O líder do PSD acusou o Governo de ter criado "uma ficção" sobre a origem dos prejuízos da Caixa Geral de Depósitos e salientou que o executivo ainda não colocou "um euro de dinheiro fresco" no banco público.

Num discurso perante algumas centenas de mulheres sociais-democratas, em Lisboa, Pedro Passos Coelho reagiu à notícia de que os prejuízos da CGD ascenderam em 2016 a 1.859 milhões de euros e de que o aumento de capital do Estado será de 2.500 milhões de euros.

Apontando a situação da Caixa como "uma área onde é bem visível a ficção" criada pelo Governo do PS, o líder do PSD salientou que a única parte da capitalização que já foi feita foi com dinheiro deixado pelo anterior executivo PSD/CDS-PP.

"Até hoje o Estado não pôs um euro fresco dentro da Caixa Geral de Depósitos", criticou.

Por outro lado, Passos Coelho contestou o argumento do Governo de que os prejuízos da Caixa são elevados porque o anterior executivo "andou a esconder a situação" do banco público.

"Qual situação? A que nos deixaram em 2011. Os socialistas hoje culpam-nos por não termos limpo mais imparidades daquilo que foram os anos de gestão socialista", disse, apontando que foi antes de o PSD chegar ao Governo que foi concedido o crédito de risco no banco público

"Se o Estado vai meter [na Caixa] 2,5 mil milhões de euros, isso deve-se a, na gestão anterior a 2011, se ter concedido crédito com risco a mais", afirmou, defendendo que "essa é a primeira coisa que os portugueses têm de ouvir".

Num discurso de cerca de 45 minutos, Passos Coelho precisou que, enquanto o PSD e o CDS-PP estiveram no Governo, a CGD reconheceu quase 5 mil milhões de euros de imparidades, relativos a créditos atribuídos antes de 2011, imparidades que atingiam os 20 mil milhões de euros no conjunto do sistema financeiro.

“O que é que o PS queria? Que em quatro anos tivéssemos reconhecido as imparidades todas que geraram enquanto foram governo, que impuséssemos aos portugueses ainda mais sacrifícios?”, questionou, defendendo que no seu executivo a situação do sistema financeiro “melhorou de forma impressiva”.

O líder do PSD disse ainda que, na atual comissão de inquérito parlamentar sobre as necessidades de recapitalização da CGD, o grupo parlamentar do PS quer impedir o apuramento de responsabilidades da atribuição do crédito de risco “porque querem atirar a culpa para o PSD”.

A Comissão Europeia autorizou na sexta-feira a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD), no montante de 3,9 mil milhões de euros, após concluir que a operação não constitui um novo auxílio a favor do banco público.

“O plano de negócios apresentado por Portugal prevê uma transformação estrutural da CGD e permitirá ao banco tornar-se rentável a longo prazo. A nossa apreciação revelou que o Estado português, enquanto acionista único da CGD, investe nas mesmas condições que um proprietário privado estaria disposto a aceitar. Por conseguinte, a recapitalização pelo Estado não constitui um novo auxílio estatal”, anunciou a comissária da Concorrência, Margrethe Vestager.

Também na sexta-feira, o Ministério das Finanças disse que o aumento de capital na CGD será de 2.500 milhões de euros, porque os prejuízos divulgados hoje pelo banco público, apesar de recorde, estão abaixo do previsto.

O aumento de capital é a próxima fase do processo de recapitalização do banco, depois da transferência, em janeiro, da transferência de ações da ParCaixa para a CGD no valor de 500 milhões de euros e de instrumentos de capital contigentes (CoCo's) subscritos pelo Estado, incluindo juros corridos e não pagos, no valor de 945 milhões de euros, recorda a tutela.