Foi já nas primeiras horas da madrugada desta sexta-feira que Paulo Rangel confirmou aquilo que se vinha perspetivando há várias semanas. Nas próximas eleições diretas, será candidato à presidência do PSD, marcadas para 4 de dezembro. Se contra Rui Rio, ainda está por confirmar, uma vez que o atual presidente ainda não confirmou a recandidatura.

Nascido em Vila Nova de Gaia há 53 anos, foi do outro lado do rio que Paulo Rangel começou a carreira política. Estudou no Colégio dos Carvalhos e define-se como um cristão de cultura católica e federalista. Na sua página de perfil do jornal Público, recorda que, ainda em criança, "vibrava com a política, o PPD e Sá Carneiro".

Licenciou-se em 1991 na Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa. Três anos mais tarde, foi admitido na Ordem dos Advogados, tendo integrado as sociedades Osório de Castro, Verde Pinho, Vieira Peres, Lobo Xavier (de 1999 a 2005) & Associados e Cuatrecasas, Gonçalves Pereira & Associados (de 2006 a 2012).

Foi na primeira daquelas sociedades que o mundo político o cativou. Com António Lobo Xavier como um dos sócios principais, acabou por se aproximar do CDS, partido no qual se afiliou em primeiro lugar. O primeiro grande desafio foi do outro lado do rio Douro, no Porto. Rui Rio aparecia em 2001 como o candidato de PSD e CDS para derrubar Fernando Gomes.

Com mais 5.090 votos do que o adversário, Rui Rio contrariava (pela primeira vez) as sondagens, ultrapassando na reta final o adversário, com Paulo Rangel a ter um papel decisivo, depois de ter sido o cérebro do programa eleitoral da coligação de direita para a cidade Invicta. Vinte anos depois de terem contribuído para a vitória social-democrata nas autárquicas, Paulo Rangel e Rui Rio podem disputar agora a liderança dos laranjas.

O salto estava dado e Paulo Rangel não mais deixaria a cena política. Depois de Pedro Santana Lopes assumir o Governo, na sequência da saída de Durão Barroso para a Comissão Europeia, Paulo Rangel foi convidado, em 2004, para ser secretário de Estado Adjunto da Justiça, servindo o então ministro Aguiar-Branco.

O executivo de Santana durou pouco mais de seis meses, até que o Presidente da República, Jorge Sampaio, decidiu utilizar a chamada "bomba atómica". Dissolveu o Parlamento e convocou novas eleições.

Mas nem por isso Paulo Rangel perdeu força no partido. Entrou nas listas para as legislativas de 2005 pelo círculo eleitoral do Porto e foi eleito deputado à Assembleia da República, momento que marcou também a adesão formal ao PSD. Suspendeu depois o mandato no Parlamento, em dezembro de 2007.

Pouco depois chegou a vez de ser Manuela Ferreira Leite a presidir o partido, o que deu um lugar de maior destaque a Paulo Rangel, indicado em 2008 para presidente do Grupo Parlamentar, regressando assim ao cargo de deputado que tinha suspendido.

Um ano depois vinha um novo desafio. Foi o principal rosto do PSD nas eleições europeias, conseguindo o lugar no Parlamento Europeu e onde é, ainda hoje (foi escolhido logo em 2009), vice-presidente do Grupo Parlamentar do Partido Popular Europeu, cargo para o qual foi reeleito esta semana. Nas eleições de 2009, o PSD venceu com 31,71%, contra os 26,58% do PS de José Sócrates. Nessas eleições ficou conhecido por fazer campanha através do Facebook, então uma plataforma não tão comum para ações políticas.

Com a saída de Manuela Ferreira Leite do PSD, em 2010, e já com o segundo mandato de José Sócrates como primeiro-ministro em curso, Paulo Rangel avança para a corrida à liderança do partido. Com ele concorreram Pedro Passos Coelho e Aguiar-Branco. Curisosamente, ainda em 2009, afirmou de forma perentória que não estava na corrida, acabando por mudar de ideias mais tarde. Nessa altura, quando afirmou estar de fora, Paulo Rangel chegou a apontar o nome de Marcelo Rebelo de Sousa para a liderança.

Então com 42 anos, conseguiu reunir grandes apoios internos. Os antigos governantes e dirigentes Nuno Morais Sarmento ou José Luís Arnaut foram alguns dos pesos pesados, bem como Pacheco Pereira e António Capucho.

Acabou por sair claramente derrotado por Pedro Passos Coelho (66,26%), mas obteve 34,44% e ficou à frente de Aguiar-Branco (3,42%) e ainda de Castanheira Barros (0,27%), que também concorreu nesse ano. Apesar da derrota, viria a aceitar o convite de Passos Coelho para presidir ao Conselho Nacional do partido.

