenção, que avaliará o que “fez de bom e de mau”.

O dia da morte de Otelo Saraiva de Carvalho é momento para reconhecer o seu papel corajoso e decisivo no 25 de Abril e na conquista da liberdade”, referiu o presidente do PSD, Rui Rio, numa publicação na rede social Twitter.

Para Rio, é à história que vai competir, “com isenção”, fazer “a avaliação global de tudo que ele fez de bom e de mau”.

Hoje não é o dia para isso”, concluiu.

O BE agradeceu o “contributo imprescindível” de Otelo na revolução que trouxe a liberdade a Portugal, considerando que foi um “construtor do 25 de Abril”.

Otelo Saraiva de Carvalho foi um construtor do 25 de Abril, estratega da Revolução que trouxe ao país a Liberdade, pôs fim à guerra e à colonização e abriu a esperança de uma democracia política e social”, pode ler-se numa nota do BE.

No momento da morte do capitão de Abril, “o Bloco de Esquerda agradece esse contributo imprescindível e endereça à família as mais sentidas condolências”.

Já na rede social Twiiter, a coordenadora bloquista, Catarina Martins, considerou que o Otelo Saraiva de Carvalho é “uma figura maior do que a sua própria história”.

Estratega do 25 de abril, será sempre lembrado como um dos libertadores de Portugal”, elogiou.

O PCP registou hoje o papel de Otelo Saraiva de Carvalho no 25 de Abril, considerando que o momento da sua morte “não é a ocasião para registar atitudes e posicionamentos que marcam o seu percurso político”.

Sobre o falecimento de Otelo Saraiva de Carvalho deve registar-se no essencial o seu papel no levantamento militar do 25 de Abril. O momento do seu falecimento não é a ocasião para registar atitudes e posicionamentos que marcam o seu percurso político”, refere uma nota do gabinete de imprensa do PCP.

No dia em que “o CDS regista com tristeza” a morte de Otelo Saraiva de Carvalho, o vice-presidente Miguel Barbosa assegurou que o partido “não se deixa embriagar pela história”, naquele que considera ser “um dia agridoce para os portugueses”.

Por um lado, Miguel Barbosa lembra Otelo como “um dos principais obreiros do golpe de estado que ficou conhecido como a Revolução dos Cravos, o 25 de Abril de 1974", reconhecendo-lhe “um primeiro ato importantíssimo para devolver Portugal à liberdade e à estabilidade de uma democracia liberal, que apenas se veio a confirmar com o 25 de novembro”.

Mas, por outro, sublinha "aquilo que O CDS não esquece”, apontando o capitão de Abril como “um homem que, entre estas duas datas, teve atitudes e comportamentos em que contradiz tudo aquilo que parecia defender”.

Na lista do que o CDS não esquece inclui “o Comando Operacional do Continente (COPCON), os mandados de captura em branco e as vítimas mortais do terrorismo das FP25”, para sublinhar: “Não esquecemos que Otelo Saraiva de Carvalho era o rosto de toda essa atrocidade.”

Reafirmando as memórias das “vítimas que morreram pelos ataques das FP25, crianças inclusive”, o vice-presidente do CDS disse esperar que “não se reabram feridas antigas" e que “os familiares dos que perderam os seus pais, filhos, irmãos, para as mãos do terrorismo de Abril, possam hoje também encontrar alguma paz”.

O Chega criticou hoje Otelo Saraiva de Carvalho por ter tido um "papel perverso e destrutivo" no pós-25 de Abril, considerando que deveria “ter cumprido a sua pena numa prisão portuguesa” e nunca ter recebido um indulto.

Numa nota, a Direção Nacional do Chega começou por deixar “publicamente os seus sentimentos à família e amigos” pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, um momento que é “de dor e saudade, sobretudo para o círculo próximo”.

Apesar disso, o Chega considerou que não se pode “esquecer hoje o papel perverso e destrutivo que Otelo Saraiva de Carvalho teve no Portugal pós-25 de Abril, bem como a mancha de sangue que deixou durante esse processo histórico em que foi um protagonista fundamental”.

Otelo Saraiva de Carvalho enfrentou a justiça portuguesa, mas acabou por nunca a cumprir nem a sentir na pele devido a um processo de indulto, o que jamais devia ter acontecido”, criticou, considerando que “deveria ter cumprido a sua pena numa prisão portuguesa”.

Na TVI24, o historiador e comentador político Pacheco Pereira afirmou que "a morte de Otelo vai ser tribalizada", enquanto o antigo ministro João Soares disse "perdoar-lhe todas as asneiras" por tudo o que fez no 25 de Abril. Já a médica e ativista política Isabel do Carmo lembrou "o homem que estava do lado dos pobres".

O comandante Manuel Begonha considera que Otelo Saraiva de Carvalho foi um dos grandes heróis do 25 de Abril.

Apesar de termos tido algumas divergências, não quero deixar de manifestar a minha consideração e estima por um homem que foi, sem dúvida, um dos grandes heróis do 25 de Abril e símbolo de uma revolução que nos libertou de uma ditadura”, afirmou Manuel Begonha à agência Lusa.

Para o comandante, “Otelo Saraiva de Carvalho foi um homem cativante, de diálogo fácil e de uma forte empatia, cuja presença não podia passar despercebida”, referindo ainda que “alguns erros cometidos não apagam o essencial de uma figura notável do panorama político português”.

É, pois, com profundo pesar que registo a sua morte, apresentando à família e aos amigos os meus sentidos pêsames”, acrescentou.