Sempre uma sombra para o líder social-democrata, Paulo Rangel é convidado em 2014 para encabeçar a lista conjunta de PSD e CDS às eleições europeias, numa altura em que os dois partidos governavam em coligação. Juntos, obtiveram apenas 27,71% dos votos, contra uma vitória socialista de 31,46%. Curiosamente, essa seria a vitória que António Costa apelidaria de "poucochinho", lançando então a sua candidatura a secretário-geral do PS, que tinha António José Seguro à frente.

Em 2017, volta a ser apontado para a liderança do PSD, mas acaba por não concorrer, nas eleições que culminaram na vitória de Rui Rio, em janeiro de 2018.

Infelizmente, e independentemente das condições políticas subsistentes, por razões de ordem familiar, que tentei solucionar ao longo dos últimos dois dias, nas atuais circunstâncias, afigura-se inviável a apresentação dessa candidatura", revelou na altura.

Em 2019, Rui Rio confirmou Paulo Rangel como candidato social-democratas às eleições europeias. Com 33,38%, o PS vence o sufrágio. O PSD ficou com apenas 21,94% e Paulo Rangel assumiu a derrota, apontando a existência de oposição interna . Ao longo dos vários mandatos como parlamentar desempenhou várias funções relevantes e teve opiniões de peso. Uma das últimas foi em abril de 2020, quando se juntou a outros 13 eurodeputados e pediu a expulsão do partido húngaro Fidesz do Partido Popular Europeu.

Entre agosto e setembro começa a surgir a hipótese de Paulo Rangel concorrer contra Rui Rio, situação que foi confirmada esta madrugada, e que tem decisão marcada para dezembro.

Os apoios de peso

Ainda Paulo Rangel esperava para oficializar a candidatura quando vários nomes fortes do PSD se apressavam a apoiá-lo. Luís Montenegro e Miguel Relvas foram dos primeiros a dar força ao projeto.

São dois dos pesos pesados da liderança de Passos Coelho, e agora viram-se para Paulo Rangel. Luís Montenegro recusou uma nova corrida (tinha sido candidato contra Rui Rio) para apoiar o eurodeputado, enquanto Miguel Relvas vê ali um candidato "com melhores condições".

Aquele que pode ser uma alternativa é Paulo Rangel", afirmou Miguel Relvas no programa A Lei da Bolha, da TVI24.

Outro candidato à liderança do partido em 2018, Miguel Pinto Luz, também já afirmou que apoia Paulo Rangel. O vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais diz que vê no eurodeputado um candidato com o perfil indicado.

Eu já o tornei público que sim, precisamos de um líder que seja mais afirmativo na oposição e não seja tão passivo, que seja capaz de unir outra vez o PSD e não seja sectário e que tenha uma visão de mundo global e com densidade intelectual”, afirmou.

Foi precisamente na apresentação de um livro de Pinto Luz que Paulo Rangel foi visto muito próximo de Carlos Moedas e de Passos Coelho, o que para muitos foi lido como uma possível manifestação de apoio, embora nenhum dos dois tivesse comentado o assunto.

Na sua vida pública, participou ainda em vários contextos, sendo, por exemplo, comentador, ao longo de vários anos, do programa Prova dos Nove, exibido pela TVI24.

A vida pessoal com uma questão recente, mas antiga

Paulo Rangel falou recentemente de forma aberta sobre a sua orientação sexual. No programa Alta Definição, da SIC, o social-democrata nunca referiu a palavra "homossexual", mas admitiu não ser "heterossexual".

Não é nenhum segredo. Sinceramente, não é problema nenhum. Foi uma coisa que nunca escondi, nem sei o que move as pessoas nisso. Sinceramente, o que acontece é que vivi sempre discretamente porque é a vida privada, não é nenhum segredo, mas também não é coisa para se pôr nos jornais ou nas televisões, é só isso", afirmou.

Depois dessa revelação foi muito criticado por, em 2008, enquanto líder da bancada parlamentar social-democrata, ter defendido um voto contra a legalização do casamento homossexual.

Na altura, acabou por justificar a decisão dizendo que "o casamento como instituição milenar e a proteção que ele tem do Estado está intimamente ligada com a célula familiar e portanto também com a estrutura familiar de ter filhos, de os criar, de os desenvolver".

Ainda assim, revelou a mágoa por nunca ter conversado do assunto de forma aberta com os pais. De resto, como referiu, não teria feito aquelas declarações se a sua mãe ainda fosse viva.

Esta conversa que estou a ter aqui não a teria tido em 2019 [ano em que a mãe morreu], mas apenas para proteger a minha mãe", explicou.

Numa vida já bastante preenchida, mas que pode estar prestes a alcançar altos voos, Paulo Rangel não tem dúvidas: "Se morresse amanhã, se morrer amanhã, ainda serei feliz. Depois, não sei".

António Guimarães