Manuel Begonha, de 77 anos, participou ativamente em todo o processo do 25 de Abril, sobretudo como membro do Conselho de classes da Armada e da Assembleia do Movimento das Forças Armadas. Foi delegado do Conselho da Revolução em várias comissões governamentais e membro da 5.ª Divisão do Estado-Maior-General das Forças Armadas, onde coordenou as Campanhas de Dinamização Cultural.

Atualmente, é presidente da mesa da assembleia geral da Associação Conquistas da Revolução.

O ex-militar Carlos Matos Gomes destacou o instinto de Otelo de trazer o povo para a revolução, que sem ele teria sido apenas um golpe de estado militar.

O grande relevo de Otelo Saraiva de Carvalho é o de ter tido o instinto de trazer o povo para a revolução, porque senão o 25 Abril teria sido um mero golpe de Estado militar”, disse à agência Lusa Carlos Matos Gomes.

Amigo de Otelo desde 1972, quando ambos cumpriram serviço militar na Guiné, o ex-militar e historiador da Guerra Colonial lembrou que foi Otelo que, logo no dia 26 de abril de 1974, foi “a favor de o povo vir para a rua, de o povo tomar voz e participar no processo político”.

Ele nunca impede, nem nunca impõe a Salgueiro Maia, nem a nenhum dos oficiais envolvidos, que afaste o povo dos locais das operações, com os riscos todos” que tal poderia implicar, acrescentou.

No entender do ex-militar, que com Otelo participou desde o início nas reuniões do Movimento dos Capitães, foi Otelo quem motivou “os portugueses a tomar o destino nas suas mãos”, no âmbito de um processo político que, “em Portugal é revelador deste impulso essencial que é trazer o povo para dentro das mudanças sociais e políticas”.

Uma postura que Otelo assumiu sempre, “mesmo como as suas contradições”, afirmou, destacando-o como “uma figura única na nossa história” e um “líder popular que tem uma ideia e tenta concretizá-la, com erros, porventura com excessos”, mas, sem deixar de ser “uma figura ímpar no processo político português e nos processos políticos que ocorrem e que ocorreram na Europa”, concluiu.

O antifascista e antigo membro do comité central do PCP Raimundo Narciso evocou hoje Otelo Saraiva de Carvalho como a "principal figura da revolução do 25 de Abril pelo seu papel na coordenação do movimento das Forças Armadas".

Em declarações à agência Lusa, Raimundo Narciso, que já foi membro da direcção da Associação do 25 de Abril, lembrou ainda o papel desempenhado por Otelo Saraiva durante o "período revolucionário", logo a seguir ao 25 de abril, admitindo que, mais tarde, o ora falecido se tenha tornado posteriormente numa "figura controversa".

É contudo do ponto de vista político uma figura controversa, mas teve o apoio da esquerda e dos populares e nunca deixou de ser uma figura carismática", observou.

Segundo Raimundo Narciso, a participação de Otelo no caso das FP-25 de Abril acabou por prejudicar a sua imagem, mas isso "não pode fazer esquecer o seu papel na organização".

Otelo nunca deixou de ser uma figura simbólica do 25 de abril e que tem a simpatia do povo português", concluiu Raimundo Narciso.

O militar de Abril Sousa e Castro disse que se não fossem as qualidades pessoais e militares de Otelo Saraiva de Carvalho, a revolução poderia ter sido "mais violenta".

Uma revolução paradigmática, que alcança os seus objetivos, derruba uma ditadura, e não produz vítimas ao Otelo se deve", afirmou Sousa e Castro em declarações à Lusa, lamentando a perda de "um amigo".

Para o major reformado, "se fosse outro o comandante militar, provavelmente a conduta de operações e das próprias tropas em movimento poderia ter sido mais violenta", no 25 de Abril de 1974, salientou.

Porque Otelo tinha "características militares muito vincadas, era um homem disciplinado, mas sem ser agressivo, (...) de uma forma que quase se poderia dizer simpática", descreveu.

Além disso, "era uma pessoa muito corajosa, sem aquelas ousadias que não levam a lado nenhum. Era serenamente corajoso", sublinhou, admitindo, que algumas vezes esteve do lado oposto da barricada ao do seu amigo, já depois da revolução dos cravos.

Mas na sua opinião foram "essas características militares e de sociabilidade que o tornaram uma pessoa mais importante na conspiração".

Tanto assim que, sendo ele major, foi comandar as operações para um posto de comando onde estavam tenentes-coronéis e majores mais antigos", ou seja, acima dele na hierarquia militar.

A acrescentar a essas qualidades, Sousa e Castro realçou ainda as características pessoais de Otelo, que "ajudaram a tudo”: "A capacidade dele de fazer amigos, de juntar pessoas, de persuadir."

Ele incutia a coragem nos outros, (...) mas de uma forma positiva, porque o discurso, ou as palavras que tinha para os capitães, que estavam mais empenhados em revoltarem soldados e saírem pelas estradas fora para derrubarem a ditadura (...) ele incutia uma coragem serena e recomendava-lhes sempre muita precaução para não ferirem ninguém", frisou o major.

Vasco Lourenço, antigo operacional do 25 de Abril e presidente da Associação com o mesmo nome, esteve em direto na TVI24, onde reagiu à morte de Otelo Saraiva de Carvalho. O coronel lembra "um grande amigo e grande patriota" que teve "a sorte e a honra" de comandar a operação que  "derrubou a ditadura".

Guardo a memória de um grande amigo e patriota com ideais do tamanho do mundo”, refere Vasco Lourenço.

Redação / com Lusa